
Cansado de pagar aluguel, um casal juntou a dificuldade em bancar a despesa da residência a um sonho antigo de ter um trailer e realizou uma "construção" que vem chamando a atenção em Paiçandu, cidade vizinha a Maringá, no Noroeste do estado. Com muita criatividade, os aposentados Aristóteles Fernandes Gonçalves, 68 anos, e a esposa, Ester, 70 anos, ergueram uma "casa" sobre a carreta de um caminhão. Com a nova moradia praticamente pronta, o ex-caminhoneiro só pensa em reformar a parte mecânica do velho caminhão Alfa Romeo, ano 1968, para voltar a rodar pelas rodovias e visitar filhos e netos espalhados pelo país.
Aristóteles começou a investir no caminhão-casa há dois anos, quando o aluguel da residência onde morava a levava boa parte da aposentadoria do casal, que é de dois salários mínimos (cerca de R$ 830, na época). "Ter um trailer era um sonho antigo. A locação da nossa casa tirava quase 30% da nossa renda. Como o dinheiro começou a ficar curto, juntamos a fome com a vontade de comer e começamos a investir no projeto do trailer sobre o caminhão para fugir do aluguel", conta Aristóteles.
O caminhão-casa é bem organizado e apesar da aparência humilde acomoda alguns eletrodomésticos novos, como o fogão de quatro bocas e a geladeira. O casal está morando no local há sete meses. São 2,5 metros de largura por 10 de comprimento, divididos em quarto de casal, cozinha, sala de costura e área de serviço equipada com tanque, varal, banheiro com chuveiro e vaso sanitário. A cabine do veículo ainda serve como uma espécie de guarda-entulhos.
Para erguer a casa, o ex-caminhoneiro Aristóteles, que também é carpinteiro e serralheiro, soldou barras e vigas de ferro na carreta para dar sustentação. Revestiu as paredes e o teto com madeirite, lâminas de PVC e isopor para isolar o calor. Janelas garantem a ventilação. "Tive de fazer adaptações nas janelas para que elas ficassem bem fixadas", explica Aristóteles. Os armários e as prateleiras também ganharam reforço na fixação.
Para se ter uma idéia de quão bem é utilizado o espaço da casa, Ester mostra um móvel que aparenta ser um sofá e esconde uma pequena cama que acomoda os visitantes. "As visitas dormem no sofazinho e na cama que sai por baixo dele. Já recebi familiares de Paranavaí e estamos esperando os parentes do Tote (apelido de Aristóteles) que vão posar aqui."
A luz e a água que abastecem o caminhão-casa vêm da residência vizinha, de Sumira Pacheco, que cedeu o terreno onde fica "estacionada" a moradia dos Gonçalves. "Dividimos as contas com ela todo mês", explica Aristóteles. Outras três fossas escavadas no terreno recebem os resíduos do caminhão-casa levados por três pequenas tubulações. Uma verdadeira obra de engenharia.
Para Sumira, a presença do caminhão em seu terreno, na esquina da Rua Antônio Pacheco Filho com Avenida Manoel Silva, se transformou num ponto de referência do bairro Bela Vista II. "Virou praticamente um ponto turístico. O casal é famoso em toda a cidade", comenta.
A morada sobre o caminhão está praticamente concluída, mas ainda faltam recursos para a manutenção do veículo o que o impede de sair do lugar. Aristóteles possui o Alfa Romeo há 13 anos, mas desde 2003 o veículo está parado. O aposentado fazia fretes no Mato Grosso puxando algodão. Sem rodar, o caminhão está bastante comprometido. "O motor ainda está bom, só falta trocar algumas peças", conta.
A persistência de Aristóteles em ter seu projeto concluído é grande. "Se me oferecessem uma casa, de graça, para morarmos, eu ia vender ela para ter dinheiro e conseguir terminar meu caminhão", afirma.
Apesar da alegria e da disposição do casal, o sonho de visitar os filhos com a residência sobre rodas ainda parece distante. Nas contas de Aristóteles, seriam necessários aproximadamente R$ 8 mil para deixar o caminhão-casa em perfeito estado. Só assim o sonho estaria completo. "Com tudo pronto eu iria poder ver meus filhos e netos que moram em Campo Mourão, Cascavel (ambas no PR) e Chapadão do Céu, em Goiás, sem sair de casa. Olha que maravilha!"









