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Obituário

Nadir Fressato: as alegrias de “Seu Sato”, o motorista

 | Acervo da família/
(Foto: Acervo da família/)

Todos os anos, o motorista de ônibus Nadir Fressato ganhava homenagens na autoviação em que trabalhava. Merecia: com quase 80 anos, era um dos condutores mais antigos em Curitiba e região metropolitana. Não só. Houvesse uma pesquisa de popularidade, seu Sato, como o chamavam na firma, ganharia disparado. O combo de simpatia, bom humor e prazer tirado do ofício o tornou uma celebridade municipal na linha em que mais circulou – a “Sacre Coeur”, a cujo nome fazia jus. Sua maior virtude? Distribuía e despertava afeto, sem economia.

Os passageiros – que lhe devolviam os gracejos que tinha sempre à ponta da língua – mal faziam ideia da quilometragem que percorreu para chegar até ali. Nascido na comunidade italiana do Campo Comprido, cedo despontou para o futebol. Os parentes e amigos viam nele uma promessa de craque. Circulou na Suburbana, ganhando destaque no time da Colônia Orleans. A carreira nos campos não decolou, mas a paixão grudou à pele.

Tornou-se comentarista esportivo na Rádio Marumbi. Mais velho – e então longe dos bastidores do esporte – alistava-se entre os milhares de técnicos de futebol anônimos do Brasil. Esculachava os técnicos e fazia sua própria escalação do Atlético – a favor do qual desfiava um rosário de palavrões durante as partidas. Em dia de jogo, grudava à orelha o objeto que suportava tanto nervosismo: o rádio de pilha. Nessas horas, os seus rezavam para que aguentasse a tensão.

O futebol não foi a única carreira de Nadir antes de conduzir ônibus. Por mais de uma década foi funcionário da hoje extinta Malas Ika. Nas horas vagas, “costurava” costas, alistando-se entre os poucos benzedeiros da região. Houve também a fotografia. Fez bela figura. Centenas de casais foram retratados por ele, no dia de casamento. Não devem tê-lo esquecido: era daqueles com o sorriso de plantão, como se nada nem ninguém tivesse poder de lhe baixar o astral. “Italianíssimo”, resume a filha Célia, ao lembrar que o pai “transbordava”. “Amava uma festa. Queria gente em volta dele. Emotivo – chorava até ao ver beijo de novela. Numa comemoração, divertia-se mais do que todos os outros – incluindo os noivos e os aniversariantes”.

Quando lhe visitavam, no Abranches, uma de suas especialidades era “esticar”. Servia os quitutes aos poucos, deixando o “vinho bom” para depois. Ao se darem conta, os convivas estavam comendo pizza de madrugada, conforme Didi, apelido entre os mais próximos, tinha arquitetado em segredo. Na hora da turma ir embora, arrumava uma última surpresa para segurá-los: “Fiz gelo de coco. Querem experimentar?” A noite ficava mais longe do fim. “Tenho para mim que ele detestava ficar sozinho”, comenta a filha. Daí o encontro marcado com a profissão de motorista, de todas as funções, aquela com a qual mais se identificou.

Ao circular pelo Bairro Alto, seu território, estava em companhia de pessoas o tempo todo. Narrava histórias para os passageiros, quase todos conhecidos. Sentia-se em movimento. Precisava tanto se deslocar que chegou a abrir um processo de “desaposentadoria”. Não queria parar. Nem nas folgas: se estava fora da escala, cortava grama e lavava calçada, com ares de guri – sempre de calção: não sentia frio.

O orgulho que sentia do emprego gerava cenas inesquecíveis, como ir ao casamento do neto – João Carlos Barrichelo Júnior – de terno e com o crachá da viação à mostra. A atitude despertava elogios: “Adoraria pegar um ônibus que o senhor estivesse dirigindo”, diziam-lhe os convidados. Ele não discordava. Nem tampouco os colegas de viação, que todos os anos aplaudiam seu Sato, o homem que colocou a alegria a bordo do transporte coletivo de Curitiba. Deixa viúva Cecília, de segundas núpcias, quatro filhos, oito netos e oito bisnetos.

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