
As tragédias que se repetem a cada verão no Brasil poderiam ser evitadas se o país estivesse organizado na prevenção e resposta imediata aos desastres. Não falta tecnologia para prever as grandes chuvas que causam enchentes e deslizamentos. As imagens usadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) principal órgão do gênero no país , por exemplo, são obtidas de um satélite norte-americano, também usado pelos meteorologistas de lá para as previsões. O Inmet chegou a enviar um alerta com a previsão de fortes chuvas no Rio de Janeiro para a Defesa Social Nacional, que o repassou ao órgão carioca, mas o aviso foi ignorado. Segundo especialistas, o Brasil tem de consolidar um sistema eficaz para se precaver dos desastres e evitar mortes.
O Inmet envia rotineiramente para a Defesa Civil Nacional avisos e alertas. A mensagem é depois encaminhada para a respectiva defesa civil, que deve tomar as providências localmente. Isso porque cada município deveria ter um Plano Diretor Municipal de Defesa Civil, mapeando pontos com maior risco para a população e alternativas. Além de haver prevenção é preciso ter preparação para os desastres, com emissão de alertas, locais de abrigo, logística para alimentos e remédios, etc.
O envio de alertas do Inmet atinge todo o país. Além da sede em Brasília, há subcentros regionais em diversos pontos do país, que analisam as mudanças do tempo. O aviso pode ser emitido com até 72 horas de antecedência, mas, normalmente, ocorre com 48 horas. Segundo Hamilton Carvalho, meteorologista do Inmet, o órgão manda mensagem sobre qualquer fenômeno de maior gravidade, mas não tem competência para dizer o que deve ser feito, ficando esta missão a cargos das defesas civis. "O Brasil está avançado na tecnologia de previsão. Faltam pessoas especializadas nos níveis municipais e estaduais para assimilar os eventos e tomar as providências", diz. A previsão do tempo é baseada em três fontes de dados: imagens de satélite, balões e estações meteorológicas.
Armin Braun, chefe do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, ligado à Defesa Civil Nacional, afirma que somente este ano foram recebidos 14 alertas do Inmet. Apesar da importância da previsão, ele lembra que não há precisão. No alarme sobre o Rio de Janeiro, a mensagem apontava chuvas fortes na região serrana, mas sem especificar quais municípios ou bairros. A partir do recebimento, cada defesa civil decide como agir e analisa se avisa ou não a população. Depois das tragédias, o órgão estadual fica responsável pela intervenção direta no local com ações de busca, salvamento e resgate , enquanto o nacional mobiliza recursos e cuida da logística.
Para o geólogo Renato Lima, diretor do Centro de Apoio Científico em Desastres da Universidade Federal do Paraná (UFPR), há possibilidade de prever onde podem ocorrer processos perigosos e até a magnitude e frequência. Para isso é preciso analisar não só os fatores causados pelo clima, mas também pelos fatores geológicos e aqueles causados pelo homem.
Os municípios deveriam ter mapeado os locais passíveis de alagamentos, desmoronamentos ou deslizamentos e evitar a ocupação humana nesses espaços. "Não há como proteger a sociedade sem estudos adequados. É preciso aperfeiçoar nosso sistema de preparação e conhecer os processos perigosos localmente. Para isso são necessárias ações políticas de longo prazo sem mudança a cada governo", diz. O resultado da falta de preparação coloca o Brasil como um dos 10 países com mais vítimas de desastres naturais.
Repercussão
Os principais jornais e redes de tevê do mundo deram destaque à tragédia do Rio:
New York Times
Número de mortes aumenta em deslizamentos de terra no Brasil
O jornal norte-americano informa que há expectativa de mais corpos enquanto os sobreviventes fazem buscas entre lama e entulho
CNN
Centenas de mortos, milhares em perigo em enchentes brasileiras
Página da emissora na internet diz que famílias que vivem às margens de rios enfrentam "extremo risco" de serem varridas pelas enxurradas
BBC
Levantamento de mortos em enchente brasileira chega a 370
A Tevê britânica destaca a tragédia na região serrana de Nova Friburgo e Teresópolis
The Independent
Centenas de mortos em enchentes e deslizamentos de terra no Brasil
Diário britânico diz que sobreviventes relembram hoje os horrores de assistir suas casas serem tragadas por água e lama
The Guardian
Centenas de mortos e mil desaparecidos em deslizamentos no RJ
Reportagem do jornal inglês se refere ao episódio como "um dos deslizamentos mais mortais da história brasileira
El País
Dilma Rousseff visita as cidades arrasadas pelas enchentes no país
Jornal espanhol narra primeira saída da presidente de Brasília desde a posse por conta da tragédia
The Telegraph
Enchentes brasileiras: mortos passam de 370
Correspondente do jornal britânico em São Paulo relata carros, animais e pessoas carregadas pelas águas
Le Monde
Brasil: 355 mortos após chuvas torrenciais
Publicação francesa descreve "uma calamidade dentro da cidade de Teresópolis



