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Comportamento

A difícil volta ao Brasil após um intercâmbio

Diz a sabedoria popular que viajar é bom, mas voltar para casa é ainda melhor. Na prática, grande parte dos brasileiros que passam um tempo no exterior sentem dificuldade de se readaptar ao país

Natália morou dois anos nos EUA: “Voltei em janeiro e até hoje estou me acostumando” | Roberto Custódio/Jornal de Londrina
Natália morou dois anos nos EUA: “Voltei em janeiro e até hoje estou me acostumando” (Foto: Roberto Custódio/Jornal de Londrina)

Dos 27 anos de vida de Larissa Fernandes, dois foram vividos nos Estados Unidos. Brasileira, nascida em Arapongas, no Norte do Paraná, a analista de marketing participou de um programa de Au Pair (intercâmbio para trabalhar) em São Francisco, onde estudou inglês e fez cursos de extensão. Foram 24 meses de amizades, viagens e compras. Mas a hora de voltar, apesar da saudade da pátria natal, não foi tão fácil assim. "Em agosto faz um ano que voltei e ainda estou com dificuldade de me adaptar ao Brasil", conta. Pode parecer estranho, mas é mais comum do que se imagina. Voltar para o país de origem, depois de morar um tempo no exterior, é um desafio que exige esforço para a readaptação.

O psicólogo Fernando Zanluchi explica que isso acontece porque, ao sair do país por um tempo, a pessoa entra em um "movimento natural" de acreditar que está indo para um lugar melhor. "Você denigre o país onde vive. Aí, quando volta, precisa fazer as pazes, reconstruir essa imagem dentro de você. Por isso, a pessoa se sente deslocada no começo. É preciso reconstruir essa imagem, o que leva tempo", afirma.

De acordo com o especialista, a adaptação na volta para casa tem relação direta com o motivo que levou o indivíduo a viajar. "No mesmo dia da anistia, tinha avião de brasileiro voltando. 99% voltaram, porque eles foram obrigados a sair, e aqui é um país bom." Zanluchi acrescenta que a adaptação é um pouco mais complicada para adolescentes, uma vez que eles estão em período de transformação. "Você sai um do país e volta outro. E essa necessidade de adaptação não é tanto com o lugar, nesse caso, mas consigo mesmo", diz.

No caso de Larissa Fer­nandes, a dificuldade de readaptação tem uma forte ligação com os amigos. "Voltei e meus amigos estão todos casados, mudaram. Fiz muitas amizades lá nos Estados Unidos, sem contar a família com quem morei. Sinto falta e falo com eles quase todos os dias. O Brasil é muito diferente", afirma. Planos de voltar ela tem, algum dia. "Por enquanto não, porque tenho um emprego legal aqui. Mas penso em ir fazer um MBA."

A consultora da Central de Intercâmbios (CI) de Lon­drina Natália Dias Esteves, 24 anos, também viveu uma experiência de 21 meses no exterior que deixou saudade. Ela conta que optou pelo programa Au Pair por ser barato e de longa duração, além de permitir que o turista estude inglês. Apesar de ficar na Pensilvânia, Natália conta que conheceu o "país todo", pelas facilidades de locomoção nos Estados Unidos. "Aqui, para ir ao Nordeste você precisa juntar dinheiro o ano todo. Senti, sim, falta do Brasil, culturalmente, mas lá é tudo mais fácil. Voltei para cá em janeiro e até hoje estou me acostumando."

Entre as facilidades que agradaram Natália está a possibilidade de consumo a baixos preços. Prova disso foi a bagagem que ela trouxe de volta. "Levei uma mala e voltei com cinco. Até agora não comprei nada aqui, porque não dá coragem. Lá é tudo tão fácil, isso é o que mais me revolta."

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