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Demografia

Lar sem filho muda o perfil de família

Em 20 anos, dobrou o porcentual de brasileiros casados sem filhos. No país, eles representam 13,7% dos domicílios; no Paraná, 14,5%

  • PorAnderson Gonçalves, especial para a Gazeta do Povo
  • 21/12/2011 21:04
Nos últimos 20 anos aumentou o número de casais sem filhos. Confira no gráfico |
Nos últimos 20 anos aumentou o número de casais sem filhos. Confira no gráfico| Foto:

Tendência é de envelhecimento da população

Com o aumento no número de casais sem filhos, o Brasil caminha para o envelhecimento de sua população ao longo dos anos. Essa tendência já havia sido observada entre 1991 e 2010, quando as pessoas com 65 anos ou mais passaram de 4,8% para 7,4% da população total. Com os casais tendo menos filhos, esse processo tende a se acentuar ainda mais.

A avaliação é do pesquisador do IBGE José Eustáquio Diniz Alves, que atenta para a queda na taxa de fecundidade verificada no país. "Se há uma queda na fecundidade, reduz-se a base da pirâmide. Com isso, alarga-se o topo, que é onde está a população mais velha", explica. O município de Santa Lúcia, que tem o maior porcentual de casais sem filhos no Paraná, é um exemplo dessa tendência.

Entre 2000 e 2010, a cidade viu reduzir em 17% a faixa de habitantes abaixo dos 34 anos, ao mesmo tempo que cresceu em 27,5% a dos que têm mais de 55 anos. O índice de idosos também está acima da média estadual. Para cada 100 habitantes com menos de 15 anos, existem na cidade 47 acima dos 65 anos.

Casais com crianças perdem espaço

Apesar de o Brasil ter ganho 9 milhões de domicílios entre 2000 e 2010, a quantidade de casais com filhos sofreu redução de 1,6%, de 23,9 milhões para 23,5 milhões. No Paraná essa diminuição foi de 3,2%. Eram 1,48 milhão e hoje são 1,43 milhão.

Para a psicanalista Rosa Ma­­riotto, a preocupação dos novos casais não se limita apenas ao aspecto financeiro, mas também ao processo de criação. "Ao mesmo tempo que há um ganho, também existe um investimento grande para se ter um filho. É preciso renunciar a muitas coisas. E as pessoas estão vivendo o hoje, para elas o importante é aproveitar ao máximo o aqui e o agora."

Em Santa Lúcia, a empresária Michelle Aparecido Pretto é casada há quatro anos com Almir Riffatti. Ter um filho segue nos planos do casal, mas para isso será preciso superar alguns empecilhos à maternidade. "Meu marido viaja muito a trabalho e passa a semana longe de casa. Estamos esperando que ele consiga passar mais tempo comigo, para acompanhar a gravidez e poder ficar perto do filho depois."

Santa Lúcia, o lugar de poucos rebentos

Quando os moradores de Santa Lúcia, no Oeste do Paraná, recebem a informação de que o município possui o segundo maior porcentual de casais sem filhos entre todas as cidades paranaenses, a reação é de espanto. Mas bastam alguns minutos de conversa para que eles puxem pela memória os nomes de vários conhecidos que estão nessa situação. O que se percebe na cidade não é uma indisposição para ter filhos, mas um cuidado para planejar melhor a gestação, mesmo que para isso seja necessário aguardar alguns anos.

Leia a matéria completa

  • Larissa se mudou para Curitiba para estudar na UFPR. Os pais ficaram em Apucarana, mas aceitaram a decisão da filha
  • Casados há 8 anos, Raquel e Marcelo adiaram por mais um ano os planos de ter um filho

Aquela emblemática cena de família em que pais e filhos se reúnem em torno da mesa está ficando cada vez mais rara. Nos últimos 20 anos, os lares brasileiros vêm ganhando uma nova feição. As grandes e numerosas famílias estão saindo de cena e dando lugar aos chamados "ninhos vazios", domicílios onde residem apenas casais sem filhos, e que hoje são 13,7% dos domicílios brasileiros e 14,5% dos paranaenses.

O fenômeno resulta da com­­bi­nação de mudanças na mater­­­ni­da­de (muitos casais esperam mais tempo para ter filhos, ou excluem a gestação de seus planos) e na evolução da educação e da renda, que permitem a muitos jovens sairem de casa para estudar e trabalhar.

Os números do Censo do Insti­­tuto Brasileiro de Geografia e Esta­­tística (IBGE) indicam que a quantidade de casais sem filhos vem crescendo em um ritmo maior do que a formação de novos lares. Entre 1991 e 2010, o porcentual de casais que passaram a viver sem filhos aumentou 92,4% em todo o Brasil, enquanto o total de domicílios foi incrementado em pouco mais da metade desse porcentual, 52,8%. No Paraná o crescimento foi menor, mas nem por isso menos representativo. O estado ganhou mais de 200 mil casais sem filhos, um incremento de 82,6%.

Em muitos dos lares contabilizados pelo IBGE, a presença solitária do casal não é exatamente uma opção. Filha única, Larissa Marti­­nez Papa chegou a Curitiba em 2009, vindo de Apucarana, na Região Norte do estado, e deixou os pais vivendo sozinhos no interior. Na capital, onde divide apartamento com duas amigas, cursa Engenharia Elétrica na Universida­­de Federal do Paraná (UFPR). "Sem­­pre quis estudar na [Universi­­dade] Federal. Em Apucarana não há muitas opções de cursos superiores", justifica a jovem, que pretende permanecer na cidade depois de formada. Ela visita os pais periodicamente. "Eles não gostaram muito da ideia de eu morar longe, mas entenderam a minha decisão."

O caso de Larissa ilustra uma situação recorrente em municípios menores. Com menos oportunidades estudantis e profissionais, muitos jovens se deslocam para cidades maiores, deixando os pais sozinhos. Os números do Censo apontam que, à medida que au­­menta a faixa populacional, diminui a incidência de casais sem fi­­lhos. Os municípios com até 5 mil habitantes concentram o maior porcentual, de 25,3% dos núcleos familiares (domicílios habitados por mais de uma pessoa), enquanto naqueles de 100 mil a 500 mil moradores, esse índice é de 21,1%.

Modelo familiar

Demógrafo e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio Diniz Al­­ves observa que, por terem menos filhos e uma expectativa de vida maior, os pais de hoje se veem mo­­rando sozinhos mais cedo. O que chama mais a atenção, contudo, é a quantidade de casais que optam por não ter filhos. "Antes o homem trabalhava e a mulher fica­­va em casa. Hoje há um novo modelo familiar, em que os dois estão no mercado de trabalho. Muitos preferem priorizar a carreira, viajar e acabam não tendo filhos."

Esse novo modelo passa por uma revisão nos valores da família, conforme aponta a psicanalista Rosa Maria Mariotto, professora de Psicologia da Pontifícia Uni­­versidade Católica do Paraná (PUC-PR). "O lugar da mulher se modificou muito. Hoje ela não se realiza apenas com o sonho de ser mãe, mas pela via do trabalho e da carreira profissional. Esse novo lugar faz com que a maternidade seja adiada ou até mesmo excluída da vida conjugal."

O projeto Retratos Paraná, iniciado em 26 de setembro, traz reportagens sobre aspectos sociais e econômicos de diversas cidades do estado. Confira todo o conteúdo e um banco de dados on-line em www.gazetadopovo.com.br/retratosparana

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