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Miguel Sanches Neto

Paulo Coelho e eu

Por acaso, acabei descobrindo esta semana que devo perto de 230 reais a Paulo Coelho e sua mulher, Christina Oiticica. Mas há uma dívida maior: foram os dois hoje milionários que me editaram pela primeira vez. E eu só soube disso ao folhear a biografia que Fernando Morais escreveu sobre o famoso escritor – O Mago (Planeta, 2008).

Em 1984, eu ainda morava em Peabiru, depois de uma meteórica passagem por Curitiba. Vinha escrevendo meus poemas para uso secreto, mas fiquei sabendo – não sei bem como – de um concurso promovido pela editora Shogun Arte, do Rio de Janeiro. Mandei três poemas e recebi uma carta me chamando de autor; foi a primeira vez que me trataram assim. A editora dizia que um poema meu tinha sido selecionado para a edição de 1985 da antologia A Nova Poesia Brasileira (e havia com certeza muitas interjeições nesta frase!) e logo informava que eu deveria pagar, em quatro suaves prestações, 380 mil cruzeiros (300 reais hoje, segundo Fernando Morais). Fiquei tão alegre com a minha nova condição e com o fato de um poeta do interior do Paraná estar ocupando espaço numa renomada editora do Rio que nem pensei no dinheiro. Falei com minha mãe, que costurava para fora na tentativa de nos dar uma vida melhor, e ela se comprometeu em quitar as prestações, apostando no filho que já tão cedo se destacava.

Pagamos a primeira prestação e nos esquecemos da coisa. A vida seguiu seu ritmo; eu começava um curso de Letras; tinha encontrado a namorada com quem me casaria; tentava arranjar um emprego. Um dia o correio entrega em casa o pacote com os dez exemplares da antologia, mesmo eu não tendo pago as demais prestações. E estava lá um poema do degas aqui, na página 76, um poema meio concretista – na época eu lia muito o Leminski –, intitulado "Água-marinha":

Pinga no copo

pinga no pisolágrima escorrega diaágua ardenteágua salinaescondida atrás da facede quem sempreteve a face escondida

pingae solitária escorrecomo afluente do mar mortono marum ideal suprimidomorre

A nota biográfica era de uma ingenuidade dolorosa: "Nascido em Bela Vista do Paraíso, em julho de 1965; apaixonado pela poesia desde criança, tendo publicado alguns poemas em jornais. Atualmente divide seu tempo entre a faculdade de Letras, os movimentos estudantis e a poesia". Eu apareço entre funcionários públicos, outros estudantes, aposentados, professoras primárias, donas de casa, profissionais liberais, políticos – todos abarcados neste conceito amplo com o qual a editora nos brindava: autores. Autor, no caso, era qualquer pessoa que tivesse mandado poemas para o fictício concurso e que fizesse o primeiro depósito.

Depois de publicar um livro de Paulo Coelho, a Shogun se especializara nesse tipo de trabalho. A carta que Paulo Coelho mandava aos poetas era apelativa: "Caro Fulano: Recebi e já li seu livro de poemas. Sem entrar no mérito do material – que é de altíssima qualidade e você sabe disso (sim, eu sabia!) –, quero cumprimentá-lo por não haver permitido que seus poemas ficassem na gaveta etc.". Eu ignorava quem fosse Paulo Coelho, só fui ter notícias dele meia década depois. Se tivesse guardado a carta que Fernando Morais reproduz, poderia hoje fazer algum dinheiro com ela.

Proféticas foram as palavras de sua mulher, que leio na biografia, aplicando-as a mim: "Com isto você estará (...) investindo em si mesmo, aumentando a área de influência de seu trabalho, e, eventualmente, abrindo as portas de uma carreira fascinante". Como nunca acreditei em meu potencial, acabei não quitando a dívida, mas também não fiquei com os meus dez exemplares, distribuídos prodigamente. Apenas no começo deste ano, achei um exemplar da antologia que foi autografado para minha irmã. E eis-me aqui, 23 anos depois, com as portas abertas de uma carreira fascinante.

Paulo Coelho tem um dedo de Midas, pois até mesmo um empreendimento como este, de resultados improváveis, não só pelo fato de poetas geralmente não conseguirem honrar compromissos financeiros, mas também pela improbabilidade de ganhar dinheiro com escritores totalmente desconhecidos, até mesmo esta editora improvisada deu certo em suas mãos – era a famosa magia a serviço do sucesso. Imprimindo quatro antologias anuais neste mesmo sistema, fazendo pessoas comuns se sentirem autoras, a Shogun faturava por ano perto de R$ 1,2 milhão. Isso sem levar em conta os calotes. Foi a partir deste projeto que a vida de Paulo Coelho começou a entrar nos eixos.

A minha continua meio fora dos eixos, mas não devo culpar o mago por isso. Ele fez a parte dele: colocou-me em circulação, distribuiu a antologia a revistas, jornais e críticos, promoveu eventos e abençoou a edição, pois há uma oração dele na quarta capa: "Senhor, protegei nossas dúvidas, porque a dúvida é uma maneira de rezar". Eu poderia modificar um pouco o texto: "Senhor, perdoai as nossas dívidas, porque reconhecer a dívida é uma maneira de rezar". Enquanto ele seguiu sua carreira rumo ao estrelato internacional, eu fiquei preso à vida de professor, escrevendo meus livros nas horas de folga e tentando agora pagar em dia todas as prestações.

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