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Miguel Sanches Neto

Calendário eterno

Em Os Filhos dos Dias, Galeano dá voz a múltiplas minorias | Miguel Rojo/AFP Photo
Em Os Filhos dos Dias, Galeano dá voz a múltiplas minorias (Foto: Miguel Rojo/AFP Photo)

Seria possível tratar da história dos excluídos, seus sofrimentos e suas grandezas, desde a antiguidade até os dias atuais, em todos os continentes? Este projeto naturalista estaria fadado a consumir décadas e ser infrutífero. E não teria mais leitores, tão acostumados estamos ao fragmento, à coisa breve, adestrados pelo uso da internet, onde não há tempo nem paciência para longas meditações.

Dono de uma prosa entre a poesia e a crônica, propensa portanto à síntese, Eduardo Galeano consegue percorrer tempos, culturas e países os mais diversos numa pequena história do mundo, vista pelos lances luminosos das minorias em seu Os Filhos dos Dias (L&PM, 2012). O título já revela o projeto. Dividindo o livro em 365 capítulos, o autor compôs um texto para cada um deles, fazendo com que a data se fizesse marcante nesta história da periferia. Assim, temos um ano cheio, simbólico, que transcende a marcação cronológica convencional para se tornar um resumo da humanidade. Esta estrutura dá uma agilidade muito grande a um livro programado para incluir na biblioteca universal de nossas leituras um rosário de pessoas e causas políticas. Mulheres, negros, índios, homossexuais, árabes, pobres em geral, poetas, enfim, as múltiplas minorias ganham espaço e espessura. É uma visão metonímica da humanidade, muito feliz na sua proposição inusitada.

As narrativas tendem ora para um mero resumo factual, mas escritas sedutoramente, ora para parábolas esquerdistas, caindo em um ou outro momento nas palavras de ordem, ora para a poesia ou para a piada. Nenhuma delas é desagradável, embora umas poucas sejam constrangedoramente simplistas e óbvias. Na maior parte das vezes, o texto vence a política, mesmo nos momentos de pico do engajamento, mas em um ou outro caso a política se sobressai.

A base ideológica é a de sempre – crítica ao imperialismo. Mas a beleza do livro nasce de trajetórias que Galeano identifica e valoriza, de pequenos acontecimentos que ganham luz, de vozes que surgem rapidamente para nos dizer algo nesta peça coletiva e móvel, e logo desaparecer. É como ver um desfile – tudo muito ágil.

A grande relevância do livro está muito mais na estrutura do que na temática, na linguagem ou na ideologia. Ele subverte os princípios históricos ocidentais, eurocêntricos e hegemônicos, convocando uma temporalidade circular, própria dos povos indígenas. Não temos a cronologia rígida, a hierarquia de tempos – e consequentemente de culturas –, mas uma grande mistura, uma coleção. O autor não quer costurar uma narrativa sobre os excluídos, mas convocá-los meio ao acaso para que figurem no palco da página. E isso faz com que leiamos Os Filhos dos Dias meio distraídos, atendendo à velha tese de Paulo Leminski, estampada em um dos títulos de seus livros: Distraídos Venceremos.

Em seu texto clássico, Tristes Trópicos, Lévi-Strauss lembra que o homem primitivo é dotado, sim, de ciência, de pensamento, e que ele não registra a História com símbolos abstratos, as palavras, mas com coisas. Teria, portanto, uma ciência e uma linguagem concretas. Esta forma de pensar e de se comunicar se dá pela coleção de objetos os mais diversos, que ressignificam o mundo. Nesse sentido, Eduardo Galeano atualiza o pensamento selvagem neste conjunto heterogêneo de textos, vinculados a um dia histórico, mas ao mesmo tempo livres dele, pois dentro desta estrutura circular.

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