Os dólares ganhos no exterior estão em todos os setores da economia local, como nas plantações de tomate e feijão | Henry Milléo/ Gazeta do Povo
Os dólares ganhos no exterior estão em todos os setores da economia local, como nas plantações de tomate e feijão| Foto: Henry Milléo/ Gazeta do Povo

Percalços

Acidentes e indenizações

Não há estatísticas oficiais, porque a maioria dos imigrantes não tem documentos de permanência nos Estados Unidos, mas muitos morreram ao despencar de pontes e prédios. Em 2008, por exemplo, Celso Palamar, de Reserva, morreu num acidente de trabalho na Benjamin Harrison Memorial Bridge, no estado da Virgínia. Esse é só um entre tantos casos envolvendo brasileiros naquele país.

Os acidentes de trabalho se repetem com uma frequência espantosa e quem sobrevive carrega sequelas. As indenizações, quando convertidas em moeda brasileira, passam fácil da casa dos milhões. Há escritórios de advocacia nos EUA especializados em defender "indocumentados" vítimas de acidentes de trabalho. A Justiça americana sentencia e quem paga a conta são as seguradoras.

No final da década de 90, Luiz Fabiano Cunha, de Reserva, quase ficou tetraplégico ao cair de uma ponte em Nova York. Ele processou a empreiteira e foi indenizado. Reginaldo Tonelli, de Bauru (SP), caiu dentro de um tanque de óleo vazio em Albany, capital do estado de Nova York. Foi indenizado. Este ano, o curitibano Lupércio Rocha, 42 anos, também sofreu acidente e aguarda decisão da Justiça sobre ação que move contra a empresa.

Sorte construída nas alturas

Rômulo Ferreira da Costa passou uma década pendurado em pontes e prédios de Nova York. Aos 44 anos, contabiliza os bens: uma casa de R$ 500 mil em Reserva, dois apartamentos de R$ 100 mil em Ponta Grossa, um carro e uma loja de cosméticos. Trabalhava 12 horas por dia e duas vezes por se­­mana tinha de virar a noite para dar conta do serviço. No inverno, enfrentava no alto da ponte um frio de 8 graus negativos.

Atraído por histórias de sucesso, desde os 18 anos Rômulo quis igual sorte na América. Como não conseguiu visto, buscou as vias ilegais. Pagou US$ 2 mil a um coyote, que ajudaria a cruzar a fronteira mexicana. Pego pela imigração americana, foi enviado ao México. Dois dias depois, fez a travessia noturna pelo deserto. Deu certo. Saiu de Tijuana e chegou à Califór­­nia. Ali, comprou passagem até Newark, vizinha de Nova York.

Tinha à época 28 anos e passaria os próximos dez pintando pontes e restaurando prédios antigos. Não falava inglês, mas logo se en­­turmou com a "máfia de Reserva", como eram conhecidos os imigrantes do Paraná. Os empreiteiros sabiam: se precisassem de alguém para o pior dos serviços, podiam contar com os de Reserva. Rômulo trabalhou feito louco, juntou dinheiro e voltou ao Brasil. Passado um ano, retornou.

Na segunda vez, entrou cruzando a nado um dos estreitos do Rio Bravo, na fronteira do México com o Texas. Os três primeiros anos foram ainda como pintor, mas nos dois seguintes ele trabalhou na entrega de materiais de escritório. Há três anos no Brasil, pensa em arriscar outra vez. (MK)

  • De volta ao Paraná, Carlos e Ana Cláudia Lopata construíram um centro de compras com 24 lojas e montaram uma empresa de terraplanagem
  • Rômulo da Costa investiu o que ganhou em imóveis e numa loja de cosméticos

Um inusitado fenômeno migratório mudou o perfil econômico de Reserva, município de 25 mil habitantes na região Centro Oriental do Paraná (180 km de Curitiba). A fuga do marasmo co­­meçou na década de 1960. As no­­tícias do sucesso daqueles que fo­­ram "fazer a América" ferveram os ânimos e logo Reserva experimentou uma evasão humana sem precedentes. No início dos anos 2000, a cidade perdeu de uma só vez 15% da população à época. Três mil reservenses estavam espalhados nos costados de Nova York. Seria um problema, se não fossem os dólares.

Clandestinos, os reservenses faziam o trabalho do qual os ame­­ricanos se esquivam. Ganha­­vam bem, pendurados com tinta e pincéis em pontes e prédios. Entre 2000 e 2005, enviaram US$ 1 milhão por mês aos parentes em Reserva, resultado de jornadas de até 18 horas diárias em subempregos e atividades de risco às quais muitos não sobreviveram. Hoje, os dólares ganhos à custa de suor e lágrimas estão em todos os setores da economia local: no shopping, na construção civil, nas fazendas de gado e tomate, nas lojas de roupas, móveis e cosméticos, nas madeireiras.

