Sempre me pergunto por que viajo. Mal deixo meu mundo (sua rotina, corrige minha mulher), já quero voltar, prometendo nunca mais, nunca mais deixar meu posto.
"Pare de conjugar o verbo nunca mais", ordeno a meu diabinho interior depois dessas explosões de arrependimento.
O fato é que sou um animal de toca, que sai de casa sem sair de si mesmo, e é de lá, da região mais escura e acolhedora, que espreito as pessoas e tento algum tímido contato. Não é fácil deixar a proteção de uma casa construída segundo as medidas de minha neurose. Na parte da frente de nossa casa estão as salas e o quarto de visita, barreiras contra os invasores. Nossos quartos dão estrategicamente para o jardim dos fundos. É neste espaço de intimidade que me movo, passando dias sem nem espiar o que acontece na rua, totalmente perdido no tabuleiro mínimo e em algumas paisagens interiores.
Tentando abandonar a prisão domiciliar, aceito algumas seduções do mundo-vasto-mundo. Por isso estou em Parati, participando da Flip. Mas trouxe comigo, além da família, minha toca. Assim que cheguei, corri para o quarto da pousada, lutando para não mostrar a cara. No almoço de recepção, procurei um canto escondido e comi fitando o prato. E procuro andar sozinho pela cidade, aceitando apenas as companhias familiares.
Usei o verbo "andar" de forma imprópria. Ele não pode ser aplicado com precisão para quem se move pelo centro histórico de Parati. Não se anda nestas ruas de pedras centenárias, todas irregulares. Na verdade, o pedestre se equilibra sobre elas. Depois de algumas horas submetido a este desafio, quando ele atinge uma superfície plana, sente dificuldade para caminhar normalmente, e continua colando os olhos no chão, movendo com desconfiança os passos.
Confesso que achei a cidade ideal para os tímidos. Evitamos o confronto com as pessoas, e se olhamos para o chão é para poder voltar para casa sem uma perna engessada ou algo pior. Em um restaurante, deixei de cumprimentar dois importantes escritores que são meus amigos. e minha mulher me repreendeu:
"Você devia ao menos ter acenado para eles."
"Não foi possível, eu prestava atenção nas pedras da rua."
"Estávamos em um restaurante", ela quase gritou.
"É que incorporei estas pedras colonias à alma."
"Isso já é demais", ela me disse, saindo de perto.
Nessas andanças, internas e externas, tive que erguer os olhos algumas vezes. Em uma delas, vi um senhor moreno, olhos brilhando de álcool (a pinga aqui, de boa qualidade, é largamente consumida). Vestia um paletó molambento sobre uma camisa aberta no peito. As calças eram tão sujas quanto o resto e tinha as barras esgarçadas. Voltando a vista para o chão, percebi que calçava chinelas com tiras de cores desemparceiradas. Não adiantou tentar afundar-me em mim mesmo, eu estava desprotegido.
"Ei, você", ele disse com sua voz mole de cachaça.
Não respondi. Queria fugir. Mas o mendigo, carregando no timbre adamado de voz, continuou.
"Meu bem, um dinheirinho para esta pobre criatura de Deus".
E estendeu a mão com unhas sujas. Procurei no bolso um nota pequena, mas só encontrei uma de dez reais. Entreguei-lhe a nota, vendo seus dedos se fecharem. Já ia saindo quando ele, com a outra mão, me segurou o braço.
"Não pense que é você que está me ajudando".
Como não respondi nada, concluiu:
"Sou eu que ajudo você. Espere um pouco para receber o que acabou de comprar".
Ele não segurava nenhuma sacola e não estava perto de uma das muitas bancas de ambulantes. Não pude imaginar o que vendia. Por medo, e timidez, fiquei ali um pouco mais. Ele me olhou nos olhos uns segundos e decretou:
"Saúde".
Eu não tinha espirrado e estranhei a manifestação dele. Devo ter expressado isso com algum movimento facial, pois ele explicou:
"Esta é a palavra que você acabou de comprar. Quem compra uma palavra tão bonita como saúde, com um hiato que a equilibra, conquista algo que nenhum dinheiro no mundo pode pagar", dissertou com a voz comovida.
Mais um louco, pensei. E segui meu caminho, equilibrando-me nesta cidade que sobrevive a era da pedra rolada.
Não pensei nele até o dia seguinte, quando, passeando pela Praça da Matriz com minha pequena família, cruzei com o mendigo. Nós nos estudamos e ele, fixando-se em minha filha, novamente estendeu a mão.
Eu agora tinha dinheiro trocado e passei-lhe uma moeda de um real. Ele fechou firmemente a mão e, equanto deixava o dinheiro no bolso, pronunciou a palavra "flor".
"É uma palavra muito especial. Uma sílaba e quatro letras. A menina merece."
Com aquela palavra brilhando nos olhos, minha filha me puxou para uma loja de roupas.
À noite, fomos a um show da Maria Bethânia, cantora por quem minha filha não tinha o menor interesse. No entanto, ficou hipnotizada e seus olhinhos se encheram de lágrimas quando Bethânia cantou suas músicas de amor e tristeza.
Lembrei-me então que tinha nos contado que, segundo o horóscopo, em agosto ela encontraria o seu amor. Estava chegando a florada. O mendido vendia palavras certeiras. Enquanto outros comercializavam bugigangas, ele revelava o que trazíamos na alma.
Fui procurá-lo no dia seguinte. Encontrava-se no mesmo lugar, uma rua de saibro ao lado a Matriz. Ofereci-lhe uma nota de cem reais. Ele nem me olhou. Talvez a palavra do dia custasse muito mais.
"Quanto quer por ela?"
"Por quem?", fez-se de desentendido.
"Pela palavra".
"Hoje não tenho palavras para você".
"Uma crise no fornecimento", tentei brincar.
"Não, elas estão lá nos livros", e apontou a tenda com as obras da Flip.
"Quero a que você enxergou em mim".
"Pô! Você não entende? Não vendo certas palavras. As sombrias. Elas ficam comigo. Entedeu? Comigo".
E saiu mancando, meio destruído pela palavra misteriosa que colheu em mim, e da qual tentaria se livrar sem transferi-la a ninguém.
Descobri naquele momento que foi para isso que viajei. Para desfazer-me desta palavra incógnita.







