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Meio ambiente

Catadores temem ficar órfãos do lixão

Novo aterro de Paranaguá deve ser construído em Alexandra. Projetos alternativos ainda não atraem moradores da Vila Santa Maria

Margarete Mendes, fiscal da cooperativa: horários regrados e trabalho organizado | Felipe Lessa/Gazeta do Povo
Margarete Mendes, fiscal da cooperativa: horários regrados e trabalho organizado (Foto: Felipe Lessa/Gazeta do Povo)

Vanderlei Silva, 40 anos, não tem renda fixa e muitas vezes não descansa nos finais de semana. Em diversas ocasiões também trabalha em tempo integral e se queixa da falta de dinheiro para comprar bebidas alcoólicas. "É para firmar o pulso. Quando falta o prato de comida, a gente toma um golinho para não ficar tremendo", explica. Luiz Sandro, 35 anos, cresceu sem carrinhos, bola e outros brinquedos. Trocou a infância pelo convívio com lixo, mau-cheiro, cachorros e cavalos – algumas vezes mortos – além dos urubus.

Ambos são catadores de recicláveis, trabalham no Lixão do Embocoí, moram na Vila Santa Maria, em Paranaguá, e estão apreensivos com a possibilidade de viverem em condições ainda mais degradantes e miseráveis com o fim do lixão da cidade.

O pânico toma conta dos catadores toda vez que recebem notícias sobre a construção do novo aterro sanitário de Paranaguá, no Distrito de Alexandra. O local substituirá o atual lixão e será construído a partir de um convênio entre prefeitura municipal e Petrobras-Transpetro. O temor é que, com a mudança, os catadores e moradores da vila não sejam lembrados. "Não é um bom local para se viver, mas ao menos é o que conseguimos para continuar existindo", explica Sandro.

Cerca de 800 famílias moram na Vila Santa Maria, região ocupada no início dos anos 90, onde a maioria depende da coleta no lixão. Os catadores afirmam que não há nenhum projeto concreto de inclusão dos moradores. "Não escutei nada de nos darem novos empregos ou de um projeto para nós no outro lixão. Nem nos chamaram para uma conversa", diz Sandro. "Queremos apenas uma garantia de que não vamos perder o pouco que temos", afirma Silva.

De acordo com a engenheira ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Paranaguá (Semma), Caroline Beleski, a prefeitura, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e a Petrobras estão estudando alternativas para os catadores do Embocoí, como o incentivo a cooperativas de reciclagem. "Eles terão de sair de lá. Uma das alternativas para não deixá-los na ociosidade já está sendo implantada. São os três caminhões do lixo solidário, que coletam recicláveis em toda a cidade e distribuem entre as cooperativas que estão surgindo", diz.

Criada há cerca de um ano, a Associação de Recicláveis de Paranaguá (Arepa) ainda não tem nenhuma estrutura, a não ser algumas balanças e lonas, localizadas em uma área improvisada, ao lado do lixão. E ainda encontra dificuldades para recrutar novos associados. Apenas a metade dos 50 catadores que começaram no projeto permanece.

"Como falta estrutura, muita gente abandona a cooperativa, pois a quantidade de lixo que recebemos dos caminhões de reciclagem da prefeitura ainda é baixa, comparada com a que poderíamos recolher no lixão", observa a fiscal da cooperativa, Margarete Mendes.

Apesar das dificuldades, Margarete elenca as vantagens de participar da Arepa. As tarefas são divididas e o trabalho dos catadores, organizado. "Pelo menos na cooperativa eu tenho horários, algo que só tive antes de vir do Norte do Paraná, há cinco anos. Nosso objetivo é melhorar, cada vez mais".

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