"A maconha é uma droga mais leve do que outras ilícitas e até lícitas". Mito ou verdade? A posição defendida pela Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, de liberação da maconha para uso pessoal, põe em pauta a discussão sobre isso, já que esse é um dos argumentos mais utilizados por quem defende a descriminalização da Cannabis sativa.
Para o psiquiatra e diretor do Hospital Nossa Senhora da Luz, Dagoberto Hungria Requião, o rótulo da maconha de droga mais leve é ilusão. Para ele, aliás, a ideia de se fazer comparação entre as drogas é equivocada. "São drogas que causam problemas", define. "Esses problemas podem ser mais ou menos sérios dependendo das circunstâncias, como a frequência de uso, por exemplo", afirma.
O psiquiatra e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Marcos Zaleski, lembra que a legislação brasileira não faz distinção entre a maconha e outras drogas ilícitas. "O que pode acontecer é uma tolerância da autoridade policial", diz. Ele ressalta, ainda, que não há evidências científicas para que o consumo de maconha possa ser descriminalizado.
De acordo com o médico, a longo prazo, a maconha tem efeitos semelhantes ao cigarro de tabaco: enfisema pulmonar, câncer etc. "As substâncias que existem na folha do tabaco são as mesmas da Cannabis sativa", explica Zaleski. A diferença, segundo o médico, está na nicotina (presente no cigarro de tabaco) e no tetrahidrocanabinol (presente na maconha).
Segundo ele, a nicotina tem um efeito estimulante sobre o indivíduo, mas não chega a interferir no seu dia a dia. Já o tetrahidrocanabinol traz para o usuário um efeito de lentificação, interferindo na dinâmica de vida. "A despeito de ser considerada uma droga mais leve, pode ocorrer a síndrome que chamamos de amotivacional, em que os indivíduos ficam sem objetivo de vida, são como adultos crianças, problemas de memória, raciocínio, quadros psicóticos e esquizofrênicos", explica o médico.
Zaleski esclarece que, certamente, um usuário de maconha não vai morrer por uma overdose dessa droga, mas, segundo ele, os efeitos a médio e longo prazo mudam a dinâmica da vida do indivíduo.
O médico reconhece que o álcool é uma droga lícita que também pode trazer mudanças para a dinâmica de vida do indivíduo e que o ideal é que fosse proibida. Mesmo assim, isso não é o que defende a Abead. "O álcool já está estabelecido culturalmente. A maconha é ilegal". (TC)



