
Peru, presente, panetone e Papai Noel. Eis a receita do Natal. E se um ou outro item anda ameaçado por causa da crise econômica mundial, a figura do bom velhinho permanece inabalável. Ele é obrigatório nos cenários natalinos espalhados pela cidade e garante boa parte da magia que a festa exige. E o mercado anda aquecido: há tronos disponíveis por aí afora.
Quem garante é a promotora de eventos Carmen Arrata, da agência VCT, de Curitiba. Ela é responsável pela contratação de papais noéis de pelo menos sete shoppings no país: três em Curitiba Mueller, Curitiba e Estação , o São José Shopping, em São José dos Pinhais; o Floripa Shopping, em Santa Catarina; o Rio Sul, na capital fluminense, e um em Porto Alegre. Em cada um deles, dois bons velhinhos se revezam para cobrir o turno de 12 horas de funcionamento. Encontrar um senhor de barbas e cabelo brancos ainda que em tempos de recordes de longevidade é uma missão árdua para Carmen. "Já cheguei a parar o carro na rua para recrutar um candidato em potencial. Ele topou o trabalho e neste ano vai ficar novamente com a gente", conta.
A correria tem justificativa. Não é fácil achar alguém com o perfil adequado para suportar com alegria e simpatia os turnos diários da maratona no fim do ano, principalmente em shoppings, onde as temporadas variam de 40 a 60 dias. É dura a vida de Papai Noel. Sorriso no rosto, carinho sincero e muita paciência para ouvir pedidos das crianças, encomendas das mães, trocar balinhas por chupetas e mamadeiras e até a choradeira de quem tem medo do velhinho roliço fantasiado.
Além de criteriosas na escolha dos personagens, as agências que organizam os papais noéis também assumem toda a logística da permanência deles nos shoppings. São montadas infra-estruturas especiais para não correr o risco de quebrar o encanto. Trocas de turno são discretas e os momentos de folga e lanches são feitos em locais reservados, longe do público. "Preparamos um camarim especial para eles", explica Carmen.
Outra orientação é esconder a roupa direitinho, e despistar os mais espertinhos que, por acaso, possam reconhecê-lo nos corredores na hora de ir embora. "É proibido falar ho-ho-ho sem estar com a fantasia. O sujeito precisa representar o papel, assumir a função", ensina o fotógrafo Alberto Ricardo Monteiro, dono de um estúdio de fotografia que há 18 anos recruta o Papai Noel do Shopping Catuaí, em Londrina, e, pelo segundo ano, é responsável também pelo velhinho do Park Shopping Barigüi, em Curitiba.
Filão
Ocupar o trono do Papai Noel é um filão de mercado e nem é preciso ser necessariamente velhinho para isso. Há papais noéis jovens, com menos de 50 anos. Mas, por via das dúvidas, Carmen faz entrevistas e pede exames médicos para liberar para a atividade. O salário de um Papai Noel de shopping varia de R$ 3 a R$ 8 mil pela temporada, dependendo da experiência e desempenho. Parte do rendimento da agência é obtida com as fotografias vendidas aos visitantes. Isso não impede que os pais providenciem os próprios registros.
A gerente de marketing do Shopping Crystal, Lílian Vargas, sentiu na pele a dificuldade para encontrar um Papai Noel que se adequasse ao perfil ideal. E a missão tinha um pesar extra, já que o senhor Valmir, que ocupou o trono do Crystal nas últimas três temporadas, faleceu em janeiro deste ano. Sem optar pelo trabalho das agências, a equipe do shopping saiu em busca do substituto. Árdua tarefa. "Nem sempre a aparência combina com a simpatia do candidato", conta. Por indicações, chegou ao analista de sistemas Marcelo Rodrigues, de 45 anos. Papai Noel voluntário há oito anos, Rodrigues esbanja carisma e encarou o desafio como uma extensão do trabalho que desenvolve em ações sociais com crianças carentes. "Só que desta vez vou ganhar para isso", brinca.



