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Crimes mal solucionados

  • Pollianna Milan
Eduardo Ribeiro |
Eduardo Ribeiro
 
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Crimes mal solucionados

Brasil tem muitas mortes que nunca foram solucionadas. Ou então, o inquérito da época apontava para um laudo diferente da verdadeira causa mortis. O crime normalmente envolvia um político ou alguém relacionado à política. Durante a ditadura militar, as vítimas apareciam mortas em decorrência de um suposto suicídio ou acidente. Alguns casos chegaram a ser solucionados e o Estado assumiu a culpa, mas sem incriminar ninguém. Outras mortes são impossíveis de desvendar em virtude do tempo e da falta de provas. Conheça seis vítimas cujas mortes foram distorcidasEduardo Ribeiro (1900, foto 1)Foi o único governador negro que o Amazonas teve. Era capitão de engenheiros do exército, maranhense de nascimento e tinha 1,60 de altura. Do Maranhão, foi fazer um curso militar no Rio e acabou sendo transferido para Manaus (AM). Durante a República, virou chefe de gabinete do governador e depois foi governador. Ribeiro transformou urbanísticamente Manaus (na época áurea do ciclo da borracha). Concluiu as obras do Teatro Amazonas e fez o Palácio da Justiça. Quando saiu do governo, em 1896, foi candidato a senador, mas não foi reconhecido. Voltou para Manaus abalado e decidiu viajar à Europa. “Começaram os boatos de que ele estava com doenças nervosas, que era o nome dado para loucura. Chegaram a colocar camisa de força nele”, explica o historiador Rogério Braga. Ribeiro fez tratamento médico e voltou a Manaus, mas decidiu viver em sua chácara. Ele era deputado estadual e presidente da Assembleia, por isso foi morar no local com seguranças. “Ao que tudo indica, ele voltaria ao governo porque era bem quisto pela população”, afirma Braga.

Às 5 horas da madrugada de 1900, Ribeiro foi encontrado sentado no chão, de pijama, enforcado com uma corda de pendurar rede. O caso foi encerrado como suicídio. “Afirmam que, um pouco antes de dormir, ele teria pedido um copo de leite e este estaria com um veneno vindo de Santarém do Pará”, explica Braga. A autópsia feita quando Ribeiro morreu só descreveu como ele foi encontrado, não mencionando a presença de substâncias tóxicas pelo corpo.

Tancredo Neves (1985, foto 2)

No final dos anos 1970, Tancredo começou a atuar nos bastidores do Congresso Nacional e conquistou projeção política. Foi assim que passou a ser pensado como um candidato à Presidência e de “oposição” à ditadura, pois seria o primeiro presidente civil. “A aposta era de que ele, um senhor de idade [75 anos], seria uma pessoa adequada para assumir o cargo – pois dizia estar em perfeito estado de saúde. Além disso, ele contrabalanceava os militares, porque gostava de falar”, explica o historiador Douglas Attila Marcelino, do programa de pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Justamente por divulgar uma imagem saudável é que, nas vésperas de tomar posse como presidente, o anúncio de que Tancredo tinha sido internado fez com que a população criasse uma série de boatos temendo que ele fosse vítima da ditadura.

Tancredo morreu de um tumor no intestino. “Ainda tem muitas pessoas que duvidam. Mas a hipótese de atentado hoje é pouco provável. Ele não era uma ameaça tão grande à ditadura porque, se assumisse o poder, não haveria revanchismo, ou seja, estava acordado que nenhum militar seria punido”, afirma. A questão é como uma pessoa que se dizia saudável, de uma hora para a outra, foi internada e morreu. “Afirmavam que ele tomava magnésio, por isso tinha uma boa saúde. Porém, até que ponto ele foi ético em ocultar a informação sobre o real estado de saúde dele?”, questiona Marcelino.

Elza Fernandes (1936, foto 3)

Elza era doméstica, morava em São Paulo, mas foi trabalhar no Rio. Acabou se apaixonando pelo secretário do Partido Comunista do Brasil (PCB), Antônio Maciel Miranda. Foi desta maneira que ela foi associada à política. O levante comunista começou em 1935 e vários militantes foram presos, inclusive Miranda e Elza. Ao contrário do resto do grupo, ela acabou sendo solta (tinha 16 anos) e, como não tinha meios de sobreviver, foi buscar ajuda com outros militantes do partido. “Era mesmo uma questão de sobrevivência”, enfatiza o historiador Raul Rebelo Vital Junior, da Faculdade Porto-Alegrense (Fapa). O problema é que todos os militantes com os quais ela entrou em contato depois de solta acabaram sendo presos. “Muitos deles desconfiaram de que Elza estaria entregando os companheiros. Por isso, instauraram um tribunal interno para ver o que fazer com ela e, assim, decidiram matá-la”, diz Rebelo. Um dos membros que decidiu pela morte de Elza foi Luis Carlos Prestes.

Ela foi estrangulada, colocada em um saco e enterrada no quintal de uma das casas ocupadas pelos militantes. De 1936 a 1941 o caso ficou esquecido. “A polícia até desconfiava, mas não havia como provar.” Elza tinha apenas um irmão, ele fazia parte do PCB, mas saiu logo que soube da morte dela. Nos anos 1940, mais um grupo grande de comunistas é preso e a polícia os pressiona para saber onde estava Elza. Eles acabam contando a verdade e o caso passa a ter repercussão depois que o corpo é exumado. “Vargas aproveita o caso para divulgá-lo e desgastar o comunismo”, explica Rebelo.

