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A Riachuelo nunca foi santa

Ela já foi a rua mais importante de Curitiba. Suas múltiplas visões a reinventam de tempos em tempos, sempre com ótimas histórias

  • José Carlos Fernandes
Dayana, Aline e Fabiano numa das esquinas da Riachuelo: “Não compramos discursos prontos.” |
Dayana, Aline e Fabiano numa das esquinas da Riachuelo: “Não compramos discursos prontos.”
 
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A Riachuelo nunca foi santa

Todo mundo tem algo a dizer sobre ela – decadente, abandonada, devassa, perigosa. Há quem destaque ser o dicionário da arquitetura antiga de Curitiba, museu aberto de todos os estilos, como diz o historiador Marcelo Sutil, ao listar exemplares que vão do neoclássico, como a Casa Edith, ao eclético, passando pelas linhas getulistas. Outros a tratam sob o filtro da saudade, falando da “era de ouro”, quando os poderosos a usavam como o menor ponto entre a estação ferroviária, os palácios e a glória. Depois disso, o nada. Mas a via não morreu – é o que garantem três jovens pesquisadores curitibanos. Durante dois anos eles bateram nas portas, travaram com sírios recém-chegados, cortiçados, comerciantes. Reviraram documentações e testaram teorias sobre as quatro quadras que viram um século e tanto da cidade passar. Ela envelheceu, mas menos do que se imagina.

A malfalada

“Ah, minha filha, eu estou de saco cheio de falar da Rua Riachuelo...”, despachou um comerciante ao ser abordado pela antropóloga Dayana Zdebsky de Cordova. “Sobre a Riachuelo? Putz, é para trabalho de escola?”, desconversou outro. Foi preciso insistir – e muito – para dar cabo ao livro As muitas vistas de uma rua – histórias e políticas de uma paisagem, escrito por Dayana em parceria com a também antropóloga Aline Iubel e o historiador Fabiano Stoiev. O projeto resultou de dois anos de batidas de perna pela via mais “mal falada” da capital.

A dificuldade não se limitou a convencer os “inquilinos” a dar entrevista. Tão complicado quanto foi cumprir o propósito de não repetir as mesmas histórias de sempre, ditas no piloto automático. Conseguiram. Que ninguém espere de As muitas vistas... aquela velha opinião formada sobre tudo – leia-se a rua da prostituição, da decadência, do crack, da venda de móveis usados, ou um mero trecho exótico que vai do popular Restaurante Graxaim ao refinado Île de France, entre outros estereótipos das “bocas do lixo” que existem nas capitais.

Todos esses itens manjados vieram à tona, mas debaixo de um conceito caro aos três pesquisadores. “A Rua Riachuelo é uma paisagem cultural”, resume Fabiano Stoiev, sobre a expressão que equaciona memória, a arquitetura e as pessoas. Dayana, Aline e Fabiano não eram propriamente noviços. Em 2012, em parceria com o fotógrafo Leco de Souza, assinaram o projeto Pelos trilhos, incursão por outra paisagem – a paisagem ferroviária. Poucos apostavam que alguém pudesse imprimir alguma novidade a assunto. Pois se enganaram.

Quase tão narcisistas quanto os cariocas, os curitibanos costumam alimentar um tom nostálgico a todo e qualquer discurso sobre a cidade. É um cacoete. O que era bom, já passou. O cheiro de naftalina e a atmosfera simbolista imperam. Mas a regra não vale para esses jovens afinados com a nova onda, formada por cicloativistas, neo hippies e, em específico no caso deles, estudiosos ocupados mais da personalidade urbana do que de seus fósseis.

Basta dizer que o término da pesquisa coincide com a primavera da Rua São Francisco – uma das transversais da velha Riachuelo, barulho bom que o livro não deixa de refletir. Agora há luz, som e cor naqueles quarteirões que mais pareciam um beco escuro. Uma moção popular tenta converter a estreita via de paralelepípedos em calçadão. Os restaurantes alternativos pipocam. A praça pocket dos ciclistas, na esquina com a Rua Presidente Faria, rivaliza em fama com a Tiradentes. Por ironia, depois de tantas políticas frustradas de revitalização, a Riachuelo está se renovando - pelas bordas.

Tática

Fabiano Stoiev, a quem coube a redação final, transita por um século e meio de Riachuelo como quem lhe arranca as camadas de pele em busca das razões que a edificaram. Matou a charada. A Riachuelo é a rua que “sempre ficou para depois”. No século 19, era caminho para o litoral. Conheceu o fausto. Mas a cada nova fase da cidade, outros caminhos se sobrepunham – a Barão do Rio Branco, a Barão do Serro Azul e, claro, a Rua XV.

