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Vera em sua casa na cidade de Primeiro de Maio: sobre saúde, sobre mulher, sobre a paixão. | Roberto Custódio
Vera em sua casa na cidade de Primeiro de Maio: sobre saúde, sobre mulher, sobre a paixão.| Foto: Roberto Custódio

Vera Maria Biscaia Vianna Baptista

Ela era uma mocinha da cidade quando conheceu Milton, médico idealista que queria viver no sertão. Iria com ele para qualquer lugar – inclusive à Vila Primeiro de Maio, onde não havia água, luz, correio. Depois do nascimento da sexta filha, Maria Ângela, Vera fez a sua Conquista do Norte. Nada lhe era estranho – abrir uma Apae, vender revistas Burda, arrumar um microscópio para promover exame de fezes. Há pouco mais de uma década, recolheu-se à escrita. Publicou Curitibanos dos Campos Gerais e tem prontos A Longa viagem perto de casa e Sangrim e Sanhaço – este sobre o homem por quem partiu.

Musas descalças

Esse perfil queria responder a duas perguntas: quem seria a mulher por trás das talentosas irmãs Vianna Baptista e como conseguiu formá-las tão bem, morando numa cidade pequena, longe de museus e de bibliotecas. São elas Anna Maria, designer de interiores; Maria Lúcia, arquiteta; Christine e Vera Regina, historiadoras; Josely, tradutora; Maria Ângela, artista plástica. Além da inteligência, as filhas de Vera e Milton são famosas pela beleza. As seis foram criadas como meninas do interior. "Dormiam em redes amarradas às árvores, ouvindo o canto dos passarinhos", resume a mãe. Comiam de tudo, tomavam mangueiradas para suportar o calor e brincavam com a vizinhança. Na década de 60, as mais velhas vieram para Curitiba e se tornaram internas no Colégio Sacre-Coeur, onde chegou a existir um alojamento só para as Vianna. Das mais novas, Josely teve de se mudar aos 12 anos. Não queria vir. Motivo: detestava usar sapatos. Eis uma informação saborosa para a biogra­fia de uma das mais respeitadas intelectuais brasileiras.

O pai de Vera Maria tinha asma. E a asma fez toda a diferença na vida de Vera Maria. Foi por causa da dificuldade respiratória do franzino José Júlio Fernandes Biscaia que em meados de 1946 ela desceu a Matinhos para uma temporada na casa do industrial Ivo Leão. O mormaço lhe faria bem. E como.Na praia, Vera conheceu Milton Vianna Baptista. Era um "tipo John Wayne", de tradicional família de madeireiros dos Campos Gerais e prestes a se formar em Medicina. Fizeram-se fotografar juntos no primeiro dia, por acaso o primeiro de todos os outros. Ela nem chegara aos 18 anos. Ele completara 25.

"Você sabe aquele negócio de pele?" pergunta a octogenária ao repórter, roçando os dedos sobre o braço. Pois é: em um mês os dois ficariam noivos; em dezembro de 1947 estariam casados, selando a crônica de amor que ajudou a construir uma cidade no Norte do Paraná: Primeiro de Maio.

Milton entendia que ser médico era sinônimo de se enfurnar pelo interior, ajudando os necessitados. Sua procura por um posto o levou longe. Em 1949, desembarca numa Londrina que brotava da mata fechada. A cidade tinha 15 anos. Muito velha para ele. Vai mais adiante, até Sertanópolis e depois à Vila Primeiro de Maio, a 70 quilômetros cravados, distrito de uma rua não mais. Seria ali.

Vera tem pedigree. É trineta de Cândido Lopes, intelectual que fundou a imprensa paranaense à frente do jornal Dezenove de Dezembro. Foi criada num sobrado da Rua Pedro Ivo, Centro de Curitiba, num tempo em que esse endereço pertencia aos graúdos. Frequentava o Country Club e fazia o tipo precoce. Com 16 anos tinha concluído o Normal no Instituto de Educação, o que exigiu adulterar documentos para trabalhar como professorinha na Escola de Aplicação. Dividia a sala com ninguém menos do que Dirce Guimarães, marco da alfabetização no estado.

Prometia. Mas depois dos ventos de Caiobá, não voltou nem para dar baixa na carteira de trabalho. A garota espanholada – uma Biscaia – queria um bom casamento, e todos lhe diziam que Milton pertencia à categoria "excepcional". "Eu não passava de uma dondoquinha que tinha estudado no colégio das freiras do Cajuru. Não sabia nada. Ele falava comigo de política, de ciência. Fez de mim uma mulher", declara a garota da qual pouco se ouviu falar – no clube e nas areias – depois daqueles idos de 1949, quando se mandou para o Norte. Mal sabiam.

