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Biólogo abate aves em extinção

Símbolo da cidade de Guaratuba, guarás estavam sumidos havia um século. Quando retornaram, dois foram mortos. Pesquisador alega que os confundiu com outra espécie

  • Vanessa Prateano
Guará está na lista dos animais criticamente ameaçados de extinção. Dois dos 12 que voltaram há três anos para Guaratuba foram abatidos em maio |
Guará está na lista dos animais criticamente ameaçados de extinção. Dois dos 12 que voltaram há três anos para Guaratuba foram abatidos em maio
 
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Biólogo abate aves em extinção

O guará, pássaro vistoso, de plumas cor de laranja e porte elegante, é um símbolo de Guaratuba – a ci­­dade de muitos guarás. Embora a ave faça parte do nome do município e sua imagem seja explorada em diversos pontos, a espécie estava desaparecida da cidade havia pelo menos um século. Só há registros da presença do pássaro, ameaçado de extinção por causa da caça predatória, em outros municípios – o último foi em 1977, em An­to­­nina. Por isso, o aparecimento de 12 indivíduos há três anos na Baía de Guaratuba causou comoção entre moradores e biólogos. Os guarás estavam voltando. A alegria, porém, deu lugar à apreensão.

Há algumas semanas, a Secretaria de Meio Ambiente da cidade tomou conhecimento de que um biólogo teria abatido duas aves da espécie – que está na lista dos animais criticamente ameaçados de extinção – dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba. O abate ocorreu no dia 15 de maio e foi presenciado por um morador. O biólogo Louri Klemann Júnior foi credenciado pelo Instituto Ambiental do Pa­­raná (IAP) e pelo Instituto Bra­­sileiro do Meio Ambiente (Ibama) para fazer a coleta de outras duas espécies, tapicuru-de-cara-pelada e caraúna-de-cara-branca, mas abateu os pássaros ameaçados. Em ofício enviado ao IAP, Klemann admite o fato, mas afirma que o fez por engano, devido “às distâncias com que foram feitas as coletas e à luminosidade desfavorável durante a manhã daquele dia (com a presença de névoa)”. Procurado pela Gazeta do Povo, o biólogo afirmou que não tinha interesse em conversar com a reportagem.

Para o zootecnista e funcioná­­rio do Departamento de Meio Am­­biente da prefeitura de Guaratuba, Márcio Nascimento, a justificativa não é plausível. “Se a visibilidade é ruim e o pássaro está longe, ele não deveria abater. Na dúvida, não ­­se atira”, afirma. O Ibama, em e-mail enviado à prefeitura, ao qual a reportagem teve acesso, afir­­ma que não tem competência para realizar autuações, já que o abate se deu em área estadual, mas ressalta que a justificativa parece “mais uma tentativa de ficar com o animal do que defesa propriamente dita” e que “a culpa está clara, uma vez que as condições de visibilidade só serão ruins porque o próprio pesquisador optou pela coleta nessas condições”.

Nascimento afirma que a prefeitura pretende cobrar explicações do IAP sobre uma possível multa a ser aplicada nesse caso, pois o fato pode abrir precedentes para que outros profissionais façam o mesmo. “Não existe exemplar dessa ave em museus do Paraná, logo, coletar uma delas incrementa o currículo de qualquer profissional. E se um biólogo, vindo de fora, faz algo assim e se redime com essa justificativa, qualquer um pode alegar o mesmo.” A vice-presidente do comitê gestor da APA, a bióloga Bianca Reinert, lamentou o fato e disse esperar que o IAP investigue o caso. “A espécie em questão é ameaçada de extinção no estado do Paraná e não pode ser coletada. Lamento muito o ocorrido e espero que a ave símbolo de Guaratuba não tenha abandonado o local.”

Devolução

Atualmente, os dois guarás se encontram no Museu de História Natural Capão da Imbuia, em Curitiba. O museu foi a instituição que contratou o biólogo para coletar as espécies do tapicuru e do caraúna. De acordo com Nasci­­men­­to, a prefeitura pretende reclamar a devolução dos guarás. “Não é justo que Guaratuba perca o exemplar para um museu de Curitiba. Eles não deveriam ser abatidos, mas como fo­­ram, devem ficar no município.” A reportagem não conseguiu contatar os responsáveis pela instituição. Já o IAP, por meio da diretora de Bio­­di­­versidade e Áreas Protegidas, Márcia Tussolino, se limitou a afirmar que o biólogo não possuía licença para abater os guarás e que irá analisar o caso.

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