Vladimir Herzog (1975, foto 4)

Assim que Ernest Geisel assumiu o poder, praticamente todas as organizações de esquerda já tinham sido dizimadas no Brasil. Uma única que poderia dificultar o processo de abertura seria o partido comunista (PC), por isso foi feita uma ação forte para acabar com seus dirigentes. Vladimir foi preso junto com uma leva de pessoas do PC. “Ele não tinha um papel importante no partido, o máximo que fazia era dar algum dinheiro”, explica o jornalista Paulo Markun, autor do livro Meu querido Vlado. Além disso, Vladimir havia assumido a direção de Jornalismo da TV Cultura e, logo em seguida, iniciaram campanhas da imprensa relacionadas ao regime militar afirmando que os comunistas haviam tomado conta da emissora. “Primeiro eu fui preso e depois o Vlado. Eu o avisei que seria preso. O Vlado foi procurado na televisão e disse que não poderia ir à delegacia naquele momento porque precisava terminar o jornal, mas se comprometeu a se apresentar depois. Ele se apresentou e horas depois já estava morto”, conta Markun.

A primeira versão foi o suicídio. Vladimir foi fotografado morto com um cinto no pescoço e pendurado na cela com os joelhos dobrados. O inquérito foi fechado até o aparecimento da testemunha Rodolfo Konder. Ele escutou Herzog ser torturado, foi levado até o jornalista, confirmou que era ele e depois voltou à cela. “Este depoimento levou a família a entrar com uma ação judicial contra o governo brasileiro”, diz Markun. Desta vez, a Justiça condenou a União, mas o torturador negou a morte. “Em que circunstâncias ele morreu, não sabemos. O caso nunca foi elucidado.”

Juscelino Kubitschek (1976, foto 5)

Assim como João Goulart e Carlos Lacerda, JK foi considerado persona non grata pela ditadura militar. Os três tinham ambições eleitorais e, quando o golpe chegou, em 1964, eles viram o futuro político ser interrompido pelos militares. Por isso, lançaram o partido Frente Ampla, em 1968, que fazia oposição à ditadura. “Havia indisposição dos militares que ocupavam o poder com essas figuras carismáticas e populares”, afirma o historiador Marcelo Squinca da Silva, da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Para ele, a Operação Condor – criada na América do Sul para eliminar figuras políticas de destaque que se opuseram aos ditadores (principalmente do Brasil, Chile e Argentina) – pode estar envolvida com a morte de JK. “A operação chegou ao auge na década de 70 a 80 e visava os nomes de maior vulto que mantinham oposição aos militares. Há novos estudos que apontam para a Condor a culpa pela morte de políticos como JK. Mas é difícil provar”, pondera.

Kubitschek morreu em um suposto acidente de trânsito quando voltava de São Paulo ao Rio de Janeiro. “Corre a boca pequena que ele teria ido visitar uma amante e estava retornando”, revela Silva. O veículo foi atingido por um ônibus e, depois de atravessar a Via Dutra, bateu de frente com uma carreta. A família de Kubitschek nunca acreditou na versão e conseguiu reabrir o inquérito (que havia concluído ser acidente de trânsito) na década de 1990. Por falta de provas, ele foi encerrado novamente.

Zuzu (Zuleika) Angel Jones (1976, foto 6)

Ela só queria ter o corpo do filho Stuart Jones – morto pela ditadura militar – para poder enterrá-lo dignamente. Mas nunca conseguiu. A busca incessante da estilista Zuzu Angel pelo corpo do filho fez com que ela criasse inimizade com a ditadura militar e morresse. Stuart era estudante de Economia, filho de um norte-americano, falava diversas línguas e, dizem, era um aluno brilhante. Ele fez parte do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), foi preso e tortuado até a morte. Zuzu soube, por relatos, do que ocorreu com o filho e não sossegou mais. O corpo teria sido jogado em alto mar. Ela, uma estilista de renome, costurava também para as mulheres dos militares e, aproveitando a proximidade, foi na casa de muitos deles para saber do paradeiro de Stuart. “Nesta busca pelo filho, ela se tornou desagradável ao sistema. E o caso ganhou repercussão internacional porque ela enviou cartas para o irmão de John Kennedy, porque Stuart era cidadão americano”, afirma a jornalista Ruth Joffily, que pesquisou a vida da estilista. Um desfile que Zuzu fez em Nova York ficou conhecido mundialmente como um protesto pela morte do filho.

Numa madrugada, dirigindo seu Karmann Ghia, na saída do Túnel Dois Irmãos (que hoje leva o nome dela), Zuzu saiu da pista e capotou o carro ribanceira abaixo. A polícia disse que ela morreu em consequência do acidente. Em 1996, o inquérito foi novamente aberto, mas a Justiça não mudou a versão. Em 2001, o caso é reaberto, duas testemunhas que estavam em cima do túnel afirmaram que Zuzu foi fechada por viaturas policiais que cometeram o acidente e, desta vez, o estado assumiu a culpa pela morte.

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