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obituário

Milton Ivan Heller: um militante em papel jornal

 | André Rodrigues/Gazeta do Povo/ Arquivo
(Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo/ Arquivo)

Qualquer pesquisador que se debruce sobre a história da imprensa local há de se surpreender com os feitos de Milton Ivan Heller. Em quatro décadas de lides jornalísticas, trabalhou na maior parte dos veículos importantes do estado. Quando o Paraná ficou pequeno para ele, debutou em empresas nacionais, incluindo a Rede Globo, a revista Placar e o Jornal do Brasil. Construiu carreira e voltou para casa, sem nunca abandonar o oficio que fez sua cabeça – escrever, escrever e escrever. A partir de 1989, já aposentado, assinou nada menos do que uma dezena de livros, todos sobre resistência política. Colocava acento nos efeitos nefastos do golpe militar de 1964, história que ficou gravada em sua pele. E na tragédia do nazismo, o que lhe rendeu reconhecimentos efusivos do governo de Israel.

Tão espantoso quanto a vitalidade de escriba de Heller é saber que sua vida escolar foi, como se dizia, “um desastre”. Costumava desviar do assunto. Filho de um comunista que vivia “correndo atrás da Coluna Prestes” – o mítico Jorge Heller, russo branco nascido na Sibéria, um dia jogador do Ferroviário F.C. –, desconheceu o significado da palavra sossego. Suas narrativas sobre fugas, mudanças de cidade e abandono dos estudos lembram, em muito, as de outro baluarte da imprensa brasileira, Cláudio Abramo – alfabetizado mais nos clássicos da literatura francesa do que nas salas de aula.

Leia o perfil de Milton Ivan Heller, escrito pelo jornalista José Carlos Fernandes em 2014

A comparar com Heller, Abramo foi um afortunado. Órfão de mãe ainda guri – e com o pai na clandestinidade –, passou parte da infância num abrigo carioca para menores. Ao se referir a si mesmo, dizia ter sido “mais pobre que um rato de igreja”. O menino branquelo, comprido (tinha 1,85 metro) e curioso chamou atenção de um inspetor do orfanato, que o colocou para fazer serviços de escritório, incluindo a datilografia. “Suspeito que tenha sido ali que ele se desenvolveu – lendo aquela papelada toda”, arrisca a filha Marly. Em 2014, numa longa entrevista à Gazeta do Povo, Heller chamou sua formação de “heroica” e creditou a alfabetização à prática de rascunhar cartas, o que teria lhe garantido o primeiro emprego num jornal, o hoje extinto Correio do Paraná.

Ainda que partes de uma bela história, as agruras financeiras custaram caro ao jovem Heller. As origens proletárias e a formação cambaleante – ele chegou a ser mascate, vendendo tapetes de porta em porta – fizeram com que muitos colegas de redação duvidassem de sua capacidade. Calou a todos, mas nada que lhe desse refresco. Sua trajetória se fez à sombra das dificuldades, ora pela falta de reconhecimento, ora porque a repressão e a censura o perseguiram sem piedade.

Confira a coluna de José Carlos Fernandes sobre o jornal Última Hora

Em 1964, trabalhava na sucursal curitibana do jornal Última Hora. Assistiu não só à pilhagem do único periódico que defendia o presidente João Goulart como amargou um processo na Justiça Militar que o impediu de atuar na imprensa. Foram os piores anos do resto de sua vida. Sem como dar sustento à mulher Catarina, e aos filhos João Eugênio e Marly – começou a vender livros em domicílio, como se ainda fosse o moço dos tapetes. Os amigos compravam até livro ruim, só para ajudá-lo. “E como não podiam comprar a cada vez que me viam, as vendas despencaram”, declarava, com seu humor ácido. Heller costumava arrancava risos quando dava trégua a sua fachada de membro honorário do “partidão”. Diante de plateias de estudantes de Jornalismo – e foram muitas a prestigiá-lo– surpreendia pelo rigor, mas sem nunca abrir mão das finesses da ironia. Era um mestre.

A saída da cena jornalística lhe doeu. Foi quando começou a produzir livros. Ponha-se na lista Resistência democrática – a repressão no Paraná, Conspiração nazista nos céus da América, De Catanduvas ao Oiapoque, A CIA e a quartelada , A atualidade do Contestado, O prisioneiro da cela 310, Os crimes hediondos da ditadura. Não é exagero dizer que parte de sua obra foi escrita em memória dos amigos que perdeu para a repressão – assunto que lhe era caro.

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Começava a pesquisar cedo, depois do café da manhã, seguindo não raro até a noite. Era “rato” da Biblioteca Pública e do Instituto Histórico. Não sossegava enquanto não confirmasse um dado. E quando um novo título estava pronto, saía atrás de quem lhe ajudasse nos custos. Se não encontrava parceiros, pagava a edição do próprio bolso. “Quando os livros chegavam, ficava feito criança”, lembra Marly, ao mostrar uma caixa de madeira apinhada de recibos dos Correios. Heller fazia a distribuição postal das obras para escolas e bibliotecas, na certeza de que encontraria leitores. Brincava que era uma espécie de Van Gogh, cuja obra seria reconhecida apenas depois da morte.

Em tempo, Milton Ivan Heller preparava uma publicação sobre o historiador paranaense Rocha Pombo, por quem nutria solene admiração. Estava com viagem marcada para Portugal, país que sonhava conhecer. Entristecia-se e se indignava com o noticiário. Recentemente, alegrou-se ao ir a um show de Martinho da Vila. Compareceu a bordo de uma cadeira de rodas, veículo que detestava. Viúvo, deixa dois filhos e quatro netos.

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