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Estrada de ferro e de esquecimento

Jovens pesquisadores mapeiam paisagem ferroviária em Curitiba e apontam caminhos para a preservação da história fabril. Material deve pautar novas políticas de patrimônio

Trecho da Serra do Mar: paisagem tombada não inclui mobiliário da RFFSA | Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
Trecho da Serra do Mar: paisagem tombada não inclui mobiliário da RFFSA (Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)
Edifício Teixeira Soares no Centro de Curitiba: pequeno trecho protegido |

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Edifício Teixeira Soares no Centro de Curitiba: pequeno trecho protegido

O cartorário João Lazzarotto, 78 anos, nasceu e cresceu à beira da linha do trem, no bairro do Cajuru. Seu pai era ferroviário. E seu irmão – o célebre ilustrador Poty Lazzarotto –, fez dos trilhos e dos vagões presença constante nas obras que criou. Com tanta intimidade, Joãozinho, como costuma ser chamado, volta e meia se refere à estrada como a "ferrovia das galinhas".

Não deve ser o único a soltar essa anedota. Em Curitiba e algumas cidades da região metropolitana, a linha do trem passava nos quintais, chacoalhava os varais e marcou o imaginário da petizada tanto quanto as Balas Zequinha. Para reforçar, não raro alguém da família trabalhava na Rede Ferroviária Federal – a RFFSA – o que fazia dos vagões e maquinistas um assunto para os cafés com cuque.

Os tempos, claro, são outros. Da RFFSA resta um emblema apagado nas fachadas dos prédios da Rua João Negrão. Para os mais moços é, com sorte, o tema de uma música engraçada de Kleiton e Kledir. Os trens ainda estão por aí, mas cruzam a cidade transportando carga, trepidando muros, fazendo apitaços e levando os motoristas à loucura. Nas janelinhas, acenando, não há moçoilas de chapéu. Parte da poesia do trem, diga-se, ficou na saudade.

Por essas e outras, tem-se como favas contadas a retirada dos trilhos do ramal que leva a Rio Branco do Sul, o mais problemático. Mas corre-se o risco de que o sumiço desse endereço do passado só sirva para dar lugar à desmedida coleção de automóveis da cidade. Poucas galinhas fujonas dos Lazzarotto sobreviveriam a essa mudança.

Os prédios de administração ferroviária, vilinhas de operários, pontes e estações da Rede – tal como os trilhos – gozam do mesmo desprestígio. De modo que depois dos prédios das indústrias Matarazzo e da fábrica do Matte Leão – para citar dois conjuntos da paisagem fabril da região prestes a virar fumaça – não é alarmismo afirmar que a paisagem ferroviária se aproxima do fim.

A situação tira o sono de especialistas e militantes do patrimônio. Muitos, vale lembrar, fizeram da questão uma espécie de culto secreto, uma religião das catacumbas, na qual conspiram para salvar o que resta da cultura da estrada de ferro. Nesse momento, alguém deve estar fotografando uma estação na Serra do Mar ou um chalé da Vila Oficinas, apegado, talvez, à memória dos antepassados ou à simpatia que os trens teimam em despertar.

Foi mais ou menos o que aconteceu a um grupo de seis jovens pesquisadores que no último ano se dedicaram, literalmente, a andar pelas linhas férreas da capital. Eles venceram um edital da Fundação Cultural de Curitiba, no valor de R$ 60 mil, para estudar a paisagem ferroviária. Produziram um livro e um site – a serem lançados – e, como se dizia, "descobriram a América".

"Você conhece um trecho de rua com casas de operários, na Engenheiros Rebouças, altura do Estádio Durival de Brito?", pergunta o fotógrafo Leco de Souza, um dos participantes, repetindo uma conversa recorrente entre os participantes do projeto "Pelos Trilhos". Eles são pura novidade. As sobras da RFFSA não eram o maior interesse do grupo, mas, via de regra, todos estavam ocupados de questões urbanas. Agora se rendem à "era paralelepípeda" e se tornam referência no assunto.

