
Clubes de Curitiba fundados e frequentados por imigrantes e descendentes de italianos e alemães foram depredados e encampados durante a Segunda Guerra Mundial. Os incidentes resultaram das tensões sociais provocadas pelo conflito que ocorria do outro lado do Atlântico e que também tinham reflexos na capital paranaense. A rotina dessas associações culturais e beneficentes, porém, já tinha sido alterada mesmo antes de o Brasil declarar guerra aos países do Eixo, o que ocorreu em agosto de 1942.
Em 1938, um decreto-lei do governo brasileiro conhecido como Lei da Nacionalização proibiu o funcionamento das escolas estrangeiras no país, determinou que todo o ensino fosse em língua portuguesa e que todos os professores e diretores fossem brasileiros natos. "Havia a promessa de Getúlio Vargas de que os imigrantes e seus descendentes seriam assistidos. A falta de apoio e também a tentativa de não perder a identidade cultural motivaram a criação de clubes, hospitais e igrejas", explica o professor de História Contemporânea da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Wilson Maske. O governo determinou também a realização de cerimônias religiosas em português e o afastamento de imigrantes italianos, alemães e japoneses das diretorias dos clubes e empresas.
A vida dos estrangeiros também foi afetada por determinações complementares e as associações tiveram de mudar de nome. Verein Deutscher Saengerbund (Associação Alemã de Cantores) se transformou em Club Concórdia e o Handwerker Unterstützung Verein (Sociedade Operária Beneficente) passou a se chamar Sociedade Beneficente Rio Branco. Situação parecida ocorreu com a Sociedade Beneficente Livorno Ítalo Brasileira. "Os sócios italianos tinham medo de represálias. O nome foi mudado para Sociedade Operária Beneficente Livorno, em 1940, e depois para Sociedade Beneficente Dom Pedro II", conta o presidente da entidade, Marcelo Celli. Posteriormente, esses clubes tiveram alterações na estrutura e passaram às nomenclaturas atuais: Concórdia, Rio Branco e Recreativo Dom Pedro II.
O torpedeamento de navios brasileiros e a entrada do país na guerra acirraram ainda mais os ânimos. Os imigrantes eram acusados de conspirar a favor do nazifascismo e a população referia-se a eles como "quinta coluna", termo usado para definir grupos que agem sorrateiramente para ajudar a invasão armada promovida por rivais.
A sede do Clube Concórdia, no bairro São Francisco, foi depredada em 1942. "Um piano foi jogado do palco do salão principal", afirma o diretor financeiro e de patrimônio do Concórdia, Cláudio Luiz Mäder. Portas e vidros foram quebrados, móveis destruídos e documentos extraviados. Meses depois, o prédio foi encampado e cedido à Cruz Vermelha e depois à Liga de Defesa Nacional. O nome do espaço foi alterado para Casa Olavo Bilac e chegou a ser repassado ao Clube Atlético Paranaense. Com o fim da guerra, o interventor Manoel Ribas determinou que o Clube Concórdia fosse devolvido aos sócios no fim de 1945.
Violência
Multidão se reuniu para apedrejar prédio no Centro de Curitiba
O Clube Rio Branco, outra associação alemã, foi depredado em 18 de março de 1941. "Uma multidão foi à Rua Visconde do Rio Branco, onde ficava a sede do clube, e apedrejou o prédio", afirma Paulo Bebik, ex-presidente da entidade.
O espaço foi fechado e destinado ao Exército. As atividades foram transferidas para a Sociedade Beneficente Cruzeiro do Sul até 1949.
Italianos
O prédio da Sociedade Garibaldi, no Centro de Curitiba, foi desapropriado em 1943. O local foi destinado ao Tribunal de Justiça e depois ao Tribunal Regional Eleitoral.
A devolução aos imigrantes italianos ocorreu em 1962. Outros clubes, como o Duque de Caxias, o Thalia e o Harmonia também foram afetados pelas tensões causadas pela guerra.





