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Comunidade Bruderhof em Walden, no estado americano de Nova York.
Comunidade Bruderhof em Walden, no estado americano de Nova York.| Foto: Reprodução/Bruderhof

Um outro mundo é possível, pregam os socialistas, em defesa de um regime onde a propriedade privada seja abolida. A história mostra que a imposição desse sistema não funcionou. Mas, discretamente, pequenas comunidades mundo afora conseguiram aquilo que os revolucionários não alcançaram: uma sistema onde não há propriedade e todos os bens são comuns.

Quatro anos atrás, o escritor americano Rod Dreher gerou um intenso debate dentro da direita americana ao defender o que chamou de “Opção Beneditina”. O argumento principal era o de que, em um mundo cada vez mais hostil aos valores tradicionais da fé cristã, seria preciso formar comunidades cristãs, preferencialmente fora das áreas urbanas. Enquanto o movimento conservador ainda debate se a proposta é de fato a melhor solução em um mundo hostil aos valores tradicionais, há quem já tenha adotado a vida em comunidade – muitas vezes, com princípios que vão muito além dos propostos por Dreher. Um dos grupos mais bem organizados é o da comunidade Bruderhof ("lugar dos irmãos", em alemão). Embora seja desconhecida no Brasil, a organização já tem 101 anos de história. Até o lema é parecido com os dos comunistas: "Uma outra vida é possível". A diferença é que, lá, o "comunismo" deu certo porque é voluntário, e baseado em princípios profundamente arraigados.

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O princípio da Bruderhof é o de levar uma vida semelhante à mencionada no livro dos Atos do Apóstolos, que descreve o modo de vida dos primeiros cristãos: “Ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns”.

Fundado na Alemanha como uma resposta aos horrores da Primeira Guerra Mundial, o grupo migrou para a Inglaterra durante a Segunda Guerra, por sua posição pacifista. De lá, alguns se mudaram para o Paraguai, ao mesmo tempo em que o grupo crescia nos Estados Unidos, onde hoje estão a maior parte das comunidades mantidas pelo grupo.

Qualquer pessoa pode participar da comunidade Bruderhof, ao contrário do que ocorre com outros grupos de perfil semelhante, como os Amish. Mas, além de subscrever à profissão de fé do grupo, teologicamente protestante, quem deseja ingressar na comunidade precisa doar seus bens. Em troca, recebe moradia, alimentação – e tudo o mais que for preciso para uma vida simples. Não existe propriedade privada. Até mesmo as roupas pertencem à comunidade. Os solteiros que se juntam à comunidade vivem em casas coletivas. Mas cada família tem uma casa, com seus próprios cômodos – embora a cozinha seja dividida com outra família.

Os moradores de uma comunidade Bruderhof não têm empregos remunerados. Eles se dedicam à própria comunidade, de acordo com suas aptidões e as necessidades do momento. Parte dos recursos para sustentar a comunidade e manter o trabalho evangelístico mantido pela Bruderhof vem de fora: a Bruderhof mantém, dentre outros, uma fábrica de brinquedos e móveis de madeira para crianças, uma de equipamentos para pessoas com deficiência e uma terceira, que produz placas personalizadas.

Com sede em Rifton, no estado de Nova York, a Bruderhof tem comunidades em sete países – inclusive na Coreia do Sul e na Austrália. Os membros vestem roupas tradicionais (as mulheres usam vestidos longos). Mas, ao contrário de outros grupos mais radicais, como os Amish, os Bruderhof não rejeitam a tecnologia, nem se opõem ao contato com o mundo externo. O grupo mantém até mesmo um canal no YouTube onde uma jovem simpática tira dúvidas de pessoas interessadas no modo de vida comunitário.

A comunidade mantém as próprias escolas, mas os jovens não são impedidos de frequentar a faculdade no "mundo exterior", e, embora a comunidade tenha seus próprios médicos, também é permitido buscar tratamento em hospitais do lado de fora.

Porta-voz da comunidade Bruderhof, Johan Huleatt disse à Gazeta do Povo que a procura pelo modo de vida comunitário aumentou com a pandemia. “Sim, nós temos visto um aumento significativo no número de pessoas procurando a Bruderhof e que estão buscando e abertos a uma vida integrada de discipulado onde a fé deles pode ser colocada em prática de forma mais plena”, afirma. Ele diz que, embora não tenha unidades no Brasil, a comunidade está aberta para pessoas de todas as nacionalidades.

Geralmente, a Bruderhof permite que visitantes passem um determinado período de tempo na comunidade. Mas, por causa da pandemia, as visitas se tornaram virtuais. Quem decide ingressar na comunidade também precisa passar por um período de adaptação antes de fazer sua decisão final. Apesar de estar presente em quatro continentes, a Bruderhof tem um número relativamente pequeno de membros: são aproximadamente 2.900 pessoas vivendo em 26 localidades.

Cada unidade da Bruderhof tem o seu líder, que deve ser eleito não por maioria, mas por unanimidade. Aliás, todas as decisões importantes são tomadas por este método. Quando a unanimidade não chega, é sinal de que é preciso esperar mais. “Se nós formos incapazes de chegar a um acordo, o motivo pode simplesmente ser que aquele ainda não é o momento adequado para uma decisão”, dizem as regras da Bruderhof.

Rod Dreher, o autor de A Opção Beneditina, chegou a visitar uma comunidade Bruderhof por conta própria, e escreveu um artigo entusiasmado elogiando a organização. "Não tem nada a ver com o filme A Vila, de M. Night Shymalan’s", ele escreveu. "As pessoas da Bruderhof são abençoadamente normais".

No Brasil, grupos católicos também têm vida em comunidade

Embora a Bruderhof não esteja presente no Brasil – e embora o modo de vida adotado por eles praticamente não encontre paralelo ao redor do mundo – o país também possui comunidades em que a vida em comum é a norma. Uma delas é a Pantokrator, uma organização católica fundada em 1990 e que tem sede em Campinas (SP).

Segundo Lilia Gonçalves, da Pantokrator, a ideia não é se isolar do mundo, mas o contrário: fazer um trabalho missionário. Por isso, as Casas de Missão da comunidade Pantokrator não ficam em regiões rurais ou em áreas isoladas. “A gente faz parte de uma comunidade que tem um carisma, um chamado”, diz ela, que vive há 22 anos na sede de Campinas e é uma das responsáveis por gerenciar a vida em comum na Pantokrator.

A Pantokrator tem sete unidades, com um total de 52 pessoas vivendo integralmente em comunidade. A grande maioria dos membros é de solteiros. Também há famílias, mas neste caso o processo de admissão é mais complexo.

Na Pantokrator, a comunhão total de bens não é obrigatória desde o início, já que o grupo é organizado por estágios, e é preciso levar mais de uma década até alcançar os estágios mais avançados. “Uma pessoa que é celibatária não precisa se desfazer dos seus bens. Ela só vai fazer isso definitivamente depois de um processo muito longo”, explica Lília. Além disso, há uma flexibilidade maior com as famílias, já que eles precisam de um patrimônio para assegurar o bem-estar dos filhos.

Ainda no Brasil, outras organizações católicas oferecem oportunidade de uma vida em comum. Mas, como regra, apenas solteiros podem participar. A Canção Nova, em Cachoeira Paulista, é a mais conhecida delas. Fundada em 1977 com um grupo de onze jovens, a comunidade tem hoje 1.300 membros. Para participar da vida comunitária, é preciso ter entre 16 e 28 anos.

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