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Enterro de uma das vítimas da chacina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim: muitos morreram decapitados | Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo
Enterro de uma das vítimas da chacina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim: muitos morreram decapitados| Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

As imagens das decapitações na rebelião em Manaus chocaram o país. Pequenos vídeos que circulam pelas redes sociais mostram o que seria a ação da facção Família do Norte (FDN) no momento da execução dos mais de 50 homens dentro do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Corpos aparecem empilhados em parte do pátio onde tudo acontece, enquanto logo mais à frente um grupo prepara as cabeças decepadas para uma espécie de exibição.

As cenas são fortes, mas não são as primeiras do tipo na disputa entre facções criminosas brasileiras. A guerra deflagrada entre grupos de traficantes, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), repete o ato de degolar inimigos dentro e fora de presídios. A prática não é nova e passou a se repetir com frequência nos últimos meses depois que criminosos começaram a gravar e divulgar vídeos do momento da morte dos inimigos em aplicativos de mensagens e redes sociais. Em nova matança nesta sexta-feira (6), dessa vez em um presídio de Roraima, novas imagens começaram a pipocar na internet. Elas mostram homens mutilados de várias maneiras, inclusive com coração arrancado.

PCC já teria plano para se vingar de facção responsável por chacina em Manaus

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Para especialistas em segurança pública, a decapitação extrapola o objetivo de eliminar inimigos. Elas são uma demonstração de força e uma forma de garantir a propagação da mensagem do grupo criminoso. Analistas comparam a proliferação desses vídeos no Brasil com a estratégia de expansão do Estado Islâmico no Oriente Médio.

“No contexto da internet, os vídeos têm potencial de divulgação instantâneo. Alguns grupos conseguem, assim, ampliar a capacidade de propagação de suas mensagens mesmo que a imprensa não dê atenção. E eles têm um propósito, que é o de afirmação de força e poder. A decapitação produz resultados também em termos de dominação e tem efeito de demonstração, porque mais pessoas podem aderir (à facção) e usar essas práticas dentro do sistema penitenciário. Ajuda a produzir a identidade do grupo”, analisa o sociólogo Rodrigo de Azevedo, da PUC-RS, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

As decapitações, que remetem aos tempos de Lampião e Maria Bonita, mortos e decapitados no sertão nordestino, também se repetem na guerra dos cartéis do narcotráfico no México. Cenas de extrema violência têm sido comuns naquele país. Centenas de mortes cruéis, como a decapitação de cinco pessoas às vésperas da eleição de 2012, foram divulgadas em vídeos. Seis pessoas foram degoladas no último Natal.

O sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, diz que as mortes brutais em rebeliões também estão relacionadas a um contexto religioso:

”Sabemos como as crenças atravessam o mundo do crime. Tudo tem significado. Na Idade Média, existia a prática de furar os olhos para não deixar o indivíduo de ver a luz no outro mundo, perdendo direito à eternidade. Hoje, a decapitação é como retirar a memória. É uma extinção total do indivíduo. Essas construções coletivas simbólicas são movidas por impulsos e crenças. Não sei até que ponto são racionais”.

Exibição da crueldade

Ao menos 11 estados brasileiros registraram decapitações desde a rebelião no complexo penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, em 2013, na qual presos filmaram a morte de rivais. Enquanto comemoravam a ação de crueldade, os prisioneiros deram várias facadas no corpo das vítimas.

Em dezembro, no Ceará, um vídeo que circula no WhatsApp mostra um jovem, ainda vivo e com as mãos amarradas para trás, tendo a cabeça arrancada com um facão. No meio de um matagal, depois de cortar a garganta do jovem, os executores dão vários golpes com o facão até separar a cabeça do corpo por completo. Depois, os braços e pernas dele também são cortadas.

No vídeo, de 2 minutos e 23 segundos, um dos criminosos afirma que o ato era uma vingança pela morte de um comparsa que havia sido decapitado dias antes. Ele levanta a cabeça da vítima pelos cabelos e a exibe para a câmera.

“Aqui é B13 e PCC. Vieram do Rio de Janeiro para cá, é isso aqui. Assim que nós faz. Nós mata e desossa. Só quero sangue do CV”, diz o criminoso.

Meses antes, em outubro, as disputas entre PCC e CV já haviam provocado violência em presídios de Rondônia, Roraima e Ceará.

Em Roraima, houve ao menos quatro decapitações. Na época, um vídeo na internet mostrava presos chutando uma cabeça, como se estivessem jogando futebol, no pátio de um presídio. Os governos dos três estados, no entanto, negaram que as cenas ocorreram em suas penitenciárias.

No Rio, fontes policiais afirmam que a prática tem se repetido sobretudo entre integrantes do tráfico. Muitas vezes, as imagens são gravadas e exibidas depois, como demonstração de força da facção. Segundo as mesmas fontes, no entanto, o ato de pôr fogo nos corpos, conhecida como micro-ondas, continua sendo a mais comum.

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