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Conflito

Herdeiros dos “pretos” aguardam decisão

Basta fazer seus visitantes sentarem e começar a falar das terras em que morou na infância para a aposentada Virgínia de Castro Cândido, 76 anos, cair, inevitavelmente, no choro. Virgínia é uma das bisnetas de Carolina Maria de Souza, morta em 1916, e cujo inventário motiva a disputa entre as empresas de reflorestamento e o grego Ioannidis.

Carolina teria herdado a Fazenda Arroio Claro, entre Sengés e Doutor Ulysses, do pai, João Alves de Souza, um tropeiro que passava pela região e virou fazendeiro. Em 1947, o pai de Virgínia, Raimundo Rodrigues de Castro, chegou a abrir o processo de inventário da avó. Sem dinheiro para pagar os advogados e as custas, o processo estacionou na Vara Cível de Jaguariaíva.

Os descendentes, porém, continuaram a morar na área, vivendo de pequenas plantações e criação de animais. "Era a fazenda dos pretos, como chamavam. A gente puxou a cor do nosso bisavô [Feliciano Pereira Guimarães] que era escravo e negro e casou com a Carolina", diz a aposentada.

Sem documentos legais que comprovassem a propriedade da localidade e fornecessem os reais limites da fazenda, os descendentes passaram a sofrer com a presença de grileiros e jagunços em busca de terras. "Essa era a política de ocupação incentivada pelo governo estadual, que queria as madeireiras na região", explica Oraílson Pereira da Silva, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sengés.

"As coisas eram resolvidas na bala. Botavam fogo nas casas, assustavam mulheres e crianças", diz Lonas Teixeira de Souza, primo em terceiro grau de Virgínia e que também morava nas imediações da fazenda.

As constantes ameaças fizeram com que os "pretos" fossem saindo gradativamente das antigas terras, que ganharam novas escrituras e donos. O inventário só saiu das gavetas do tabelionato de Jaguariaíva em 2002. Ioannidis reuniu 32 dos herdeiros e assinou um contrato de compra em que pagaria R$ 2 milhões para serem divididos entre os cessionários. O empresário saiu com a escritura em mãos, mas ninguém teria recebido o dinheiro. "Eu mesmo espero até hoje o grego vir me pagar", diz Lonas. O empresário admite não ter pago, mas diz que isso será feito quando assumir as terras.

Alertada pelo filho, o pastor evangélico Jair Cândido, Virgínia foi uma das poucas herdeiras que não assinou o contrato. "Nunca vendi nada e nunca recebi nada pelo que era nosso", diz Virgínia. De posse dos documentos que provam o parentesco de Virgínia com Carolina, o advogado Paulo Manoel do Nascimento já pediu à Vara Cível de Jaguariaíva a anulação do processo de venda da escritura. Ele sabe o que representa atuar no caso. "Saindo do Ioannidis, caímos no colo das madeireiras", diz. As oito empresas que exploram o corte de pinus na área e o empresário grego contam, cada um a seu lado, com um arsenal de documentos, comprovantes e títulos de posse. (GV)

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