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O marido da Maria

Gerdt, o menino do dedo verde

Ele nasceu numa família luterana e era considerado "tardio". Muitos não entendiam por que colecionava tantas plantas. Na década de 1960, o segredo do botânico autodidata veio à tona

  • José Carlos Fernandes, com fotos de Ivonaldo Alexandre
 
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O estudante Ralf Kyrmse tinha imberbes 17 anos no dia em que recebeu sua primeira convocação para comparecer à sede do Exército Brasileiro da Rua Carlos Cavalcanti, onde hoje está o Solar do Barão. Não foi doido de amarelar, do que não se arrepende. Hoje, com as pernas bambas por outro motivo – o peso de seus 85 anos – Ralf ainda acha graça do que viu: 30 e tantos gurizotes como ele, cabeça baixa diante dos coturnos, recebendo um pito e a recomendação de que não mais escalassem a Serra do Mar, sob pena de ganharem temporada de férias no Ahú.

A trupe deve ter jurado nem mais olhar para o Pico Marumbi e chispou para a barra da saia da mãe, alguns ainda com balas Zequinha escapando das calças curtas. Passado o susto, restou se esborrachar de rir: todos os montanhistas mirins chamados a depor tinham sobrenomes com "agás", "is" e "tês" demais. Representavam um "perigo" à segurança nacional – lá de cima, a 1.810 metros de altura, onde gostavam de passear, poderiam mandar mensagens para Alemanha, Itália ou Japão, países com os quais o Brasil estava em guerra desde 22 de agosto daquele ano: 1942.

ASSISTA AO VÍDEO: Gerdt e Maria relembram histórias e contam momentos marcantes da vida do casal em uma conversa descontraída

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Do que se sabe, nenhum daqueles curitibanos decepcionou a pátria mãe gentil. Pelo contrário. Para citar dois, Ralf se tornou um prestigiado médico otorrino e escritor, além de um ser humano inspirador. Gerdt Guenther Hatschbach, um branquela de nariz grande, olhos muito azuis, voz abafada e peso-pena, tornou-se um botânico respeitado internacionalmente, com cerca de 80 mil coletas, sendo 500 novas espécies catalogadas. Várias delas foram encontradas na Mata Atlântica, aquela que nos verdes anos só podia visitar munido de passaporte.

"Ele era diferente da gente. Íamos à Serra nos divertir. O Gerdt sabia muito cedo o que queria da vida. Nós é que não entendíamos por que catava tanta planta", comenta outro primo do botânico, o ambientalista Henrique Schmidlin, 80, o Vitamina, seu companheiro de escalada. É provável que os pais do cientista aprendiz – Albino e Hedwig – também não soubessem para que "tanto matinho", assim como os manos Erbart e Erwin, os vizinhos e os conhecidos.

Creiam: o homem que emprestou seu sobrenome a mais de 200 espécies – e figura, com folga, entre os maiores coletores do planeta – era o que os antigos chamavam de "tardio". Sua carreira só ganhou rumo quando passava dos 40 anos, depois de fazer um bico no Passeio Público, em 1964: feito um piá cumprindo tarefas para a feira da escola, colocou plaquinhas ao pé das árvores acusando o nome vulgar e o científico.

O conhecimento sobrenatural daquele homem, dono então de 12,6 mil exsicatas – a planta já seca e arquivada –, chamou atenção do prefeito Ivo Arzua. Ele teria decidido ali dar início ao hoje Museu Botânico, cuja fama atrai pesquisadores dos quatro costados, atraídos pelos 370 mil itens do acervo. Para dar impulso a essa coleção, o pesquisador autodidata, formado num curso profissionalizante de Química Industrial, deixou um emprego modesto como vendedor de ferragens. Pediu a conta a seu patrão, o mano Erwin, e entrou para a História.

Florada na serra

Albino Hatschbach era um homem atípico na Curitiba da primeira metade do século 20. Embora nascido na comunidade luterana do Alto São Francisco, passou boa parte da infância e da juventude em Hamburgo, na Alemanha, de onde voltou um homem cosmopolita. O casamento com Hedwig, oriunda de uma família de ricos comerciantes de carne, os Garmatter, colaborou para que se tornasse um modelo de empreendedor.

Tornou-se dono de uma fábrica-loja de calçados – A Favorita, na Riachuelo – e de um casarão estilo normando na Carlos de Carvalho com a Francisco Rocha. Como de praxe aos ilustrados, tinha um hobby: colecionar orquídeas. Um dia levou o filho caçula, de 8-10 anos, para catar mudas na Serra do Mar. O resto dá para imaginar. Gerdt, o piá, passava tempo reunindo aranhas fede-fede. E reparou em toda aquela flora: podia se distrair ali o resto do século. Foi o que fez.

Calcula-se que quando tinha 12 anos – aquela idade em que os meninos sonhavam pilotar o dirigível Hindenburg – Gerdt já tinha em seus guardados 15 espécies desconhecidas, uma delas a Gert hatschbachii, gênero encontrado em Deodoro, Piraquara, no final da década de 1930.

