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Entrevista

Do canavial para o boteco

Indiscutivelmente, a cerveja hoje é a bebida alcoólica mais consumida no Brasil. Passou a ser a preferência dos brasileiros depois da Revolução Industrial, quando a refrigeração deu um toque especial ao sabor que não tinha graça em temperatura ambiente. Em importância histórica, entretanto, dificilmente a cerveja vai bater a cachaça. Na história do país, a pinga já teve diversas utilidades e até hoje continua sendo usada, em menor escala, para ajudar em trabalhos extremamente árduos.

Segundo o historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP), Henrique Carneiro, a cachaça era considerada uma bebida quente e seca, como era o vinho. Por isso, por muito tempo foi vista como uma substância positiva. "A idéia de que ela oferece riscos para a saúde é muito mais recente. Daí percebemos como a visão médica mudou", diz. No início do Brasil Colônia não havia o consumo generalizado, até porque a cachaça era considerada um produto de farmácia, como um medicamento.

Somente a partir do século 17, sobretudo com os soldados e as populações urbanas, é que ela passa a ser uma bebida "de lazer". Em entrevista à Gazeta do Povo, o especialista em história da alimentação com diversos livros publicados sobre álcool e drogas explica que a pinga já chegou, até mesmo, a ser proibida no país.

Quando a cachaça foi proibida no Brasil. E por quê?

A primeira carta real que estabelece a proibição é de 1649, quando a bebida ainda era chamada de "vinho de mel". Depois, em 1661, a proibição foi revogada e em 1690 foi novamente proibida, inclusive para exportação. Primeiro ela foi vetada por razões econômicas: o objetivo era evitar a concorrência com o produto que vinha de Portugal, a bagaceira. O outro motivo é que a cachaça brasileira passou a ser usada como escambo, moeda de troca de escravos com a África. Portugal queria impedir que houvesse essa relação direta da colônia com o continente africano. Até porque, pelo pacto colonial, todo o comércio tinha de vir de Portugal. Aqui só era permitido plantar produtos de exportação.

A ordem foi cumprida?

Como se percebe, as proibições tiveram de ser renovadas porque, justamente, não estavam sendo cumpridas. A partir do fim do século 17, foram descobertas as minas, sobretudo na região de Minas Gerais. E o uso da cachaça no garimpo passou a ser indiscriminado. Os escravos passam a receber a cachaça e usá-la como elemento para ajudar no desempenho das atividades de mineração. Relatos na atividade de garimpagem dizem que se acreditava que a cachaça esquentava, sobretudo na época do inverno, quando se fazia com mais intensidade o garimpo porque o nível das águas estava baixo. No plantio de cana, havia o consumo fora do trabalho, mais para o lazer.

Ela sempre foi uma bebida de consumo popular?

Até o século 17 não se consumiam bebidas destiladas em massa. O álcool era um produto de farmácia. No final desse período, sobretudo com os soldados e as populações urbanas, a cachaça passa ao consumo generalizado, como aconteceu com todos os destilados alcoólicos no mundo. Na Rússia é a vodca; na Inglaterra é o uísque e o gim; na Holanda e Alemanha é o gim; na França é o conhaque. Nesse momento, as populações que mais consomem estão ligadas ao trabalho manual. A cachaça no Brasil, inclusive, entra na ração dos soldados.

Por que o nome cachaça?

Não existe uma explicação estabelecida. São apenas hipóteses. Na língua espanhola e portuguesa, o termo cachaça denominava o que era refugo. No processo de destilação do açúcar, tinha a garapa, que era o caldo de cana, e uma espuma que era a parte jogada fora – depois ela foi usada para a produção da cachaça. Como eles chamavam essa espuma de resto, a bebida feita a partir dela ficou conhecida como cachaça.

Serviço:

O professor Henrique Carneiro fará uma palestra sobre o tema no dia 28 de novembro, às 14 horas, para os alunos de pós-graduação em História, da Universidade Federal do Paraná.

Informações

www.historiadaalimentacao.ufpr.br

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