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Na segunda semana de janeiro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes abriu inquérito de ofício no Supremo Tribunal Federal (STF) mirando servidores da Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por suposto vazamento de dados fiscais de ministros e seus familiares. A investigação surgiu após reportagens revelarem vínculos financeiros entre parentes de magistrados e o Banco Master, instituição envolvida em um escândalo de fraudes bilionárias.
O movimento recente tem algumas semelhanças com a abertura, em março de 2019, do inquérito das Fake News (4.781): não houve provocação da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou da Polícia Federal, Moraes assumiu como relator, e as supostas vítimas são membros da própria Corte. Desde aquele ano, o STF tem recorrido a medidas de exceção para tentar proteger seus membros de críticas e suspeitas.
Um mês depois da abertura daquele inquérito, Moraes ordenou que a revista Crusoé e o site O Antagonista retirassem do ar uma reportagem intitulada "O amigo do amigo do meu pai", que mencionava Dias Toffoli em uma delação da Odebrecht. A decisão foi classificada como censura por entidades jurídicas e associações de jornalistas. Dias depois, diante da repercussão negativa, Moraes revogou a ordem.
Em 2020, a estrutura do inquérito se expandiu em operações com mandados de busca e apreensão em múltiplos estados, atingindo parlamentares, empresários e influenciadores acusados de financiar ou disseminar ataques virtuais contra o STF. A partir dali, o inquérito das Fake News virou um mecanismo de blindagem institucional.
O plenário validou sua continuidade e, com isso, o STF passou a conduzir diretamente investigações contra quem fosse considerado suspeito de atacar seus ministros. O tribunal passou a ser vítima, investigador e julgador de casos ligados à sua imagem. Parlamentares, empresários e influenciadores se tornaram alvos por críticas e postagens, e o Supremo consolidou um novo inquérito paralelo, das "milícias digitais", com a mesma lógica: manter sob controle apurações sobre conteúdos que questionavam as ações da Corte.
Em 2021, o deputado Daniel Silveira foi preso após divulgar vídeo com ofensas a ministros. Em 2023, Moraes levou um caso pessoal ao Supremo, após ser hostilizado por brasileiros no aeroporto de Roma. O processo só foi arquivado após retratação dos envolvidos. Em 2024, o empresário Elon Musk foi incluído no inquérito das milícias digitais após entrar em conflito público com Moraes.
Em 2025, supostas ameaças contra Flávio Dino nas redes foram incluídas por Moraes no inquérito das milícias digitais. Em 2026, a Primeira Turma tornou ré uma mulher que xingou Dino em um voo comercial.
Conduta de Toffoli no caso do Banco Master também atrai críticas por autoproteção do STF
Nas últimas semanas, o próprio inquérito do Banco Master levanta suspeita de blindagem institucional. O ministro Dias Toffoli avocou a investigação para o STF em dezembro de 2025, sob fortes críticas até mesmo de formadores de opinião esquerdistas.
Desde então, ele tem centralizado pessoalmente os principais atos do processo: impôs grau máximo de sigilo, retirou documentos da CPI do INSS relacionados a quebras de sigilos de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, determinou que as provas apreendidas pela Polícia Federal (PF) fossem entregues diretamente ao STF, e estabelceu que os interrogatórios sejam realizados nas dependências da Corte, e não na PF, sob a fiscalização de um juiz auxiliar que ele designou.
Juristas têm apontado risco de conflito de interesses por causa da proximidade do ministro com alvos da investigação. Como revelaram diversos veículos de imprensa nas últimas semanas, irmãos de Toffoli venderam participação milionária no resort Tayayá a um fundo controlado pelo cunhado de Daniel Vorcaro; seguranças do STF passaram 134 dias no mesmo resort; e o próprio ministro viajou a Lima, em jatinho particular, ao lado de Augusto de Arruda Botelho, advogado do banco.
Tantas conexões com o ministro motivaram representações no Senado por suspeição e pedidos de impeachment. Toffoli, porém, não tem recuado.
Ex-ministro Marco Aurélio Mello não vê paralelo claro com "inquérito do fim do mundo"
Em junho de 2020, um ano após a abertura do inquérito das Fake News, o plenário do Supremo Tribunal Federal julgou a constitucionalidade da investigação instaurada de ofício pela Corte. O único voto contrário à sua continuidade foi do então ministro Marco Aurélio Mello, que cunhou a expressão "inquérito do fim do mundo". "Estamos diante de um inquérito natimorto, um inquérito do fim do mundo, sem limites", afirmou na ocasião.
Consultado pela Gazeta do Povo sobre a condução do caso do Banco Master, o ex-ministro reconhece problemas no modo como o processo vem sendo levado pelo STF, mas vê diferenças entre o inquérito de 2019 e a atuação de Toffoli no caso mais recente.
Para ele, o primeiro ponto crítico da atuação do STF hoje é a ausência de prerrogativa de foro que justifique a permanência do processo no Supremo. “A competência do Supremo é de direito estrito. É o que está na Constituição e nada mais. Na área penal, visa proteger o cargo. Que agente público, detentor da prerrogativa de ser julgado pelo Supremo, está envolvido?”, questiona.
O ex‑ministro também critica o grau de sigilo imposto ao caso. “A publicidade é a mola mestra da administração pública. Sigilo é exceção”, diz.
Ainda assim, Marco Aurélio ressalta que, diferentemente do inquérito das Fake News, o inquérito do Banco Master sob relatoria de Toffoli não foi instaurado de ofício. A investigação chegou ao STF após provocação da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro. “Como surgiu o inquérito? Não me consta ter sido instaurado sem provocação de quem de direito. O paralelo com o ‘inquérito do fim do mundo’, salvo engano, não existe”, afirma.
O jurista Alessandro Chiarottino aponta semelhanças estruturais entre os dois episódios, mas também diferencia os contextos. “No caso do inquérito das fake news não havia, rigorosamente, condutas típicas (crimes) a serem apurados, ao passo que no caso Master os indícios de crime são amplos e evidentes”, diz. Os papéis exercidos pelo Supremo também mudam: no caso do inquérito das Fake News, diz Chiarottino, "o STF estava no papel de investigador, promotor e juiz"; no Master, é um potencial perpetrador dos crimes investigados.