Seu destino acabava sendo sempre o mesmo – o de lugar de passagem. Pois o infortúnio lhe fez bem. Dos bondes com tração animal aos de trilhos, e a partir de 1974, com os Expressos, gerações de curitibanos passaram por ali. Pode ter sido vítima do desamor dos governantes, do descaso dos moradores, mas ocupa o mapa afetivo de milhares. Sua biografia é também a biografia dos anônimos que passaram por ali de. As muitas vistas... capta esse sentido – é o que basta.

A excluída

Qualquer assunto que envolva a Rua Riachuelo rende uma tese sobre a vida urbana. Uma delas diz respeito ao azar, ou à sorte, de o conjunto da via não ter sido listado na primeira demarcação do Patrimônio Histórico Municipal, na década de 1970. Em mapeamentos posteriores o descuido foi corrigido, mas não é difícil imaginar que o estrago já estava feito. A Riachuelo parece sempre vítima de si mesma. No entendimento dos arquitetos e urbanistas da época, a rua tinha arquitetura demais da década de 1930 em diante, quando o que lhes interessava eram exemplares do período colonial, neoclássico, art nouveau. Em resumo, a rua era art déco demais para o projeto. “Descongelada” e ao sabor do uso da população, o lugar seguiu em pista própria, como em outras épocas, de resto.

Cracolândia?

A pesquisa se desenvolveu paripassu com o último projeto de revitalização da Rua Riachuelo, iniciado em 2010, numa parceria do Ippuc com o Sebrae. O calçamento vermelho e as fachadas pintadas – muitas em cores originais – são herança do período. A coincidência ajudou na saúde do projeto – povoado de referências às matérias de jornais daquele momento e capta os imaginários sobre a rua, declarados por populares sob o impacto das reformas. “Quando se fala em revitalizar, em requalificar, resgatar, é muito rico, porque parece que cada grupo entende essa proposta de um jeito diferente. Partimos do que a própria mídia falava para iniciar nossas conversas”, diz Dayana. Ela se refere à gentrificação – palavra usada para traduzir a reciclagem urbana feita à custa da retirada de moradores marginalizados. Pode não ter ocorrido de fato, mas houve a tentação. Os cortiços, o comércio estagnado, a prostituição e a pequena cracolândia que ali se formou foram tratadas com amor e ódio .

Rua privada

A pesquisa que resultou no livro As muitas vistas de uma rua – histórias e políticas de uma paisagem, destaca um aspecto pouco citado da Rua Riachuelo. “É uma rua privada”, diz a antropóloga Dayana Zdebsky. Ela se refere às dificuldades crônicas de intervenção da prefeitura na via. A explicação para o embate é simples. Estreita, com míseras quatro quadras e espremida entre marcos urbanos como a Praça 19 de Dezembro e a Praça Generoso Marques, a Riachuelo carece de área pública. “Ela é indomável, desejada e difícil. Muitas intervenções ali feitas talvez não tenham sido democráticas. Mas são sempre complicadas. A entrada do poder público enfrenta resistências. Não se aplica um modelo a uma rua com as características da Riachuelo”, diz a pesquisadora.

Muito velha

Os primeiros registros da Rua Riachuelo remontam aos anos 1820-1830, mas com o nome Rua dos Lisboas ou Rua Lisboa – o que indica a presença de portugueses na região. Para surpresa, os pesquisadores encontraram poucas referências seguras à ocupação e proximidade de judeus e árabes no trecho, ainda que essa convivência seja propalada no imaginário local.

Em outros registros, a Riachuelo aparece nominada também como Rua dos Veados, Rua do Campo e Rua da Carioca. Em 1871, foi batizada com o nome que tem hoje, numa alusão à batalha da Guerra do Paraguai. Na ocasião, ganha calçamento e passa a servir como espaço de passeio para os moradores. A inauguração da Estação Ferroviária, em 1885; do Passeio Público, em 1886; e de uma linha de bonde, em 1887, ligando à Estação, se encarregam de coroá-la de importância.

Registros apontam que desde o início a via teve vocação comercial, a ponto de na primeira metade do século parte dela se confundir com a “Turquia”, apelido dado ao entreposto de árabes, na altura da Praça Generoso Marques.

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