
Rio de Janeiro - Difícil encontrar quem não tenha uma história de tragédia e dor para contar na região serrana do Rio de Janeiro. Ontem, em Teresópolis, vários sobreviventes se concentraram em frente ao Instituto Médico Legal (IML) em busca de informações de familiares. "Eu fiquei atolada debaixo da terra e ouvia meu filho gritar: Mãe, cadê você?", contou Andréia Ferreira de Campos, que perdeu oito familiares, entre eles os filhos dela. Ela foi uma das primeiras a fazer o reconhecimento ontem no IML de Teresópolis. O órgão, que tem capacidade para receber seis corpos, entrou em colapso. As fotos dos rostos dos mortos são mostradas pelos peritos a quem busca informações. Só entram no prédio os parentes que reconheceram vítimas por meio das fotografias. Outro prédio, em frente à delegacia, teve de ser requisitado para receber corpos.
O comerciante Weimar Jaccoud, 57 anos, lamentava a morte do sobrinho Pedro Júlio Brantes Folly, que tinha 10 anos. "Ele foi passar o fim de semana na casa da avó, que também morreu. Eles estão juntos ali", aponta Jaccoud, segurando o choro. O comerciante aguarda mais um pouco e recebe as duas vias das declarações de óbito. "Preciso entregar para o pessoal que faz o enterro."
Moradora do bairro de Bonsucesso, Isabel Cristina Batista Ferreira, de 40 anos, perdeu uma filha de 5 anos. Ela conta que estava com as três filhas uma de 17 anos e duas de 5 e, por volta das 2h, foi pega de surpresa pela enxurrada. "A água começou a entrar em casa devagar. De uma hora para outra, subiu até o teto. Meu pai jogou uma das gêmeas para o telhado e me segurou pelo braço. As outras duas ficaram dentro da casa ate a água baixar. Não durou nem cinco minutos. Mas a menorzinha não resistiu", desabafou, enquanto esperava a liberação do corpo.
Entre os rostos inconsoláveis, estava também Mozair Gonçalves, de 44 anos. Morador do bairro de Campo Grande, ele perdeu a mulher e um filho de 13 anos. Seu vizinho José Luiz dos Santos Barbosa diz que o cenário no bairro era de terror. "Nunca imaginei que pudesse acontecer isso ali. A mata nativa desceu toda, com paus, pedra, com tudo. Eu e uns amigos ainda salvamos muita gente, mas também encontramos muita gente morta."
Rose Mari Barbosa Silva, de 43 anos, perdeu cinco pessoas de sua família que também moravam no bairro Campo Grande. Ela disse que não imaginava que a tragédia fosse tão grande. Rose Mari mora no bairro Perdigueiro e ontem caminhava na lama em busca de notícias. "Perdi minha mãe, minha filha, meu cunhado e dois sobrinhos. Não sei como vou recomeçar a vida sem eles. Mesmo não morando no local da tragédia, vi toda a minha vida e minha família indo pela lama."
O casal Marilza dos Santos Fisher e Jean Carlos Delfino Afonso, ambos com 38 anos, se preparava para casar amanhã a filha primogênita, Aline, de 20 anos. Dois dias antes da festa programada, eles viveram uma realidade diferente e bastante dura: enterraram no cemitério municipal de Teresópolis o corpo de Aline e de dois outros filhos, Cíntia, de 17 anos, e Jean, de 9. "Agora é pedir a Deus para nos fortalecer. Ficamos eu e a esposa. Casa e carro, trabalhando conseguiremos de novo. Mas como vou ter meus filhos de volta?", questionava Jean.
Depoimentos
"Eu e uns amigos ainda salvamos muita gente, mas também encontramos muita gente morta."
Mozair Gonçalves, de 44 anos
"A água começou a entrar em casa devagar. De uma hora para outra, subiu até o teto. Meu pai jogou uma das gêmeas para o telhado e me segurou pelo braço. As outras duas ficaram dentro da casa ate a água baixar. Não durou nem cinco minutos. Mas a menorzinha não resistiu."
Isabel Cristina Batista Ferreira, de 40 anos
"Perdi minha mãe, minha filha, meu cunhado e dois sobrinhos. Não sei como vou recomeçar a vida sem eles. Mesmo não morando no local da tragédia, vi toda a minha vida e minha família indo pela lama."
Rose Mari Barbosa Silva, de 43 anos
"Estávamos sem água, luz e os celulares não tinham sinal. Os caseiros contaram que os quatro cães e o cavalo estavam mortos. Não havia mais estrada. Pedi que todos se vestissem e colocassem o essencial em uma mochila. Decidi deixar o lugar a pé."
Médico Paulo Mora, de 39 anos




