Das 17 faculdades de Curitiba e região metropolitana que o Ministério Público Federal vai investigar, as menores e as mais novas são as que mais preocupam os procuradores. Tradição, estrutura e corpo docente qualificado concorrem a favor das instituições já entradas em anos, assim como bons resultados no "medidor" o exame da ordem. A OAB atualmente se furta de dizer que instituição teve melhor desempenho, para não criar um ranking. Mas esse pódio é quase um senso comum, tendo a UFPR no primeiro degrau. Às demais, resta fazer das tripas coração para encontrar seu espaço numa maratona de resultados nem sempre justos.
A expectativa é de que na investigação a procuradoria encontre algo mais do que menos mestres ou doutores do que o combinado, laboratórios modestos ou má-fé das direções entre outros itens que são apontados como responsáveis pelos resultados sofríveis nos concursos e afins. Na varredura deve emergir uma Curitiba que corre pelas bordas e avança na oferta de ensino superior em locais como Campo Largo, Pinhais, Araucária e São José dos Pinhais, não mais cidades-dormitórios, como apontou pesquisa recente publicada pela Gazeta do Povo.
A economista Vivian Maria Luczyszyn, 29 anos, faz parte dessa nova categoria de universitários da região metropolitana. Ela não precisa enfrentar vias rápidas e terminais de ônibus para estudar, como fez nos anos em que cursou a FAE, em Curitiba. "Estou achando ótimo. Além do mais, prestigio uma faculdade da minha cidade", festeja a acadêmica do sexto período de Direito da Faculdade Educacional de Araucária (Facear), instituição que ainda não formou sua primeira turma de advogados.
Por ser uma novata no mercado, a Facear trata o exame de ordem como uma questão de estado. Se em 2008 seus alunos não tiverem um bom desempenho na prova da OAB, pode encontrar dificuldades de manter por perto candidatos como Vivian. "A prova é comentada desde que a gente entra. É um bicho-de-sete-cabeças. Já tentei um simulado", comenta a jovem.
Murilo Martins de Andrade, 33 anos, diretor-geral da Facear, apóia a investigação do Ministério Público Federal e soma sua preocupação à bonança que parece ter se tornado o estudo do Direito. "Muitos buscam ascensão social. Tivemos de adotar linha dura. Tem escola que faz cursinho no último ano para o exame da ordem e abandona as disciplinas", comenta. Resultado: pedidos de transferência para outras instituições. Hoje, a faculdade de Araucária que tem 17 cursos trabalha com 500 futuros advogados e nutre as mesmas preocupações das grandes: mercado transbordando, falta crônica de postos de trabalho e a dúvida que consome alunos e professores: vale a pena fazer faculdade numa sociedade sem empregos?
A pergunta, garante Murilo, ali é bastante freqüente. Até porque o alunato não poderia ser mais eclético: uma veterana de 74 anos, comerciantes de Araucária, vizinhos de Fazenda Rio Grande e da Lapa, curitibanos do Portão e da CIC, para quem a cidade é mais próxima que o Centro. Em São José dos Pinhais, na Faculdade Metropolitana de Curitiba, os 400 estudantes de Direito vivem situação parecida. Estão em média acima de 23 anos, já cursaram outras faculdades, estudam à noite e sabem que vão ter de lanhar os cotovelos para dar conta do recado.
"Não ter bom desempenho no exame da ordem coloca um selo nas faculdades", comenta o administrador em gestão universitária Christian Frederico Brendt, 31 anos, diretor institucional da Famec. Por conta da pressão, assegura o profissional, o cuidado tem sido o de não trabalhar em função da prova da OAB, o que seria contraproducente. Os alunos nem sempre conseguem dar conta da tarefa. Maria Renata Setti de Pauli, 44 anos, há dois formada pela UniBrasil, sabia que não faria o curso com os pés nas costas. Inscreveu-se na Escola do Ministério Público de olho em algum concurso e foi para o exame de ordem com o mesmo medo que a maioria. "Cada ano está mais difícil", diz. Passou raspando. E para sua surpresa, teve nota maior numa prova da Magistratura. Coisas do Direito.



