Ana (nome fictício) experimentou drogas pela primeira vez aos 16 anos. Usou maconha junto com uma amiga. Aos 19 anos teve um namorado que cheirava cocaína e tomava ecstasy e passou a utilizar essas substâncias também. O namoro acabou, mas o gosto pelas festas raves e as drogas "de elite", não. Hoje com 22 anos ela está terminando um curso superior em Curitiba e diz que diminuiu o uso, mas no ano-novo consumiu LSD, cocaína e maconha.
Há dois anos a jovem foi passar uma temporada na Europa e trouxe na bagagem, entre outras coisas, uma vodca de maconha. "As pessoas usam muita droga na Europa. Aqui um ecstasy chega a custar R$ 50 em uma festa, lá eles faziam três por 10 libras (cerca de R$ 33)". A cocaína, a maconha e o LSD também eram mais baratos.
A universitária diz que as festas europeias são regadas a drogas e álcool. "Eram baladas nervosas, dava até medo de andar sozinha. Ficava todo mundo transtornado. Mas foram as melhoras festas em que eu já fui na minha vida." Em Londres, ela experimentou outras drogas quase desconhecidas aqui no país, como a MD, um derivado do ecstasy em forma de pó, ingerido com água. No Brasil, ela diz que quem comprava as substâncias eram amigos de amigos e que eram sempre adquiridas grandes quantidades.
A experiência de Ana com as drogas está no centro de um debate entre especialistas e policiais. Todos tentam explicar por que esse tipo de droga vem ganhando espaço no mercado brasileiro e como deter a proliferação.
O delegado chefe da Divisão Estadual de Narcóticos de Curitiba (Denarc), Rodrigo Brown, diz que há dois tipos básicos de traficantes da classe média. O primeiro tipo é aquele que se arrisca e vai até favelas buscar a droga e o outro fica em faculdades e consegue a droga para o restante dos colegas. "Essas pessoas frequentam bons colégios, boas faculdades, boates da moda, possuem carros do ano, boa aparência, praticam esportes e acham que por causa disso não estão colaborando com o tráfico de drogas", aponta o delegado.
Brown afirma que muitas vezes o tráfico não é a principal fonte de renda desses jovens e que isso contribui para o fato de eles não se acharem traficantes. "A partir do momento que ele fez uma atividade ilícita, para nós não há diferença entre ele e o cara que anda de fuzil comandando o narcotráfico. O efeito social é o mesmo. Só muda o público alvo." Para o delegado, não há justificativa para esse tipo de ação, como falta de oportunidade. "Eles possuem pai e mãe, estrutura. Estão nessa por malandragem, conveniência, poder, status e facilidade de adquirir drogas."
O delegado explica que o tráfico dessas substâncias é o chamado "formiguinha". Pessoas vão para a Europa com cocaína e voltam com as drogas sintéticas. "Para fazer esse tipo de trabalho, o sujeito precisa ser bem articulado. Quem é que consegue fazer contato em vários países da Europa e Estados Unidos em várias línguas? Não é qualquer um." Ano passado um universitário foi preso em Curitiba produzindo anfetaminas. O caso foi considerado inédito pelos policiais. Também em 2008, em uma única operação do Denarc foram apreendidos 3 mil comprimidos de ecstasy. (PC)



