É em torno das igrejas que boa parte das conversas sobre patrimônio ganha impulso. Os templos são a melhor tradução popular do que deve ser preservado. Além do tamanho, arquitetura e da antiguidade, esses edifícios costumam guardar memórias coletivas passadas de pai para filho. Acontece em Colombo. A cidade de colonização italiana tem um dos mais belos templos da região metropolitana a Matriz de Nossa Senhora do Rosário, ricamente ornamentada, com vitrais e um ícone estupendo, pintado por Ângelo Wolph, em 1902.
A construção foi feita à moda "formiguinha", no final do século 19, quando os colonos carregaram em fileiras, tijolo por tijolo, até o morro. Conta-se que o mutirão demorou nove anos. Como o município ainda estuda a lei de tombamento, a responsabilidade por esse patrimônio indiscutível ainda é toda da Congreção Passionista, que administra a paróquia e arca com custos que podem chegar a R$ 5 mil mensais. Não há dinheiro para pagar um vigia nos domingos à tarde, quando os turistas do Circuito Italiano têm de se contentar com a vista de fora da igreja que ao lado da matriz de Campo Largo é cartão-postal da região metropolitana.
"Sabemos dos benefícios e dos entraves de um tombamento. Só funciona com muito diálogo entre os interessados. Mas o mais importante já existe: essa igreja é patrimônio afetivo dos colombenses. O povo cuida dela. Difícil é encontrar mão-de-obra especializada para fazer reparos e manter e integridade do templo", comenta padre Leudes de Paula, 35 anos, pároco da Nossa Senhora do Rosário. Ele lembra que o patrimônio religioso de Colombo não se resume à matriz. Passa pela Capela do Ribeirão das Onças e pela Capela do Capivari, pela São Sebastião (de 1865) e pela Colônia Faria (1886) para citar quatro das 22 igrejinhas rurais que resistem ao tempo e contam a história da imigração italiana na região.
A Colombo perdida
Colombo é o caso típico de conflito declarado entre passado e presente. Dos estimados 231 mil habitantes da região, 30 mil apenas moram na área tradicional. Os próprios moradores fazem a distinção entre a Colombo pobre do Guarituba e do Alto Maracanã e a parte antiga que costuma encher os olhos dos visitantes com sua paisagem de morros, arvoredo e atmosfera interiorana.
Nas não se pode dizer, contudo, que a discussão esteja mofando na repartição. Em Colombo há simpatia pelo modelo curitibano das unidades de interesse de preservação, confiança na capacidade do novo plano diretor de pelo menos salvaguardar áreas históricas e um levantamento de 30 imóveis tinindo de vontade de serem tombados. "Sonhamos com uma lei de tombamento. Como ainda não temos, já apelamos para o relocamento de uma velha casa de madeira, no Parque da Uva, como saída para salvá-la", conta a gestora cultural Ângela Mottin. A diretora de Cultura do município, Marinei Vidolin, confirma as expectativas, mas aponta o velho dilema. "Falta-nos arrecadação para bancar tombamentos", diz, de volta ao começo: tombar propriedade particular é pisar em campo minado.
Em São José dos Pinhais, onde a lei de tombamento existe há mais de uma década, uma dezena de bens públicos já são patrimônio declarado. Em estudos, no momento, estão a Colônia Mergulhão e as ruínas da igreja Santa Ana. É o melhor índice da região metropolitana, com o detalhe de que nenhum bem foi tombado pelo estado. Em contrapartida, nenhum bem privado entrou na lista, o que salva o poder público de ter de dar em troco descontos no IPTU e outras compensações. Como informa a diretora de Cultura Lucimar Zanon, o Conselho do Patrimônio Cultural faz o meio de campo com os donos do ouro, evitando disparates.
Os conselhos são o caminho das pedras. Em muitas cidades, negociar com proprietários de patrimônio é cronicamente inviável. Basta pensar em Castro e Lapa, cujos bens históricos formam a maior parte da área construída. Resta ter gente habilitada para convencer os donos de que devem investir em conservação e restauro. "A preservação passa pelos proprietários. Não tem como fugir disso", explica Rosina Parchen, do setor de Patrimônio do governo do estado. Se não for assim, o Paraná não vai fazer crescer sua lista de modestos 160 bens tombados pelo Estado. Quando o poder maior chega, o bem, muitas vezes, já foi para o brejo.
Em Piraquara, onde a lei de tombamento ainda não foi regulamentada, um conselho de 21 membros já foi instituído e mostra a que veio. Para surpresa do secretário do Meio Ambiente Gilmar Clavisso, os efeitos já começaram a aparecer. A cidade teve um conjunto tombado pelo estado o casario chamado de Aldeia Meirelles e deixou os conselheiros com coceira: eles querem ver o Colégio Manoel Eufrásio, o antigo cinema e a Represa Carvalho, de 1905, na lista antes que alguém as pinte de vermelho e verde.