Adolescente – idem: enquanto os garotos sonhavam com o mais belo espécime da época, a atriz e cientista austríaca Hedy Lamarr, o filho de Albino dava uma mão ao entomólogo padre Jesus Moure no Museu Paranaense. Ali, também gastava horas com o Clube de Ciências Gay Lussac. "A gente levava cem besouros e o padre ficava com dez para ele. Era o dízimo", gargalha, sobre seu padrinho no mundo do conhecimento.

Mas nada que enchesse de glórias o jovem Hatchsbach. Na Escola Belmiro César figurava entre os alunos medianos – tinha horror às aulas de Desenho Geométrico e uma vez foi mandado para fora da sala. Já as plantas, formavam pilhas gigantescas na garagem elegante da casa da Carlos de Carvalho. Uma parte, para sua tristeza, queimou durante a secagem, transformando em fumaça sua moedinha número 1, substituída em 1942 por uma nova descoberta, a Calyptocarpus biaristatus, colhida nas barrancas do Rio Barigui, onde está o parque.

As expedições da mocidade – ainda que apenas nas horas vadias – se davam em grande estilo, a bordo de um Fordeco Avant Garde placa 27-68, enguiçado, porém heroico, hoje mostrado com orgulho no álbum de fotografia e em todo e qualquer livro que trate de Gerdt Hatschbach. "Ele se vestia como aqueles malucos de filme, com capacete. Olhe o cara que eu fui arrumar", descreve a impagável Maria Magdaura, 76 anos, sua companheira há quase quatro décadas.

Reza a lenda que Gerdt escolhia os municípios menores e mais distantes para vender ferragens para seu irmão, atividade com a qual pagava as contas. A intenção era clara: quanto mais floresta à vista, mais chance de fisgar espécies novas depois do expediente. Foi assim que acabou em Palmital, Santa Catarina, provavelmente na década de 1940, onde entrou num armazém e caiu nas graças de uma Maria adolescente, sem estudos e brejeira. "Achei ele lindo. Fiquei espiando o loiro atrás da porta, né marido", diverte-se.

Anos depois, uma amiga a indicou para trabalhar com uma alemã de posses, em Curitiba. Era a tia de Gerdt, que a encaminhou para a cunhada Hedwig. É delicioso ouvir a esposa descrever o susto que passou ao rever o moçoilo que vendia traquitanas em Palmital. Quem conhece o casal, sabe a soma dessa coincidência. O botânico encontrara sem saber sua maior colaboradora. Mas demorou 20 anos para se dar conta disso. Ninguém é perfeito.

O namoro rolou às escondidas, com Hedwig fazendo de conta que não sabia. No leito de morte, na década de 1970, pediu que Maria cuidasse do cachorro Lompe e do filho solteirão, metido com as plantas e a essa altura finalmente empregado na prefeitura. Maria topou, claro. Casaram-se em 10 de junho de 1972, no Cartório de Garuva. Ele somava 49, ela 39. A lua de mel foi por lá mesmo, acompanhada de uma expedição pelas trilhas do litoral. Coletaram várias espécies. Foram felizes para sempre.

Fim da história

Em 1986, Gerdt recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Paraná. Aposentou-se no Museu Botânico em 1998, na função de técnico. É uma de suas únicas mágoas. Duas vezes por semana classifica plantas na sede, sempre em companhia de Maria. Há dois anos fez sua última expedição: foi à Serra do Cabral, em Minas Gerais. Trouxe 30 plantas novas para o herbário. Lembra disso com saudade.

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Crônica Malpighiaceae byrsonima Mariahttp://migre.me/16ldX

 

Ciencia amarabilis

O biólogo Osmar dos Santos Ribas, 49 anos, não é filho de Gerdt e Maria. Mas é como se fosse. Curador do museu fundado pelo cientista, hoje instalado no Jardim Botânico, ele se tornou uma espécie de reserva técnica sobre o decano, um sabe-tudo. Começou a viajar com Gerdt na adolescência e cedo se acostumou ao estilo do mestre: "Às seis da manhã ele acorda todo mundo. Nunca vi ninguém com um faro tão grande", diz o discípulo. Trabalho ainda hoje não lhe falta. O legado de Gerdt em quase oito décadas de dedicação à ciência é tamanho que ainda vai exigir muitas horas extras de Osmar. Além do herbário onde desembarcam 15 mil novas espécies por ano, é preciso mapear as inúmeras viagens do cientista. As expedições oficiais começaram na década de 60, a bordo de uma picape Willis. Outro capítulo a ser organizado é o das relações internacionais de Gerdt. Ele é nosso cidadão universal desde 1973, quando passou a fazer parte da The National Geographic Society. A partir daí, cientistas do mundo todo passaram a visitar Curitiba. A fonte para saber quem passou por aqui são os diários de Maria. Osmar jamais vai desprezá-los. Coisa de filho.

No dia 29/8 Os Stoklos. João e Jany, Dayse e Denise, João Luiz e Sérgio.

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