“Sabemos que filhos de alcoolistas têm quatro vezes mais riscos de desenvolver a doença. Mas a genética não vai colocar o indivíduo no caminho da doença. Quem faz isso é o ambiente" | Leonardo Soares/AE
“Sabemos que filhos de alcoolistas têm quatro vezes mais riscos de desenvolver a doença. Mas a genética não vai colocar o indivíduo no caminho da doença. Quem faz isso é o ambiente"| Foto: Leonardo Soares/AE

São Paulo - A psicóloga Ana Beatriz Pedriali Guimarães, de 32 anos, mergulhou nos últimos anos no complexo universo das mulheres alcoólicas. Em sua pesquisa de doutorado, defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), descobriu que a alcoolista, independentemente da classe social, era a preferida do pai. Em compensação, a relação com a mãe era conturbada. E essa mãe também bebia.

Em sua pesquisa, feita com 62 mulheres, a especialista conclui que a doença é transmitida entre as gerações femininas de uma mesma família. O trabalho, premiado no Canadá, deu origem ao livro Um Passado que Vive, recém-lançado pela editora Rosea Nigra (152 páginas; R$ 35).

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Quais são os resultados mais significativos de sua tese para sustentar a teoria de que o alcoolismo feminino é passado de geração para geração?

A transmissão de geração para geração não é só do alcoolismo, mas também de padrões de comportamento dessas famílias que acabam colocando-as em risco. A estrutura familiar passa de geração para geração desde os avós. No grupo das alcoolistas, ficou claro que elas usavam o álcool para lidar com os problemas diários. Elas tinham também um histórico de problemas conjugais. E foram abusadas física e psicologicamente pelas mães. No caso delas, as mães também eram alcoolistas e tinham problemas com os companheiros. É interessante que essas mulheres não são só vítimas de violência física e psicológica, mas também são violentas com as filhas. É mais ou menos assim: sofreu violência com a mãe, se tiver uma filha, também será violenta. As avós também eram violentas com as mães das alcoolistas. Outro dado é que os pais dessas mulheres alcoolistas eram violentos com as mulheres, mas não com as filhas.

Então não procede a ideia que muitos têm de que as alcoolistas não tiveram referências do pai?

Pelo contrário. Elas eram as queridinhas, as preferidas, as superprotegidas pelo pai. Em compensação, com a mãe ti­­nham um relacionamento conflituoso desde sempre. É o que chamamos de triangulação.

O que é a triangulação?

É quando um dos membros do casal se une a um dos filhos contra o companheiro, provocando ciúmes no outro. Então, elas têm uma relação de superenvolvimento com o pai e conflito com a mãe. Pessoas com triangulação na família têm dificuldades de se individualizar, de constituir a própria família. E, quando o fazem, essa relação não é completa. Ninguém pode estar casado emocionalmente com mais de uma pessoa. É a lealdade invisível: sou leal à minha família de origem e não consigo me desvincular dessa família. Nas entrelinhas, a triangulação tem influência no conflito conjugal das alcoolistas.

Se as filhas de alcoolistas têm uma boa relação com os pais, por que acabam entrando em relacionamentos problemáticos?

Elas não têm uma boa relação com os pais, fazem parte de um triângulo que é patológico, e o modelo de aprendizado de relação conjugal que presenciam em suas casas é de conflito entre seu pai e sua mãe.

Como é a estrutura das famílias de mulheres alcoolistas?

São famílias superenvolvidas ou emaranhadas, o que é patológico. Só que, na cultura brasileira, isso é visto como afetivo. É aquela família que todo mundo sabe de todo mundo Não há limites entre as pessoas. São aquelas mães que, por exemplo, mexem nas agendas das filhas, reviram tudo.

Pela sua pesquisa, as filhas de mulheres alcoolistas tendem a ser alcoolistas. Mas e quanto aos filhos?

Não realizei esse estudo, não teria como afirmar com propriedade sobre filhos homens com mães alcoolistas.

O alcoolismo é genético?

A genética predispõe. Sa­­bemos que filhos de alcoolistas têm quatro vezes mais riscos de desenvolver a doença. Mas a genética não vai colocar o indivíduo no caminho da doença. Quem faz isso é o ambiente. O aprendizado que temos é o modelo, e ele é tão importante quanto a genética. Há muitos estudos sobre o alcoolismo entre os homens, mas não entre as mulheres. O alcoolismo é diferente em homens e mulheres.

Com base na conclusão de que o alcoolismo feminino é passado para as outras gerações, como é possível preveni-lo?

Com a terapia familiar se consegue quebrar o padrão e fazer a prevenção das filhas e netas para que possam escolher caminhos diferentes. A terapia pode ser feita com a família presente ou individualmente, mas com foco familiar. Também na escola se pode fazer a prevenção quando se sabe que alguma aluna é filha de alcoolista, pode-se ficar mais atenta a ela.

O alcoolismo feminino está presente em todas as classes sociais?

Sim. O alcoolismo nas classes mais altas talvez seja mais escondido, mas ocorre da mesma maneira.

Quais as principais diferenças entre o alcoolismo feminino e o masculino?

As mulheres desenvolvem a doença mais rapidamente. Enquanto os homens levam dez anos, nas mulheres a média é de seis a sete anos. Como as mulheres têm mais gordura no corpo e menos água, o álcool demora mais tempo para metabolizar, facilitando a embriaguez.

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