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Cristovão Tezza

Internet e eleição

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Muito se tem falado so­­bre a influência da internet na eleição – há quem diga que ela será decisiva, como teria sido nos Estados Unidos, com a eleição de Obama. Com a relativa perda de espaço da imprensa escrita, que não vem crescendo na mesma medida em que cresce o país, e com a queda de audiência da televisão convencional, cedendo es­­paço à tevê a cabo, a internet as­­su­­me o papel de um meio de in­­for­­mação avassalador. Disse­­mina-se em toda parte, pelo barateamento das máquinas e pela consistente ascensão das classes médias no país. A internet seria assim o gran­­de meio do nosso tem­­po, o pon­­to de encontro de todos os gêneros tradicionais de linguagem. Ela é ao mesmo tempo jornal, rádio, correio, televisão, telefone, entretenimento, comércio, referência e informação global. Dizer que ela vem mudando a face do mundo é chover no mo­­lha­­do, mas não temos ainda noção precisa do que isso significa.

Sobre sua influência na eleição brasileira, é preciso lembrar algumas peculiaridades nossas. Não dá para simplesmente comparar com eleições dos Estados Unidos e Europa e dizer que o efeito aqui será semelhante. Gra­­ças ao carisma de São Lula, estamos famosos em toda parte, mas ainda muito longe dos padrões econômicos e culturais do Pri­­meiro Mundo. De certa forma, a internet repete hoje a situação da televisão no Brasil, que nos anos 70 chegou a boa parte do país antes do livro; agora o computador chega antes do letramento dos usuários. Nossa internet ainda é ruim, caríssima e de acesso restrito. E restrito a faixas geográficas também, o que significa pesos diferenciados de influên­­cia. No momento em que escrevo, as pesquisas dizem que Dilma Rousseff tem uma superioridade esmagadora no Nordeste, onde a internet tem menor penetração (e portanto a tevê tem maior força), enquanto Serra empata ou ganha de pouco no Sul e Sudeste, onde ela está muito mais disseminada (com a queda relativa de importância da tevê).

Mas há outros aspectos: a internet é o caos informativo, o império do fragmento. Saindo do terreno dos grandes portais na­­cionais e regionais, espaços institucionais que dão alguma ordem a esse caos, a internet é uma terra de ninguém, uma guerrilha de 10 milhões de micropáginas e blogues atirando para toda parte. É um gigantesco arquipélago de vozes solitárias bradando num deserto cibernético. No­­venta por cento dos blogues têm meia dúzia de leitores, que formam pequenas tribos fiéis. Na batalha dos e-mails, recebemos aquela lixarada de costume: "Serra é o ovo da serpente", de um lado, e "Dilma assaltante de bancos", de outro. Nesse mar de tolices, não se convence ninguém – apenas se reforça a própria tribo, numa dança da chuva em que se batem os pés e se bran­­dem as bordunas. É subestimar demais a inteligência do internauta imaginar que esse besteirol furioso terá algum efeito significativo nos eleitores. Como sempre digo, sou otimista.

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