
Dos 27 anos de vida de Larissa Fernandes, dois foram vividos nos Estados Unidos. Brasileira, nascida em Arapongas, no Norte do Paraná, a analista de marketing participou de um programa de Au Pair (intercâmbio para trabalhar) em São Francisco, onde estudou inglês e fez cursos de extensão. Foram 24 meses de amizades, viagens e compras. Mas a hora de voltar, apesar da saudade da pátria natal, não foi tão fácil assim. "Em agosto faz um ano que voltei e ainda estou com dificuldade de me adaptar ao Brasil", conta. Pode parecer estranho, mas é mais comum do que se imagina. Voltar para o país de origem, depois de morar um tempo no exterior, é um desafio que exige esforço para a readaptação.
O psicólogo Fernando Zanluchi explica que isso acontece porque, ao sair do país por um tempo, a pessoa entra em um "movimento natural" de acreditar que está indo para um lugar melhor. "Você denigre o país onde vive. Aí, quando volta, precisa fazer as pazes, reconstruir essa imagem dentro de você. Por isso, a pessoa se sente deslocada no começo. É preciso reconstruir essa imagem, o que leva tempo", afirma.
De acordo com o especialista, a adaptação na volta para casa tem relação direta com o motivo que levou o indivíduo a viajar. "No mesmo dia da anistia, tinha avião de brasileiro voltando. 99% voltaram, porque eles foram obrigados a sair, e aqui é um país bom." Zanluchi acrescenta que a adaptação é um pouco mais complicada para adolescentes, uma vez que eles estão em período de transformação. "Você sai um do país e volta outro. E essa necessidade de adaptação não é tanto com o lugar, nesse caso, mas consigo mesmo", diz.
No caso de Larissa Fernandes, a dificuldade de readaptação tem uma forte ligação com os amigos. "Voltei e meus amigos estão todos casados, mudaram. Fiz muitas amizades lá nos Estados Unidos, sem contar a família com quem morei. Sinto falta e falo com eles quase todos os dias. O Brasil é muito diferente", afirma. Planos de voltar ela tem, algum dia. "Por enquanto não, porque tenho um emprego legal aqui. Mas penso em ir fazer um MBA."
A consultora da Central de Intercâmbios (CI) de Londrina Natália Dias Esteves, 24 anos, também viveu uma experiência de 21 meses no exterior que deixou saudade. Ela conta que optou pelo programa Au Pair por ser barato e de longa duração, além de permitir que o turista estude inglês. Apesar de ficar na Pensilvânia, Natália conta que conheceu o "país todo", pelas facilidades de locomoção nos Estados Unidos. "Aqui, para ir ao Nordeste você precisa juntar dinheiro o ano todo. Senti, sim, falta do Brasil, culturalmente, mas lá é tudo mais fácil. Voltei para cá em janeiro e até hoje estou me acostumando."
Entre as facilidades que agradaram Natália está a possibilidade de consumo a baixos preços. Prova disso foi a bagagem que ela trouxe de volta. "Levei uma mala e voltei com cinco. Até agora não comprei nada aqui, porque não dá coragem. Lá é tudo tão fácil, isso é o que mais me revolta."







