Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Cristovão Tezza

Internet e faixa etária

 |

Uma vez alguém me disse que não confiava em ninguém que tivesse mais de cinco amigos, uma frase engraçada. O assunto da conversa era o Orkut, nos seus primórdios, alguns poucos anos atrás. Lembro que me convidaram para o clube e aceitei – passei a vida gostando de novidades. Mas depois de dois meses, entrando na página, conferindo recados, vendo fotografias, trocando abobrinhas e engordando a lista de amigos, me perguntei: o que estou fazendo aqui?! Era o sinal inequívoco de que, até que enfim, eu estava ficando velho, como queria Nelson Rodrigues, ao acon­­­selhar os jovens: "Enve­­lhe­­çam, por favor, envelheçam!"

Atenção: nada contra esses espaços sociais da internet, que são maravilhosos pontos de encontro e estão mudando o perfil da convivência humana. Tenho uma imensa curiosidade sobre os efeitos da tecnologia sobre nossa vida e procuro quebrar meus preconceitos quando eles, insidiosos, se intrometem nos meus olhos. Mas há um dado básico que poucos comentam: ninguém se conserva a mesma pessoa ao longo dos anos. O que parece a alma da vida aos 21 pode ser apenas interessante aos 38, chatíssimo aos 47 e indiferente aos 52. Seria terrível se não tivéssemos essa incrível capacidade de mudar.

Assim, vivo deletando convites gentis para entrar no Linke­­din, facebook, orkut, tuíter e tudo quanto é rede social – sou cada vez mais um bicho do mato. Me perdoem – não é maldade, intolerância ou rabugice; é só técnica de sobrevivência e, digamos, "produção de tempo", essa mercadoria que vai ficando de­­sesperadamente escassa de­­pois dos 50.

Pensei nessa relação entre internet e faixa etária também quando a Apple lançou o celebérrimo iPad. Eu já havia tido uma experiência desastrosa com esses telefones movidos a simples toque (preciso sentir o relevo das teclas; se eu fosse um pouco mais antigo talvez só me desse bem com o telefonão de disco preto e 10 buracos, que Hitchcock imortalizou em "Disque M para ma­­tar"); portanto é muito pouco provável que algum dia eu vá comprar um iPad, ainda que seja um admirador das traquitanas de Steve Jobs – feito um adolescente fanático, considero os computadores iMac a oitava maravilha do mundo da informática.

Bem, eu até poderia pensar num iPad para leitura. Isso me interessa: o leitor digital. Ainda quero ter um. O problema é que o ato de ler deve anular completamente todas as outras atividades: a leitura é uma solidão ma­­ravilhosa. Ora, não é fácil ler um livro digital recebendo e-mails, pipocando mensagens, convites para jogos, janelinhas de internet. A tentação de me distrair seria grande demais e suspeito que, no fim das contas, o iPad é que seria meu usuário, e não eu o usuário dele. Por isso me agrada o conceito do Kindle, o leitor digital que é apenas e exclusivamente leitor – nenhuma chance de distração. Mas com tanto livro na fila empilhado aqui em torno, acho que posso esperar mais um pouco.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.