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Às vezes a infância me volta assim, por meio de reminiscências tortas, incompletas. Ou antes, são mais lacunas que lembranças. Por exemplo, há esta imagem de que nunca esqueço: uma jararaca em cima da máquina de lavar da casa de uma tia. Eu lembro da cobra, da descoberta da cobra, da comoção que aquilo provocou na casa, e até da posição em que o bicho se enrodilhou para nos vigiar. Mas não lembro da solução que se deu ao problema.

Decerto alguém tirou a cobra de lá, e provavelmente a matou diante do fascínio das crianças da família. Só que, na minha memória, a jararaca continua viva, verde, amarela e preta, ainda enrolada sobre o tampo branco daquela máquina de lavar. E todo o tempo que passou por mim, desde então, terá sido somente o da lenta distensão de seus músculos e vértebras, um bote de longa duração.

Hoje tenho a certeza de haver sido um contumaz ladrão de cana. Só não sei de quem a roubava

De uma época igualmente vaga, me vem também o caso de um menino pouco menor que eu, afogado num parque aquático, logo após um almoço de domingo. Tínhamos comido um risoto de igreja. Lembro do sol, do grito de uma mulher que não era sua mãe, e de um homem que, tarde demais, pulou no lago com uma corda de varal. Com ela, amarrou a criança pelo peito, para içá-la com mais facilidade à terra. Mas já não guardo lembrança do resgate daquele corpo, ou do guri na margem do tanque, à espera do IML ou dos bombeiros.

Se alguém rezou, essa prece, para mim, foi perdida. Também não houve escândalo, o anjo não foi chorado na hora da morte. E é como se jamais o houvessem tirado da água; está lá até agora, no aguardo de nossas providências fúnebres, para indignação dos peixes.

Há mais esquecimentos. Penso na curva de um rio estreito, na mata vizinha ao parque, aonde eu e meu melhor amigo, morto ainda moço, íamos pescar acarás e lambaris. Ali, sentados em pedras chatas, chupávamos cana. Lembro da minha mochila cheia de colmos. Da faca que usávamos para torar os caules, descascá-los e, depois, cortar cada pedaço em quatro bastões finos. E lembro da montanha de bagaços que a gente largava no lodo.

Só não lembro, de jeito nenhum, do local onde colhíamos nossa refeição. Em que roça íamos buscá-la, e com autorização de quem? Hoje tenho a certeza de haver sido um contumaz ladrão de cana. Só não sei de quem a roubava.

E teve a viagem que fiz a Ipanema com meu avô materno. Ficamos dias na praia, sozinhos, e só lembro do momento em que o velho, protegido do mormaço pelo chapéu de caboclo, socorreu duas meninas que, brincando na beira-mar, acabaram queimadas por uma ou mais águas-vivas. Meu avô as atendeu sem cuspir da boca o palheiro, e lembro de vê-lo correr, uma em cada braço, em direção ao salva-vidas.

Não lembro da cara das meninas, mas não esqueço a convulsão que as tomou. Também não lembro de ter visto qualquer água-viva naquela manhã, porém, sempre que ouço falar de uma, meu cérebro ainda revisita o desenho daqueles ferimentos vermelhos e compridos na pele das crianças.

Hoje, reconheço em minhas filhas o mesmo olhar de documentarista involuntário que já foi meu. Sereno, me pergunto que tipo de reminiscência, ou de esquecimento, serei eu no futuro delas. A morte da jararaca, que preferi apagar, ou seu bote sem fim? O recolhimento do menino afogado a uma viatura qualquer, ou sua romântica permanência entre os peixes de um parque suburbano? A identidade volátil do roceiro a quem tantas vezes roubei, ou o milagre dos colmos que se multiplicavam em minha mochila?

Ou até, quem sabe, a fuga da água-viva, sua diluição numa onda imemorial do mar paranaense, depois de haver tatuado às pressas, na pele de duas meninas, a obscura crônica de suas peçonhas.

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