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Marleth Silva

Endividados, mas felizes

 | Felipe Lima
(Foto: Felipe Lima)

As notícias sobre a economia brasileira são boas – pelo menos as que conseguimos entender. O problema são aquelas que não conseguimos entender. Geralmente elas escondem o perigo. Atualmente passamos por um período de calmaria. Só se vê notícia boa. Mas tem uma que não está chamando muito atenção e que me assusta. O brasileiro está se endividando cada vez mais. E tudo indica que ainda está na fase em que acha isso bacana, que não vê perigo no horizonte. É geladeira nova aqui, carro zero ali, reforminha na casa acolá.

Com o agravante que a geladeira é a mais bacana, com três por­­tas equipadas com dispenser para água e uísque (já sai on the rocks...). O carro é aquele grandão, com air bag até no teto. E a reforminha na casa... Ah, a loja fa­­cilitou o pagamento e o cidadão resolveu trocar tudo. "Se vamos pagar em 36 prestações, vamos escolher direito, não é?"

Os Estados Unidos quase quebraram no ano passado porque o povo gastou demais para comprar suas casas ajardinadas, que estavam ficando cada vez maiores. Não foi só isso. Mas parece que foi o estopim. No programa da Oprah, a apresentadora-mentora dos americanos, se ouviam relatos diários de pessoas que quebraram porque não conseguiam pagar a prestação da casa ou porque perderam o emprego. Gente de classe média, com profissão, com formação. Triste de se ver. Percebia-se neles não apenas a preocupação com o presente, mas a perplexidade diante de uma situação que eles nunca imaginaram rondar suas vi­­das. Não deviam ser gastadores tresloucados, apenas pessoas que queriam realizar alguns dos sonhos de consumo que somos estimulados a ter.

Como sou uma pessoa que acredita em desgraça e atravessei alguns anos complicados da economia brasileira, fico me perguntando onde vamos parar com esse entusiasmo todo. Ele pode não levar o país à bancarrota, mas vai dar muita dor de ca­­beça aos entusiasmados.

Economizar é difícil, especialmente agora que mal vemos o dinheiro. Ele entra na nossa conta eletronicamente e sai, também eletronicamente, quan­­do entregamos o cartão para o caixa da loja. Quando nos damos conta, acabou. Se você não tiver ótima memória ou anotar tudo, não tem condições de dizer que gastos estão drenando seu di­­nheiro. Compras a prazo certamente drenam. Mas dificilmente alguém pensa nisso na hora em que está na loja, diante de um produto brilhante e com cheiro de novo (como gostamos do maldito cheiro do novo!) e de um vendedor que insiste no va­­lor da parcela e não no valor total que você entregará a loja.

Os economistas dizem que os brasileiros são despreparados para lidar com dinheiro por causa dos anos de inflação, em que a moeda não tinha um valor real. Não tinha mesmo, tanto é que se aplicava dinheiro no overnight para que ele, no dia seguinte, já tivesse outro valor. Fer­­nando Henrique Cardoso e Itamar Franco controlaram a inflação há mais de 15 anos, mas a economia continuou em ziguezague. Até que há poucos anos, favorecida pela conjuntura, embalou em uma fase positiva. Finalmente podemos gastar, mesmo que em prestações. Mas a conta tem de ser paga al­­gum dia, gente! Quando penso nisso, acho uma pena que nem todo mundo assiste ao programa da Oprah.

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