
Ninguém deixa a cidade natal sem motivos e planejamento. Os grupos, principalmente de mineiros e nordestinos que moram atualmente em Curitiba, chegaram à capital paranaense porque outras pessoas indicaram a cidade como um bom lugar para trabalhar e ganhar dinheiro. A informação de economia aquecida corre rapidamente pelo país e, assim, começam a se formar as primeiras redes de migração neste caso, focadas em Curitiba e no boom imobiliário.
É a partir de histórias de sucesso entre os trabalhadores que, quem precisa de dinheiro, também decide arriscar viver em um novo lugar. Mineiros que já estão em Curitiba contaram que mais ônibus fretados estavam para chegar à cidade com trabalhadores. Quem organiza as "excursões" normalmente tem contato com as construtoras e acaba virando um empresário da contratação da mão de obra terceirizada. "Ele registra a carteira destes trabalhadores com um valor menor do que o combinado e paga o restante por fora. Os trabalhadores acabam ficando porque querem ganhar bem e não estão preocupados com o futuro", explica o procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) do Paraná Glaucio Araujo de Oliveira.
São justamente as redes de migração mal-organizadas que costumam explorar os trabalhadores a ponto de o MPT ter de autuar as construtoras (que respondem com as empreiteiras pelas contratações) e forçá-las a mandar os profissionais de volta à terra natal por estarem trabalhando como escravos.
O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Paraná (Sinduscom) afirma que as construtoras têm fiscalizado as empreiteiras para não haver esse tipo de abuso. O diretor do sindicato, Euclesio Manoel Finatti, discorda que haja um número grande de trabalhadores de fora, mas, por outro lado, explica que a construção civil é movida pela terceirização e seria impossível contratar todos os trabalhadores diretamente. "Não há como, até porque alguns profissionais atuam especificamente em um período, para colocar gesso, por exemplo."
É difícil voltar
Segundo o professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Oswaldo Mário Serra Truzzi, especialista em migrações, quem migra dificilmente afirma que nunca mais vai voltar. "Mas muitos acabam ficando porque percebem que a qualidade de vida é melhor nesta nova localidade. Além disso, são pessoas que têm uma compreensão boa da vida. Normalmente, eles têm uma estrutura econômica mínima que os permite migrar."
O nascimento das redes migratórias é algo que instiga pesquisadores. Segundo o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dimitri Fazito, do programa de pós-graduação em Demografia, as redes se configuram como tecidos sociais que nascem dentro de outras redes. "Começa o contato com alguém de fora por motivos diversos e, quando necessário, esse contato é retomado para ocorrer a migração [como uma indicação de emprego, por exemplo]."
O professor do Departamento de História da Unifesp Odair da Cruz Paiva lembra ainda que a rede só se configura como tal quando o indutor [o que atrai o migrante] não é perene. "Se há possibilidade de finalizar um trabalho e logo começar outro e mais outro, a malha da migração começa a se constituir." Paiva lembra que essa nova população também acarreta em mais demanda dos serviços públicos. Em São Paulo, por exemplo, as escolas públicas hoje enfrentam um grande problema: receberam alunos bolivianos que não falam português e nem espanhol, só sabem falar a língua indígena quechua.



