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Eles viram a cara da aids

Há 30 anos, o Paraná registrou a morte “número um” provocada pelo HIV. À época, um pequeno grupo de profissionais enfrentou a falta de informações sobre a doença, o medo e o drama dos ambulatórios

  • José Carlos Fernandes
Os infectologistas José Luiz de Andrade Neto e Maria das Graças Sasaki, no Hospital Oswaldo cruz, mantido pelo governo do estado, com 32 leitos – ainda que não exclusivos para pacientes de HIV. Hospital criado em 1929 é referência no atendimento à aids |
Os infectologistas José Luiz de Andrade Neto e Maria das Graças Sasaki, no Hospital Oswaldo cruz, mantido pelo governo do estado, com 32 leitos – ainda que não exclusivos para pacientes de HIV. Hospital criado em 1929 é referência no atendimento à aids
 
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Eles viram a cara da aids

Em 1993, ao sair de uma sessão de cinema, o infectologista Moacir Pires Ramos foi surpreendido por uma mão estendida. Ficou emocionado. À sua frente estava um velho professor da Faculdade de Medicina da UFPR, homem que há quase uma década se limitava a lhe acenar, sem jamais tocá-lo, como se Moacir tivesse uma doença contagiosa. O motivo do "repente", sem que se dessem conta, só podia ser o filme a que tinham acabado de assistir na mesma sala: Filadélfia, de Jonathan Demme, com Tom Hanks, a primeira grande produção a mostrar, sem meios tons, a devastação moral e física provocada pelo HIV.

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O medo de um professor de se contaminar com um aperto de mão podia ser cômico, se não fosse trágico. Centenas de outros profissionais de saúde sentiam a mesma coisa e agiam da mesma forma, não raro pressionados pelos próprios familiares, que temiam o flagelo provocado por "uma gota de saliva acidental". Não por menos, uns tantos disseram "não" a esse campo da medicina. Outros se vestiram de escafandristas – literalmente –, entraram nos isolamentos e mergulharam no desconhecido. Eles "viram a cara da aids", e suas biografias foram definidas por aquele momento.

No Paraná, apesar de pequeno, o número de "escafandristas" é impreciso. Infectologistas, pneumologistas, dermatologistas, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, eles se dividiam em quatro endereços da capital: a antiga Saúde Pública, na Rua André de Barros; o Hospital de Clínicas da UFPR (HC); o Hospital Oswaldo Cruz e o Hospital do Trabalhador. O pioneiro no atendimento, o infectologista Nelson Szpeiter, morreu em 2010, debaixo de aplausos. Pelas mãos dele, em 1984 – há exatos 30 anos – passou o "paciente número um da aids", homem adulto, vindo de outro estado para o interior do Paraná, trazido às pressas para o HC. É tudo o que se pode dizer.

Dois anos, dois meses

Depois de Szpeiter e do "número um", nada mais seria como antes. A exemplo do ocorrido no Rio de Janeiro e em São Paulo, três anos antes, outros casos viriam, sem pedir licença, como ocorre nas epidemias. O que contam os que abraçaram aquele momento não é para estômagos sensíveis. "Foi um capítulo escuro da medicina", resume o infectologista José Luiz de Andrade Neto, 55 anos, um dos que estavam lá.

Para que se tenha uma ideia, do primeiro óbito no Paraná, em 1984, saltou-se para dez em 1986, e 58 em 1990, chegando ao pico de 483 em 1997 (veja infográfico). Os não mais do que 20 profissionais da saúde que atuavam no setor no estado tiveram de lidar com situações que não eram ensinadas na faculdade. O paciente morria no máximo em dois anos – mas não era incomum que morresse em dois meses, o que obrigava os familiares a pensarem em velórios e partilhas ao mesmo tempo em que tinham de digerir a vida secreta que os filhos, maridos e irmãos levavam nos inferninhos e saunas da cidade.

O coquetel de informações era o bastante para instalar o caos nos ambulatórios. Se não faltam histórias de mães dolorosas que assumiram o posto no socorro aos seus, também sobram episódios dignos dos folhetins, envolvendo de pilhagem de bens, expulsão da casa da família, abandonos, um quadro bem à moda da "peste gay", apelido dado à aids na sua pré-história.

O psicólogo Antônio Car­los Moreira, 62 anos, guarda consigo um pequeno museu de objetos a ele presenteados pelos contaminados que atendeu naqueles idos. Todos estão mortos. Ganhou livros, discos, adornos de mesa, com dedicatórias de agradecimento. A família e os amigos lhes tinham faltado. Ameaças de suicídio eram recorrentes. Moreira, então em início de carreira, vinha de dois ambientes machistas – antes de abraçar a psicologia, tinha sido jogador de futebol e estudante de Engenharia. "Mesmo no ambiente profissional a gente tinha de esconder o que fazia. O clima era claustrofóbico", lembra o homem que calcula ter assistido à morte de 300 pacientes desde 1984.

