Em 15 dias, duas grandes áreas pertencentes a construtoras e imobiliárias foram invadidas em Curitiba. Na madrugada da última sexta-feira, cerca de dez famílias invadiram um terreno de 200 mil m2 no Campo Comprido, próximo ao Instituto Pequeno Cotolengo. Durante o fim de semana, mais famílias entraram no local e ontem, segundo Luzia Stubert, integrante do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia (MNLM-PR), cerca de 1,5 mil famílias estavam acampadas na área. "E temos 90 nomes na fila da espera", afirma.
No último dia 23 de fevereiro, três terrenos do bairro Santa Quitéria foram invadidos por 220 famílias. A ocupação ocorreu em condições semelhantes a do Campo Comprido. Os terrenos pertenceriam à construtora Cidadela.
Organização
Luiza Stubert nega a participação do MNLM como organizador do movimento. "Estamos aqui dando um apoio. O pessoal chegou de quinta para sexta e só ficamos sabendo no sábado. Aí, viemos para dar uma assistência." Apesar de negar a liderança na invasão, é Luzia e os outros integrantes do Movimento que fazem o "cadastro" dos acampados e anotam os telefones de quem espera um "lote" no terreno.
Segundo o vendedor Horácio Marim, de 65 anos, que entrou no terreno com a mulher e o filho na sexta-feira, foi Luzia e uma outra mulher que o alertaram sobre a invasão na semana passada. "Ela esteve lá em casa e disse que era para vir aqui que teria um lugar para a gente."
Luzia nega. "Eu não estive na casa desse senhor. Talvez alguém tenha passado lá, mas eu não", disse a integrante do MNLM para, em seguida, dar uma orientação aos demais acampados no local. "Tem que saber dar entrevista. Tem que falar as coisas certas. Se perguntarem quem avisou daqui, é só para dizer que ficou sabendo por aí e não dar nomes."
Nos acampamentos improvisados com lona e madeira, os acampados tentam manter a rotina enquanto aguardam alguma informação sobre o terreno e a possível chegada da polícia. "Moro com meu marido, filhos e netos em uma casinha pequena. Estou aqui guardando lugar para o meu filho e minha filha. Espero que eles consigam um terreno e possam construir alguma coisa. Mas se a polícia vier, vamos embora. Não tem o que fazer", diz a dona de casa Cristiana Xereda de Feni, 47 anos.
Na sexta-feira, Cristina, a família e outros acampados tentaram entrar em um terreno vizinho, de 1,2 mil m2, mas um grupo de seguranças particulares teria repelido os invasores. Na confusão, uma gestante teria passado mal e foi encaminhada para o hospital.
Os dois terrenos do Campo Comprido pertencem a mesma empresa, a Triunfaz Construções e Incorporações. Ontem, funcionários contratados pela empresa cercaram com arame farpado a parte da área que não chegou a ser ocupada.
A movimentação dos acampados preocupa os moradores das proximidades. Uma aposentada, que pediu para não ser identificada e que há 30 anos mora na região, diz que a chegada das famílias foi muito rápida. "Primeiro chegaram umas vinte pessoas. Depois apareceu um monte de gente em um monte de carros. Ontem de noite escutamos tiros. A polícia vem, dá uma olhada e vai embora", relata.







