
Pequenos municípios paranaenses sucumbiram à criminalidade e acabaram inseridos na rota do contrabando e do descaminho. Justamente por serem pacatas e contarem com pouco policiamento, cidades conhecidas pela tranquilidade foram eleitas como ponto para distribuição no país de cigarros e outras mercadorias trazidas ilegalmente do Paraguai. A última apreensão de cigarros foi feita ontem, em Santa Helena.
Mapeamento feito pela Polícia Federal (PF) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, põe localidades do Oeste, Centro, Sudoeste e Noroeste do Paraná na rota do contrabando e dos depósitos provisórios para o armazenamento de mercadorias, principalmente cigarros. Nesta lista estão Altônia, Ivaiporã, Mangueirinha, Quedas do Iguaçu, Prudentópolis, Ubiratã, Francisco Beltrão, Marechal Cândido Rondon, Alto Paraíso, Terra Roxa, Umuarama e Alto Paraíso, entre outros municípios.
Na análise da polícia, os contrabandistas buscam brechas para atuar, na medida em que a fiscalização vem sendo reforçada em alguns pontos da região de Foz do Iguaçu e Guaíra. "Eles estão indo para municípios pequenos, onde há dois policiais", afirma o delegado da PF de Guaíra, Érico Saconatto.
Saconatto diz que estão sendo usadas pelos contrabandistas desde cidades pequenas situadas na região fronteiriça, incluindo Santa Helena, Pato Bragado e Entre Rios, até municípios localizados na rota de saída do Paraná para a Região Sudeste e para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Altônia, com pouco mais de 15 mil habitantes, é um exemplo. Em janeiro deste ano, a PF de Guaíra fez no município a maior apreensão de cigarro dos últimos dois anos, um total de 2,3 mil caixas, um bitrem, uma carreta e um caminhão. A mercadoria estava em um aviário que servia de fachada para o contrabando.
A movimentação ilegal é tamanha nas pequenas cidades a ponto de a atividade ilícita gerar divisas. "O contrabando está irrigando campanhas políticas de vereadores e prefeitos", diz Saconatto. A população também sente o reflexo do crime. Em alguns municípios usar a orla do Rio Paraná para o lazer tornou-se arriscado. A PF de Guaíra tem recebido diversas denúncias de moradores indignados que afirmam não poder mais pescar e ter propriedade rural às margens de rios, segundo Saconatto.
No Sudoeste a situação não é diferente. O delegado da PF em Cascavel, Algacir Mikalovisky, diz que a utilização de pequenos municípios para o contrabando é um fenômeno novo em razão da necessidade de se dividir cargas em veículos menores.
Carros
Com o fim dos comboios de ônibus que deixavam Foz abarrotados de mercadorias, os contrabandistas passaram a usar carros de passeio para transportar os produtos. No Sudoeste, a mercadoria chega em caminhões vindos de Foz para ser armazenada nos depósitos e depois distribuídas. Na quarta-feira, 11, os agentes estouraram cinco depósitos de cigarro em Francisco Beltrão, onde apreenderam 15 mil pacotes. As estruturas foram montadas em propriedades rurais e residências. Conforme monitoramento da polícia, o produto permaneceria apenas uma noite no local. Para despistar a fiscalização, alguns depósitos migram de lugar rapidamente. Em outra ação, ontem, a PF e a Receita Federal apreenderam três caminhões e uma carreta lotada de cigarros em Santa Helena, avaliados em US$ 230 mil.
As quadrilhas também estão presentes no Centro paranaense. O tenente Marcelo Veigantes, da Gaeco de Guarapuava, diz que na região há rotas alternativas de contrabando onde o fluxo de veículos é pequeno. "Percebemos que eles procuram alternar os locais de armazenagem de cigarro para despistar a fiscalização. Estão procurando não só grandes centros, mas também cidades pequenas para fazer a distribuição", diz. Nessas cidades não é difícil encontrar os cigarros comercializados em pequenos bares e mercearias.
A corrupção de servidores públicos é fator preponderante para que os caminhões circulem nas rodovias paranaenses abarrotados de cigarros e mercadorias. As rodovias da região fronteiriça são as que mais registram casos de corrupção policial, conforme informações da PF, que disse estar agindo para combater o problema.