"Tinha gente que achava que pegava pela respiração. A desinformação era enorme", conta outro pioneiro, o médico Alceu Fontana Pacheco Júnior, 63 anos, conhecido por ter criado a enfermaria do Hospital do Trabalhador, agora reduzida a poucos leitos, para tristeza do idealizador. O preconceito diminuiu, admite, mas não acabou: até hoje doutor Pacheco não imprime sua especialidade – "infectologia" – no receituário, para evitar constrangimento a seus pacientes.

Maquiagem

Entre 1984 e 1996 – quando medicamentos mais eficientes chegaram ao mercado –, os doentes apareciam nos hospitais em estado de penúria. Não raro, vinham maquiados, para esconder os efeitos da anemia, da magreza, das diarreias, da demência, da cegueira e, claro, do abandono. Muitos vinham de catacumbas familiares, nas quais estavam escondidos por vergonha – própria e dos seus.

Quando chegavam, era comum aparecer nos prontuários a senha "febre a esclarecer", conta a infectologista Cléa Elisa Lopes Ribeiro, 53 anos. "A primeira avaliação a gente dava no olho. O estágio da doença era visível", acrescenta a maioria dos 12 profissionais ouvidos para essa reportagem.

Bastava surgir alguém com "magreza cadavérica", como se dizia, para que os próprios centros de saúde sofressem abalos sísmicos. "Vi um senhor de 66 anos quase ser expulso de um hospital em São Paulo. Cada diagnóstico equivalia a um atestado de óbito", conta Cléa, atualmente no HC e na Secretaria Municipal de Saúde.

Diante de um paciente "suspeito", formava-se um tabuleiro de xadrez. Não se sabia ao certo a que profissional encaminhar. No princípio, iam aos dermatologistas. Depois, aos pneumologistas. Muitos eram rejeitados nas UTIs. Pedidos de biópsias, negados – "para quê?", dizia-­se. De fato, em pouquíssimo tempo as poucas opções de tratamento se esgotavam, à custa de remédios importados e caros. "A aids era uma doença democrática", resume o infectologista Moacir Pires Ramos, que chegou a assinar três atestados de óbitos por semana – de pobres e de ricos. Todos morriam.

Era preciso perguntar sobre a vida sexual do paciente. Garantir sigilo. Rastrear os parceiros do doente. "Eu nunca tinha ouvido falar em dark room", conta a médica Maria Cristina Assef, 48 anos, sobre as primeiras conversas sobre as práticas sexuais de um contaminado, nos anos 1990. Não havia um dia sem descoberta. E desconforto. Um exemplo resume tudo: debaixo da ameaça da Polícia Civil do Paraná de fechar todos os lugares de prostituição, os profissionais foram à luta, como se fossem figuras saídas das páginas de O Diário do ano da peste, de Daniel Dafoe. Temia-se um surto de intolerância pior do que a própria doença.

Em resposta, médicos da cidade deram palestra em prostíbulos. Entraram em boates que só pareciam existir em filmes como Parceiros da noite, estrelado por Al Pacino. "Fiquei com as casas da 24 de Maio", lembra Moacir. A infectologista pernambucana Maria das Graças Sasaki, 64 anos, hoje no HC e no Oswaldo Cruz, fez pesquisa de campo na zona de prostituição do Porto de Paranaguá. Chamaram-na de louca. Encontrou 7% de infectadas – uma surpresa: a "peste" não era tão gay assim. Logo vieram os idosos. A geografia da aids mudava a cada estação. O que essa turma pode dizer, com certeza, é que fez a coisa certa. "Eu me senti médico de verdade", resumem.

O CHAMADO

A infectologista Cléa Elisa Lopes Ribeiro era estudante de Medicina, em Uberaba, Minas Gerais, quando soube que o estilista Marquito – primeira vítima oficial da aids no Brasil – seria enterrado na cidade, em 1981. Não pensou duas vezes. Foi até lá. Se bem lembra, naquele dia decidiu que trabalharia com pacientes soropositivos.

O atendimento às vítimas da aids entendido como "vocação", "chamado" e "missão" aparece também na voz de outros profissionais. A infectologista Maria Cristina Assef, por exemplo, chegou ao meio alguns anos depois dos primeiros casos, na década de 1990. Voluntariamente, quando estudante, ia ao Hospital Oswaldo Cruz, no Alto da XV, acompanhar os médicos. Foi ali que se decidiu.

"Ninguém esperava uma nova doença no século 20. Foi uma surpresa", comenta, ao citar as aulas do infectologista Nelson Szpeiter, pioneiro com quem teve aulas na Universidade Católica. "Havia uma aura de mistério em torno da doença", acrescenta.

