Até que ponto uma empresa pode acompanhar os passos de seus funcionários na internet? Monitorar caixas de e-mail acessadas por colaboradores durante o horário de trabalho é ou não invasão de privacidade? Essas são dúvidas em torno de medidas adotadas por um número cada vez maior de empresas nos últimos tempos, seja para aumentar a produtividade ou, até mesmo, para proteger sistemas e manter em sigilo assuntos de negócios.
Em Curitiba, somente um dos vários programas disponíveis no mercado para controlar a atividade dos funcionários em frente ao computador (o BRmultiaccess) é usado por cerca de 250 instituições número que chega a 450 no Paraná e a 6 mil, no Brasil. Os dados são do especialista em segurança digital Wanderson Moreira Castilho, da empresa E-Net Security, que administra o software BRmultiaccess. "Hoje o empresário precisa de um controle e, para ter mais lucro, ele deve otimizar custos.", afirma Castilho.
Não existe um perfil específico de instituição que adote os sistemas de monitoramento. Castilho conta ter clientes em todos os ramos escolas, indústrias, hospitais, cooperativas, shoppings, prefeituras e federações. O tamanho das empresas também varia elas têm de 10 a 2,6 mil funcionários que navegam na internet.
São várias as funções dos programas usados pelas empresas para monitorar o acesso à internet. Os softwares podem registrar todos os sites visitados pelos colaboradores, bloquear páginas de determinadas categorias (como pornografia), impedir que o e-mail corporativo receba mensagens com conteúdos proibidos e até monitorar o que o funcionário conversa em e-mails públicos e outros programas de diálogos on-line. "No início constrange sim, mas não é nenhum problema se você não está fazendo nada de errado", opina o especialista.
"Esse controle tem a tendência de ficar cada vez mais avançado. Logo, os empregadores poderão acompanhar todos os cliques dados pelos colaboradores e ter conhecimento de tudo que foi impresso na empresa. Assim, poderão saber se alguma informação sigilosa não está vazando", afirma Castilho. Para o especialista, são poucos os colaboradores de uma empresa que conseguem discernir que o tempo de trabalho não lhes pertence, mas sim ao empregador.
Prós e contras
A indústria de pneus BS Colway utiliza um sistema de monitoramento há cerca de dois anos. O gerente de Tecnologia da Informação, Luiz Bonacin Netto, conta que é feito o controle de acesso de sites e e-mails e os funcionários têm conhecimento da política adotada pela empresa. Neste mês, três pessoas foram advertidas por terem entrado em sites ou recebido e-mails com conteúdo pornográfico. "Com o sistema, aumentamos a segurança de informações internas da empresa, diminuímos a invasão de vírus e a capacidade dos funcionários aumentou em torno de 20%", afirma Bonacin. "Não ficamos vendo mensagens toda hora. É um controle por amostragem", conclui.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores no Paraná (CUT-PR), Roni Anderson Barbosa, assume uma posição contrária ao monitoramento de caixas de e-mail. "É uma questão complicada, polêmica. Na nossa visão, é uma infração quebrar o sigilo da correspondência dos trabalhadores. Existem outras formas de fiscalizar o trabalho que não bisbilhotando", afirma Barbosa. Ele concorda, por outro lado, com programas que inibem o acesso a determinados sites. "Mas controlar os e-mails é um exagero. As empresas deveriam destinar esse tempo e dinheiro para capacitar funcionários e potencializar o uso da ferramente (internet)."
Um dos sindicatos que recebe mais reclamações com relação à postura adotada pelos empregadores é o dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro). O presidente Anselmo Ernesto Ruoso Júnior diz que um trabalhador terceirizado chegou a ser demitido no começo deste ano por uso indevido da internet. Ele afirma ser necessário o bom senso entre empresa e funcionários no momento de usar e controlar a internet. "A inclusão digital foi uma conquista nossa. É correto proibir o acesso a determinadas páginas, mas uma coisa é bloquear, outra é monitorar", conclui Ruoso.