Além de Leco, participaram do levantamento as antropólogas Dayana Zdebsky de Cordova – coordenadora da pesquisa – e Aline Iubel; os arquitetos Gabriel Gallarza e Maria Baptista, e o historiador Fabiano Stoiev. A média de idade da trupe é 27 anos. À primeira vista, mapear um cenário antigo da cidade pode até parecer uma aventura de mocidade. Mas o fato é que trabalhos como esses – financiados e, portanto, capazes de atrair profissionais gabaritados – vêm sendo apontados como uma saída para o túnel em que se meteu o patrimônio.

A explicação é simples. As políticas de preservação no Brasil são frutos do nacionalismo dos anos 30 e carregam tantas contradições quanto a época que as viu nascer. Não é difícil imaginar que, apesar de mentes brilhantes como a de Mário de Andrade terem contribuído para a questão, ela se desenvolveu de maneira torta: consegue ser paternalista e mal subsidiada ao mesmo tempo. "Acostumou-se a achar que só o extraordinário deveria ser preservado", observa a pesquisadora da USP Manoela Rossinetti Rufinoni, especializada na paisagem fabril de São Paulo.

Além de só contemplar casarões e palacetes, essas políticas se pautaram por ter passos bêbados. Quando os órgãos oficiais se encantavam com um período histórico, fatalmente ele já se encontrava a caminho dos infernos, sobrando uns poucos endereços para cuidar. É o destino, por exemplo, da arquitetura moderna de Curitiba, vítima da fragilíssima política de preservação da prefeitura.

Editais, como o vencido por Dayana e seus parceiros, podem reverter essa tendência. Com documentação sólida e convincente, é mais fácil ultrapassar a velocidade com que se destrói o patrimônio e convencer os gestores a andarem mais rápido. Houvesse um estudo sobre a arquitetura fabril da erva-mate, quem sabe, Curitiba teria encontrado uma solução menos bárbara para suas fábricas do Rebouças.

A experiência da dupla de arquitetos do projeto aponta para a eficácia dos mapeamentos. Maria Baptista e Gabriel Gallarza identificaran nada menos do que 295 pontos da cidade em que a paisagem ferroviária dá o ar da graça em edificações, áreas verdes, cruzamentos viários, panorâmicas ou rastros. "A gente observa e descobre que uma chave de trilho tem um atalho que leva a uma fábrica", comenta a antropóloga Aline Iubel, sobre as surpresas de encruzilhadas do Cajuru e do Capanema, atalhos para histórias inimaginadas para a maioria.

Em paralelo às informações específicas, Maria, Gabriel, Aline e os demais já podem arriscar diagnósticos. "O que me interessou foram as áreas verdes ao longo do trilho. Virou uma reserva", comenta Maria, sobre um aspecto que tende a ser a maior contribuição do projeto "Pelos Trilhos": além de quantificar o patrimônio ferroviário e de documentá-lo, a pesquisa mostra, nas entrelinhas, como a ferrovia marcou a dinâmica da cidade e a salvou de si mesma. Ignorar essa informação é como chutar a capital na espinha.

O saldo dessas descobertas não poderia ser mais positivo. À revelia dos investidores imobiliários, empresários e gestores públicos – que menosprezam a memória do mundo do trabalho – a produção do grupo aponta a relação afetiva dos curitibanos com a linha do trem. A Rede sumiu, mas não a sua importância na ordenação da cidade. A relação, claro, é de amor e ódio. O transporte de carga fez com que linha virasse um corpo estranho, sem interferência positiva na rotina dos curitibanos. "Hoje, a linha não está integrando a malha urbana. É poética, mas também defasada", observa Dayana. "Perdeu-se o vínculo", acrescenta o historiador Fabiano.

O fato é que sem resolver essa equação entre afeto e utilidade, vai ser muito difícil que alguma política de preservação salve a paisagem ferroviária. Ela se mantém em pé porque é usada – ainda que por uns poucos. Mas tende a beijar a lona se não for integrada à rotina da capital. O assunto apaixona e divide o sexteto de pesquisadores. Deve contaminar outros jovens como eles. A paisagem ferroviária de Curitiba, enfim, se encontrou com o futuro.

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