Há seis anos, o então garçom Saulo Santana recebeu uma ordem no mínimo estranha: largar pratos e copos e usar a voz na frente do restaurante. A missão: anunciar o cardápio, aos gritos, e atrair clientes. "Na primeira vez, fiquei com vergonha. Mas fui me soltando", recorda.
Os afazeres temporários duraram dois anos. E a roupa de garçom foi definitivamente para o armário. Hoje, aos 38 anos, Saulo é chamado de "A voz da Rua XV". Ele põe o gogó para funcionar na Rua Barão do Rio Branco, anunciando um restaurante, e no calçadão da Rua XV, chamando clientes para um shopping com lojas de confecção. Cobra R$ 15 por hora. "O que eu queria era ser registrado, ganhar uns R$ 700 por mês, mais caixa e microfone."
Atribuir a alguém a alcunha de "A voz da XV", no entanto, mereceria mais cuidado, tal o número de vozes na mais tradicional rua curitibana. São produtos de beleza, "preços imbatíveis" de lojas de departamento, restaurantes, roupas, fotos instantâneas.
A três metros de Saulo, Frank Dias, 42 anos, também usa a voz. "Tem que inventar sempre algo novo, cativar o povo", avisa. À tarde, anuncia fotos instantâneas. Na hora do almoço, um restaurante. "Quando cheguei, vendiam 60 almoços por dia. Hoje, vendem 500", garante. Alguma receita para cuidar da voz? "Nada como um bom gengibre e um limão com sal."
Saulo e Frank fazem parte da "turma do gogó", que tem suas ramificações. Há também a "turma dos profissionais" gente que fez curso de locução e usa microfone. Como Vinícius Grau, 34, que chegou a adaptar uma bicicleta. "Tem amplificador, uma bateria e duas cornetas", orgulha-se. Ele fica das 10 às 19 horas na Praça Carlos Gomes, anunciando uma loja de informática. "Não tem dia ruim. Mas tem que gostar da profissão."
Mario Henrique Sukevicz, 27, é outro locutor que está todos os dias no calçadão da Rua XV. "Comecei com 13 anos, quando era empacotador em um supermercado", lembra. Fez curso de locução e oratória. "Não fumo e não bebo. Como três maçãs por dia e tomo umas oito garrafas de água mineral", conta. Sukevicz não se limita às ofertas de uma loja de departamentos. "Tem o horóscopo do dia e notícias do Brasil e do Mundo."
Quem se diverte com tudo isso é a "mãe" de todas as vozes da XV. Terezinha Santos, 57 anos, a mulher do "olha a borboleta 13, o cavalo e a cobra" foi a pioneira do gogó: começou a soltar a voz há 36 anos. "Sempre me procuram para trabalhar em loja, mas aqui fico mais à vontade", avisa. "Fiquei sete meses em uma loja e saí. Se dobrarem meu salário, eu volto."
Já há quem pense em fundar uma associação dos narradores de loja de Curitiba. "Dependemos desse serviço", diz Jefferson Xavier, 40 anos, narrador e cobrador de ônibus. "São seis horas falando as mesmas coisas. E ainda tem o estresse por causa do resultado". Para ele, soltar a voz traz bons resultados. "Brasileiro adora uma oferta, adora barulho."
A idéia da associação surgiu por causa da fiscalização da prefeitura. A lei municipal 10.625, de 2002, proíbe qualquer som amplificado em espaços públicos. A multa inicial é R$ 900. O nível máximo permitido é de 65 decibéis. "Desde que o som não seja jogado para o logradouro público", avisa o chefe da Fiscalização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Ricardo Bonat Taborda Ribas. Para os que usam somente as cordas vocais, a boa notícia: a lei não prevê nenhum tipo de punição para eles.







