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Protestos

A revolta popular que não foi por apenas 20 réis

Mobilização popular contra a criação de um imposto de 1,5% sobre a renda dos comerciantes do Paraná custou o posto ao governador da província

  • Diego Antonelli
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Uma multidão toma as ruas de Curitiba em direção à sede do governo. Há enfrentamentos entre policiais e a população civil. Revoltosos são presos e feridos. Tiros são disparados para todos os lados. O cenário bem que poderia ser o dos protestos que tomaram o Brasil em junho deste ano, mas aconteceram durante o período imperial do país.

Entre os dias 27 e 30 de março de 1883, a capital da então província do Paraná virou uma verdadeira praça de guerra. A chamada “Revolta do Vintém” mobilizou a sociedade contra o início da cobrança de impostos sobre a renda dos comerciantes.

Ao perceber que a receita arrecadada pelo Paraná era inferior ao programado no orçamento, o então governador da província, Carlos Augusto de Carvalho, solicitou à Assembleia Provincial que votasse uma lei criando um imposto de 1,5% sobre as rendas. A medida enfureceu os comerciantes. No dia 27, data em que a cobrança entraria em vigor, o comércio curitibano fechou as portas e convocou a população para aderir ao movimento.

No salão Lindermann, situado na Rua São Francisco, houve uma reunião entre o líder do movimento, Sérgio de Castro, e o representante do governo, Manuel Eufrásio. Castro ressaltou que os comerciantes não aceitariam a imposição. Mas Eufrásio foi relutante. O imposto continuaria. “Os impostos variavam de acordo com a renda dos comerciantes e isso enfureceu os ânimos da categoria”, salienta o pesquisador e historiador Hilton Costa.

Sem acordo, o governador Carlos de Carvalho ordenou que o 3.º Regimento de Artilharia, o 2.° Corpo de Cavalaria e a polícia provincial fizessem patrulhamento nas ruas da cidade para evitar qualquer incidente. No dia 30, após a realização de um comício, grande parte da população marchou em direção ao palácio do governo. Gritos de ordens ecoaram pelas vias provincianas de Curitiba.

O choque entre o aparato militar e os civis foi inevitável. Postadas à frente dos manifestantes, as forças policiais impediram a progressão da passeata. Mas os rebeldes não se intimidaram. Disparos de armas de fogo tornaram as ruas próximas ao palácio um palco de guerra. Incontáveis pessoas foram feridas e diversas, presas. Um dos detidos foi o líder do movimento. A situação se agravou ao constatar que muitos alemães ficaram feridos ou foram presos. Isso virou um verdadeiro atrito diplomático entre o Brasil e a Alemanha.

Mas, de nada adiantou os gritos contra o imposto criado por Carlos de Carvalho. “Apesar dos protestos que tomaram conta da cidade, o imposto foi mantido”, ressalta Costa.

No entanto, o idealizador do imposto foi o grande derrotado da história. Antes, Carlos de Carvalho tinha forte apoio popular, mas a “Revolta do Vintém” foi determinante para que ele perdesse apoio político e a confiança da sociedade. Em maio, ele não aguentou a situação e entregou o cargo ao vice, Antônio Alves de Araújo.

Preço do bonde cria revolta popular no Rio

Antes mesmo da Revolta do Vintém em palco curitibano, um motim de mesmo nome – e que se tornou mais famoso nos livros de História – tomou conta das ruas cariocas. A série de manifestações ocorreu entre 28 de dezembro de 1879 e 4 de janeiro de 1880 contra o aumento das passagens de bonde no Rio de Janeiro. O novo valor correspondia a um acréscimo de um vintém – 20 réis – sobre o valor dos bilhetes do transporte público. “Por isso, transformou-se em Revolta do Vintém. O mesmo nome foi usado em Curitiba anos depois, apesar de no Paraná o aumento do imposto variar conforme a renda da população”, explica o pesquisador Hilton Costa. Segundo ele, com um vintém na época era possível comprar 139 gramas de açúcar e 29 gramas de banha. “Não era muito, mas quem usava o bonde, na maioria das vezes, eram pessoas de baixa renda e qualquer elevação de preço já fazia diferença”, explica Costa. Os protestos começaram logo após o anúncio do aumento e foram estimulados especialmente pelos republicanos, liderados pelo jornalista Lopes Trovão. Estima-se que cerca de 5 mil pessoas tenham participado dos atos. “Foram várias manifestações. Os revoltosos tombavam os bondes, arrancavam parte dos trilhos, matavam os burros e mulas que puxavam os bondes. Foram várias cenas de violência”, relata o historiador. Também ocorreram diversos atos de confrontos com a polícia. O auge do motim se deu na rua Uruguaiana, onde a força policial se uniu ao Exército, e confrontaram-se povo e militares. Segundo a historiadora Neusa Fernandes, no artigo “A Revolta do Vintém”, nesse episódio cerca de 4 mil pessoas foram surpreendidas com 600 soldados avançando para as barricadas populares, levantadas com os paralelepípedos das calçadas. “Tiros foram disparados. Houve três mortes e vinte feridos. A cidade do Rio de Janeiro viveu 12 horas de terror”, escreveu. Ao contrário de Curitiba, onde o imposto foi mantido, a onda de manifestação fez com que a cobrança do aumento fosse revogada e os principais integrantes do governo ligados de alguma forma aos episódios foram substituídos.

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