Após comer um pastel de beira de estrada em Sertanópolis, o casal, mais a filha de colo, Anna Maria, seguiu num pé de bode rumo a Primeiro de Maio. Chegaram noite funda. Um café foi feito às escuras, com água cheia de barro, batizando os Baptistas na terra vermelha. Dali não sairiam nunca mais, por força de dois imperativos: tinham muito a fazer e acabaram por gostar daquela lonjura. Vera virou sangrim; Milton, sanhaço.

O sangrim é um passarinho vermelho que parece movido à eletricidade. O sanhaço é feito de um plácido azul – "da cor dos olhos de Milton", diz ela, que acaba de escrever um livro cujo título leva o nome das duas aves. Na obra, narra sua saga no vilarejo nortista, hoje com 11 mil habitantes e convertido em polo de turismo às margens da Represa do Capivara, no Rio Paranapanema.

Conta-se que quando começaram a se formar as águas do lago, o chão tremeu e o município esvaziou. Mas a debandada começara um pouco antes, com os sucessivos destemperos do clima, culminados na Geada Negra de 1975, aquela que devastou 850 milhões de pés de café e expulsou 2,5 milhões de paranaenses do campo.

É numa chácara diante da represa – onde mora com Milton, atrás de uma cerca vermelho-sangrim – que Vera puxa pela memória esses episódios e outros não registrados pela História. Depois de tragado o café da chegada, o doutor se mandou para as roças e ela cuidou das filhas. Foram seis em uma década: Anna Maria, Maria Lúcia, Christine, Vera Regina, Josely e Maria Ângela.

Depois da ninhada, a casa – então anexada ao Hospital e Maternidade São José – ficou pequena. "Pô, eu era a mulher do médico. Tinha de fazer alguma coisa...", eleva-se. Preparem-se para um sismo. Vera começou seu "arregaça mangas" pelo gerador de luz à manivela. Lembra-se de girá-la feito uma estivadora, durante uma cirurgia de emergência. A cada nova necessidade, algo nela se modificava, fazendo com que procurasse noções de enfermagem na Escola Catarina Labouré, administradora pelo Hospital São Camilo, sanitarista pelo Instituto Oswaldo cruz, assistente social pela Católica do Paraná e escritora para contar tudo isso.

Não esquece a ocasião em que a família leu o clássico Geografia da Fome, de Josué de Castro, fazendo da mortalidade infantil e da desnutrição o prato do dia. Foi à luta. Com amigos, arrumou um microscópio, aprendeu como realizar exame de fezes e comandou coletas nas escolas rurais. O material ia para caixinhas de fósforos, abertas num laboratório improvisado no terraço da casa dos Baptistas.

Terminada a empreitada, deu-se conta que a piazada andava de pé descalço, perpetuando as verminoses. O ritual de guerra se repetiu. Mandou-se para Londrina e de Londrina, de ônibus, até Curitiba, onde as autoridades sempre recebiam a filha dos Biscaia. Daquela vez pediu sapatos para as crianças e jovens de Primeiro de Maio. "Negra Vera, você está louca", disse-lhe um figurão. Os gestores da fábrica Alpargatas não acharam doida demais: mandaram-lhe um caminhão de tênis Bamba.

"Você sabe o que o mal de simioto?", questiona a bandeirante que aprendeu sobre sorinhos com Zilda Arns, que brigou com padres, que abriu um Clube de Mães, um Mobral, promoveu sessões de cinema no sertão. E que vendia revista Burda.

Nenhum feito, contudo, a comove mais do que a criação, em 1967, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. "Eu encontrava criança amarrada em corrente..." A sede foi erguida num terreno dado pelo marido. Ela chora ao lembrar o gesto. Ele desconversa. "Quando doei, estava internado na Santa Casa de Curitiba, lembra? Acho que foi delírio". Riem juntos. "Esse é meu namorado", desmancha-se.

Milton voou por fora dessa reportagem. Um sanhaço. O casal serviu café caboclo, falou dos 13 netos, das filhas talentosas e ofereceu abacates. "São do quintal..."

A quem interessar possa, o hospital foi fechado em 1992. Milton atende "apenas uns japoneses que me chamam no portão". O médico corta toda a grama da chácara num trator e não gosta que lhe perguntem a idade.

Ao se levantar pela manhã, a primeira coisa que Vera faz é abrir os e-mails. O "veralist" é uma comunidade. De resto, senta-se à poltrona, tendo a paisagem da represa ao fundo. É de direito. Aquele pedaço de fim de mundo lhe pertence.

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