Localizada num arquipélago na foz do Rio Hudson, Nova York ocupa toda a ilha de Manhattan. A ligação entre distritos e o continente se dá pelas pontes. Qua­­renta, entre médias e grandes. Cen­­tenárias, elas exigem cuidados frequentes. Avessos a trabalhos braçais, os americanos deixam o serviço perigoso para imigrantes. Foi assim, pendurados entre jatos, areia e latas de tinta, a 30 ou 40 metros do chão, que muitos paranaenses de Re­­serva fizeram fortuna, ou pelo menos garantiram uma vida tranquila na volta para casa. Mesmo os que ficaram não têm do que se queixar.

A receita corrente líquida de Reserva é de R$ 35 milhões, o dobro de cinco anos atrás. O prefeito Frederico Bittencourt Hor­­nung atribui a melhora econômica a três fatores: o crescimento da população, o aumento dos recursos federais e os investimentos dos que foram trabalhar nos Estados Unidos. O número de reservenses em terras ianques caiu. O sonho da América não é mais tão atrativo, a começar pelo dólar baixo. Ainda assim, calcula-se algo em torno de 1,5 mil pessoas por lá. Elas tomaram o espaço dos mineiros de Go­­ver­­nador Valadares na pintura de prédios e pontes.

Os reflexos dos que estão lá ou já voltaram serão sentidos por muito tempo ainda. Os ianques de Reserva ajudaram a valorizar a cidade, avalia o presidente da Câmara de Vereadores, Orlei dos Santos Ferreira. Um terreno padrão de 450 m² na avenida prin­­cipal não sai por menos de R$ 600 mil. Para ele, outro referencial de que as coisas estão melhorando é a instalação de agências bancárias: são cinco, com mais uma por vir. Há oito anos havia só duas. E banco, todos sabem, não se arrisca onde não há dinheiro circulante. Pon­­to para os ianques.

A cidade está em alta. O prefeito fala com certo orgulho da fila de 14 empreendedores à es­­pera de terreno no município para instalar madeireira, uma vocação econômica da cidade. Cada um desses imóveis custa ao poder público R$ 200 mil em benfeitorias, por isso nem sempre dá para conceder mais de dois por ano. O retorno para o município, diz Hornung, vem por meio da geração de empregos e do recolhimento de impostos. Até médicos estão fincando raízes, o que não é muito comum em cidades pequenas.

Tudo isso, reconhece o prefeito, se deve em grande medida ao dinheiro trazido dos Estados Unidos. Os dólares estão presentes na produção de tomate de Mi­­ro Setti, na ótica de João Lo­­pes, na loja de cosméticos de Rô­­mulo Ferreira da Costa, no shopping de Ivo Carlos e Ana Cláu­­dia Lopata, na Lanchonete do Pe­­lego, na construtora de Za­­queu Gomes, além de fazendas de gado e madeireiras. A economia de Reserva está coalhada de exemplos de pessoas que foram, fizeram a América e voltaram para dar o exemplo de que é possível se dar bem na vida trabalhando. Ainda que clandestinamente.

Com dinheiro, família abriu shopping no Brasil

Ivo Carlos Lopata, o Carlinhos, foi aos Estados Unidos pela primeira vez em 1988. Ele tinha 18 anos e, mesmo com visto de turista, trabalhou por lá 18 meses. Jun­­tou dinheiro e voltou para Reserva. Tocou a vida, casou, teve dois filhos e se tornou cerealista, com uma frota de sete caminhões. Aí veio uma chuvarada e destruiu suas plantações. Não bastasse isso, levou um calotes dos compradores. A saída, pensou Carlinhos, estava na América. E lá foi ele outra vez.

Em 1997, entrou nos Estados Unidos com visto de turista, mas não pôde fazer o mesmo pe­­la mulher, Ana Cláu­­dia. Re­­tornou em um ano com o dinheiro do trabalho na construção civil e como motorista de caminhão. Não deu para pagar todos os credores e ele deixou o Brasil pela terceira vez. Depois, mandou dinheiro para a mulher ir com os dois filhos, de 7 e 9 anos. Em 2000, Ana Cláu­­dia e as crianças enfrentaram todos os riscos inerentes a uma travessia clandestina pela fronteira com o México.

Car­­linhos trabalhava como operário da construção civil e Ana Cláudia fazia as vezes de babysitter, cuidando de até 12 crianças ao mesmo tempo. A ca­­sa que conseguiram comprar virou uma grande creche. Estavam ilegais, mas levavam uma vida boa, com viagens à Disney, a cassinos e parques temáticos. E ainda mandavam dinheiro para os parentes quitarem as dívidas pendentes.

Carlinhos ganhava até US$ 110 mil por ano, numa época em que o dólar valia quase R$ 4. Apesar da ascensão, Ana Cláudia havia mi­­grado com a ideia fixa de não ficar por lá mais do que cinco anos. As­­sim, voltou em 2005 com os filhos. Carlinhos ficou para vender as três casas do casal no entorno de Nova York. De volta a Reserva, começaram a aplicar os dólares. Con­­cluíram há três anos o único shopping da cidade, com 24 lojas, e montaram uma empresa de terraplanagem.

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