
São Paulo - Um pingente de marfim de mamute, de seis centímetros de altura, representando uma mulher de seios, coxas e órgãos sexuais exagerados, é a mais antiga peça de arte figurativa já descoberta no mundo. O arqueólogo britânico Paul Mellars diz que a figura, "para a sensibilidade do século 21, chega às raias do pornográfico".
O pingente foi descoberto no sul da Alemanha, por arqueólogos da Universidade de Tubíngia. A peça é datada de 35 mil anos atrás. Chamada de Vênus de Hohle Fels nome da caverna onde foi encontrada o objeto tem, no lugar da cabeça, num anel para a passagem do cordão.
A Vênus de Hohle Fels é pelo menos 5 mil anos mais antiga que todas as outras estátuas do mesmo tipo já descobertas.
O pingente foi encontrado juntamente com ferramentas de osso, pedra e marfim característicos das primeiras habitações de seres humanos modernos na Europa.
A população humana moderna do período substituiu os neandertais no continente, em um processo que culminou com a extinção do homem de neandertal há aproximadamente de 30 mil anos.
Obras de arte mais antigas já foram encontradas há sinais de arte africana de 75 mil anos atrás mas são trabalhos abstratos, e não figurativos. A arte figurativa, diz Nicholas Conard, autor de um artigo na revista Nature, que descreve a descoberta, "costuma ser vista como um sinal importante de comunicação simbólica".
Fragmentos
O pingente foi descoberto em fragmentos e, depois de todas as peças serem documentadas e identificadas, esses fragmentos foram colados para reproduzir o máximo da estatueta intacta.
As escavações no local prosseguem, e talvez novos fragmentos do pingente ainda venham a ser descobertos: a estátua ainda está sem o ombro e o braço esquerdos.
"A característica da figura recém-descoberta que certamente chamará mais atenção é sua natureza sexual explícita, quase agressiva", diz Mellars em seu comentário. Citando o fato de outras figuras de Vênus torsos femininos com características sexuais exageradas já terem sido datadas de 29 mil a 25 mil anos atrás, o arqueólogo pondera que "a extensão dessa obsessão com as características femininas a pelo menos 35 mil anos atrás não deve surpreender", citando a descoberta de esculturas de 35 mil a 36 mil anos, na França, que parecem inspiradas pela aparência da vulva.
"Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre essas representações, está claro que a dimensão sexualmente simbólica da arte europeia (e mundial) tem uma longa ancestralidade na evolução de nossa espécie", escreve.
Cultura e arte
Em documentário produzido para a internet pela Nature, a arqueóloga Maria Malina, que tomou parte na descoberta, diz que a estátua ajuda a entender melhor a vida do povo pré-histórico.
"As pessoas não estavam só procurando comida ou caçando", afirma. "Elas tinham tempo de tocar música, de criar arte. Cultura e arte eram partes importantes da vida humana naquela época. Talvez, isso nos faça vê-los muito mais perto de nós."