Ao contar sua opção ao pai, ele quis saber por que ela não havia escolhido a cardiologia, por exemplo. Tarde demais. Naquele idos dos anos 1990, Assef estaria no Hospital do Servidor, em São Paulo, assistindo à carestia do AZT e à média de três mortes por semana. A gente acreditava que estava fazendo história. E fizemos. No começo não havia nada a oferecer. Hoje não é mais assim", diz a médica que faz parte da equipe que acompanha os 1,4 mil pacientes soropositivos do Hospital de Clínicas.

A PESQUISA

A infectologista pernambucana Maria das Graças Sasaki, formada em 1974, começou a trabalhar com soropositivos em 1987, depois de uma longa experiência com doenças parasitárias e infecciosas. Em conversas com colegas que trabalhavam em cidades como o Rio de Janeiro e Santos, entendeu o que poderia realizar em Paranaguá, no litoral do Paraná, para onde se mudou naquela época. Entrevistou e testou 100 prostitutas entre 18 e 31 anos. Chegou a 7% de contaminadas e mudou a geografia da aids no Paraná.

Os dados lhe serviram de moeda de convencimento, na luta por políticas de saúde pública. "Não foi fácil. Uma dessas mulheres engravidou. Havia desafios e poucas informações". Em 1993, Maria das Graças se mudou para Curitiba, passando a trabalhar no HC e no Oswaldo Cruz. Sua pesquisa abasteceu outros profissionais. "Foi um período triste, mas muito estimulante."

O HEROÍSMO

O infectologista José Luiz de Andrade Neto é capaz de falar por horas sobre as dificuldades enfrentadas pelos médicos nos primórdios da aids. Mas sua voz embarga, mesmo, quando trata dos enfermeiros, heróis anônimos dessa história. Nos últimos 30 anos ele observa esse grupo no Hospital Oswaldo Cruz.

Sobre o que se deu nos anos 1980, diz: "Naquela época, ninguém sabia muita coisa sobre a transmissão da doença. Não importava. As enfermeiras entravam no quarto, davam banho nos pacientes depois das diarreias, sem medo. É uma das imagens das quais não consigo esquecer. Foi um momento brutal. Era morte lenta e anunciada – e os enfermeiros fizeram parte disso. Não havia esperança. Dávamos até cinco notificações de HIV por dia."

A enfermeira aposentada do HC Alba de Oliveira Silva conta que as profissionais tinham de se "paramentar" para entrar nos quartos. "Até o dia em que descobrimos que não pegava. Que dava para abraçar aquelas pessoas. Foi uma alegria".

A SOLIDÃO

Um dos primeiros pacientes do psicólogo Antônio Carlos Moreira lhe disse que o inferno existia. Chamava-se "aids". E que só havia uma esperança – o purgatório. Outro doente, um recém-formado em Medicina, reuniu a família e contou que estava contaminado. Em 90 dias, foi excluído. Quem cuidou dele foi um amigo. Para muitos habitantes dos primórdios da aids, o fim foi passado na companhia de estranhos.

A SEXUALIDADE

"Preservativo? Isso é coisa de marinheiro..." escutou certa vez a sanitarista Rita Esmanhoto num de seus muitos trabalhos em prol da saúde pública. Nos primeiros anos da aids, Rita atuou numa área ainda hoje obscura – a prevenção, junto à Secretaria Municipal de Saúde. Foi desse lugar que, ao lado do marido, o médico Nizan Pereira, percebeu todos os tons de cinza revelados pela doença.

Em primeiro lugar, diz, toda história de contaminação é complexa, tanto quanto é complexa a vida humana. Os médicos – acostumados a receitar antibióticos – tiveram de se deparar com narrativas de amor, perdas, desejos e práticas sexuais "que a sociedade costuma empurrar para debaixo do tapete". Foi um aprendizado. Para todos os lados. Rita ainda guarda os adesivos que mandou imprimir e distribuir naqueles dias. Um deles diz "solidaried'aids". São antigos no design, atuais na mensagem.

A IGNORÂNCIA

Para os profissionais de saúde que atenderam e atendem pacientes de aids já adoecidos a palavra preconceito não é uma vaga ideia. Tem cor, cheiro, tamanho, pequenas e grandes histórias de crueldade. O infectologista José Luiz de Andrade Neto – entre centenas de narrativas – lembra de uma passagem bastante simbólica: a de um paciente que atendeu em 1985. Morava na rua. Arrumaram-lhe um, lugar na Frei, em Campo Magro, uma espécie de casa de amparo. Mas havia um medo – o de que contaminasse as verduras que eram plantas no local e distribuídas às feiras. Deu trabalho convencer do contrário. Foi preciso tempo. "A aids é uma doença que tem de ser administrada", ensina.

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Trinta anos depois da primeira morte por AIDS, os primeiros médicos a tratar pacientes infectados no Paraná contam como foi enfrentar a doença ainda desconhecida. Os pacientes contaminados com o vírus tinham pouco tempo de vida.

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