
Os golpes certeiros e os movimentos precisos de Bruce Lee no cinema encantavam Fernando Dandoro Castilho Ferreira desde criança. Foi graças a eles que o jovem resolveu praticar Kung Fu, mais precisamente a modalidade Ving Tsun, caracterizada pelos movimentos contidos e o uso dos golpes do agressor contra ele mesmo. O próprio Bruce Lee era um entusiasta e ajudou a popularizá-la.
É uma arte marcial limpa, eficiente, discreta, sem movimentos acrobáticos ou mirabolantes e que pode ser praticada por qualquer pessoa, independentemente de tamanho ou força. Em alguns aspectos, a modalidade retratava o próprio jeito de ser de Fernando. Reservado e discreto, não falava muito. O que não significava que fosse severo ou frio com os outros. Gostava de esperar o momento certo para falar e lançar uma piada ou dito jocoso para animar o ambiente. “Ele ficava na dele, mas quando falava, normalmente, todo mundo ria”, conta o irmão Cassio.
A paixão pelo Kung Fu acompanhou toda a vida de Fernando. Nascido em Santo André, na Região do Grande ABC paulista, mudou-se para Curitiba ainda pequeno, acompanhando a família. Formou-se em Educação Física na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Não foi por acaso: adorava esportes. Futebol como passatempo com os amigos; aulas de natação como trabalho e, claro, a prática de Kung Fu, na qual alcançou o grau de mestre. De tempos em tempos ia a São Paulo para aprimorar sua técnica e ter contato com os mestres na arte milenar. Seu plano era fundar em Curitiba uma academia especializada na modalidade Ving Tsun.
A arte marcial foi sua companheira até no mestrado em Educação Física na UFPR. A dissertação tratou da inserção do Kung Fu no Brasil na perspectiva dos mestres pioneiros. Como epígrafe do texto, uma citação de Confúcio: “O Mestre disse: ‘No Estudo, deve-se proceder como se inalcançável; ainda se deve temer perdê-lo’”. Ele seguiu a risca esse conselho. Depois de concluir o mestrado, começou o doutorado em Sociologia também na UFPR. Dedicava horas e horas às leituras sobre o objeto de sua pesquisa, concentrando-se nos estudos com a dedicação de um mestre oriental. Mas, claro, sempre havia tempo para seus grandes amores: Helena, a esposa, a filha Manoela e o filhinho Antonio. O carinho entre os quatro era permanente.
Foi numa das missas do Santuário de Santa Rita de Cássia, no Hauer, que Fernando conheceu Helena. Os dois compartilhavam a mesma fé e devoção à santa italiana – conhecida hoje como a “santa das causas impossíveis” – e acabaram compartilhando também as próprias vidas por meio do casamento. A religiosidade era muito importante para Fernando. Todos os domingos participava das missas no Santuário. Também rezava com fervor a Jesus Misericordioso e confiava nele plenamente. “Uma frase que me faz lembrar de meu irmão é ‘Jesus Misericordioso, eu confio em Vós’.”
No tempo livre, Fernando gostava de um futebolzinho com os amigos ou de ouvir um bom samba, gênero musical que o encantava. Como trabalho, escolheu ensinar natação para bebês. Era uma atividade que se encaixava muito bem com o seu perfil atencioso, paciente e calmo. Alegrava-se ao ver os pequenos dando as primeiras braçadas na piscina e não escondia o sorriso ao vê-los brincando na água. Certamente recordava-se de seu Antônio, bebê com um ano de vida, que o esperava em casa.
Em novembro do ano passado, exames relevaram a existência de um tumor no intestino de Fernando. Ele enfrentou a situação com a fortaleza que lhe era habitual. Apesar do tratamento, a doença não pôde ser controlada. Partiu com a serenidade de um mestre do Kung Fu. Deixa a esposa, dois filhos, dois irmãos e a mãe.
Dia 3 de julho, aos 37 anos, devido a complicações de um câncer, em Curitiba.
Lista de Falecimentos - 13/07/2015
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