
Um livro de poemas que é um balanço da vida vivida, sonhada e escrita. Assim é Porventura (Record, 2012), de Antonio Cicero. Em versos que oscilam entre a clareza e o enigma, segundo uma das fórmulas drummondianas, o poeta vai cifrando e desvelando maneiras de habitar o corpo (próprio e alheio), a cidade e a cultura. A estes três continentes se referem os poemas.
No primeiro deles (o corpo), manifestam-se os gozos todos, passados e presentes. A pessoa amada aparece nomeada tanto na dedicatória do livro quanto no poema de abertura, figurando como um símbolo das precárias conquistas de cada um. Mas é no belíssimo poema "Consegui" que o poeta explicita o sentido desse resumo do mundo que é a pessoa amada. Nela se reúnem todos os fragmentos de uma existência, todas as partículas que restaram de alegrias passadas:
tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti
Esta reconstrução da experiência por meio do amor (um amor carnal e desenganado) se confunde com a própria escrita do poema, que também é recolhida das experiências em um objeto de linguagem que devolve ao eu o que se perde enquanto se experimenta. Dessa forma, a poesia não é um fim em si, ela se confunde com a própria trajetória sem rumo da condição humana, limitada por dois nadas, um na origem e outro no final.
Para Antonio Cicero, a vida conquanto falível é maior do que a poesia, mas mesmo assim ele relata uma noite em claro diante do computador, em que permanece entretido nesta tarefa de recolher palavras numa ordem poética. Isso revela uma tensão fundadora. Talvez poesia e vida se sobreponham, mas esta equivalência não se dá de forma naturalista, mimética. A poesia é uma segunda vida, assim como o amor é um segundo corpo, um outro que se faz eu. Nesta construção do poema que usurpa o lugar e a biografia, Antonio Cicero escolhe o que herdar.
Em "Amazônia", respondendo a si mesmo porque não canta as suas origens, ele faz com que a maquinaria da mitologia clássica invada o mundo amazônico de onde ele veio, defendendo o direito de inventar-se. O poeta se vê como o rio Amazonas, mas livre da geografia. Esta é de natureza cultural; é uma escolha, um constructo, e não fruto de uma circunstância espacial:
... Filho da diáspora
e dos encontros fortuitos, o poema
me esclarece: toda origem é forjada
no caminho cujo destino é o meio.
Feito o Amazonas, surjo do deserto, mas dos afluentes eu escolho as águas.
Estar na diáspora é não ter uma terra natal, é não pertencer a um espaço, ficando livre para constituir-se por conta própria. O eu e o poema são assim responsáveis por suas raízes, que serão sempre aéreas.
Contra a ideia de um pertencimento determinista, Cicero exerce a habitação de uma cidade ao mesmo tempo fora e dentro do mundo imediato. Uma cidade que são palavras, vizinha próxima e distante daquela em que se vive cotidianamente.
Este sentimento de fazer parte de uma urbe construída nos domínios da cultura não aparece marcado por nenhuma crença. O poeta escreve e vive e ama sem afirmar estes valores, apenas entregando-se a eles, numa aceitação do vazio.
Livro marcado por uma economia poética e existencial, Porventura comunica ao leitor uma contenção muito grande. É isso a vida, um ninho de insignificâncias, com as quais se constrói um ser amado ou um poema nada heroico, no qual se está também de passagem.



