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Cidadania

História apagada nas letras ilegíveis da velha certidão

Leonardo e o agente social Ari Goelzer: quase um século no anonimato | Valterci Santos/Gazeta do Povo
Leonardo e o agente social Ari Goelzer: quase um século no anonimato (Foto: Valterci Santos/Gazeta do Povo)

Osvaldo Barbosa nasceu em 6 de maio de 1935. Ao tentar a aposentadoria, há oito anos, buscou a segunda via da certidão de nascimento e descobriu que o escrivão da época não a lançou no livro de nascimentos, tirando-lhe o valor legal. Sua história estava se apagando igual às letras ilegíveis do documento original, que já havia sido usado para fazer identidade, CPF, carteira de trabalho, título de eleitor. Não fosse a tentativa de se aposentar, nunca descobriria o erro. "Aí que eu descobri que não existia", diz. Há oito anos ele tenta provar o contrário, juntou documentos, levou a papelada ao cartório, levou amigos como testemunhas à Justiça para confirmar que é quem diz ser, mas sempre esbarrou na burocracia.

A esperança de se aposentar havia se esgotado quando o patrão surge com a notícia do Programa Paraná em Ação, a chance de consertar o erro de 73 anos atrás, época em que Campo Magro, onde fica o cartório, era distrito de Almirante Tamandaré, na região metropolitana de Curitiba. Agora, a esperança está na Defensoria Pública do estado, que toca a documentação. Caseiro, jardineiro e guardião, mora sozinho numa edícula nos fundos da casa do patrão, no Bom Retiro, em Curitiba. Nunca se casou, mas viveu "acompanhado" por seis vezes. Numa dessas uniões nasceu um filho, hoje com 30 anos e devidamente documentado.

A condição de Osvaldo virou gozação entre os amigos de boteco, "a firma", como ele diz, pois ali um avisa o outro quando surge um bico para ganhar uns trocados. "E aí, cara, já tá existindo?", pergunta um. "Ainda não", responde ele. O estudo parou no primário, mas é o suficiente para se defender. "Não me dobram fácil, não", garante. Ele só não consegue entender por que uma pessoa que vota nas eleições, tem dinheiro no banco e uma carteira de trabalho assinada desde os 14 anos ainda precisa provar que existe. Ainda criança teve de parar de estudar para ajudar em casa, mesmo destino dos cinco irmãos menores e dois maiores do que ele.

Vicente

Diosmira Cardoso teve 20 filhos, só sete vingaram. A vida em Piedade, vilarejo a 53 quilômetros do primeiro sinal de urbanização, fazia de tudo um luxo inacessível. Nesses cafundós de Rio Branco do Sul, à época mero distrito de Almirante Tamandaré, a prole dos Cardoso foi se virando como podia. E podia muito pouco. Sobreviver já era muita coisa diante das condições precárias que levaram dois terços dos irmãos. Certa vez, Diosmira pegou o rumo do hospital, a pé, levando nos braços um recém-nascido. No meio do caminho, lá pelos 25 quilômetros, se deu conta de que estava morto. "Deu uma tosse e não vortô mais, arroxô tudo", conta. Fez meia-volta ali mesmo, e a criança foi enterrada sem registro de nascimento, como as demais.

Em Piedade era assim, tudo isolado, duas casas antes e duas depois do rio. A escola ficava longe e a necessidade de capinar a roça para ter o que comer era maior. Seis deles ensaiaram algumas letras, mas nada que os fizesse ir além de apenas riscar o nome. De todos, quem mais perdeu foi Vanderlei. Ele sobrou na hora de juntar a gurizada para fazer o registro de nascimento de todos a uma só vez. Vanderlei e Joel ficaram de fora por terem passado dos 12 anos, o que exigiria autorização judicial. Diosmira, analfabeta, já com 59, não lembra quem foi a boa alma que ajudou a registrar os filhos, mas lamenta não ter incluído todos.

Joel tirou o documento aos 17, para poder trabalhar, mas Vanderlei só agora, aos 42, deu entrada na papelada para o registro de nascimento. Foi pelas mãos da assistente social Marlei Aparecida Maffra que ele chegou ao Programa Paraná em Ação, há um mês, em Curitiba. Agora é questão de dias para ter em mãos o documento que comprova sua existência. A inclusão definitiva no mundo dos existentes já permite fazer planos. Um emprego, quem sabe, para não continuar dependente das terras dos outros, como toda a família. Antes, porém, vai ser preciso aprender a escrever o nome. Digital não combina com uma certidão novinha em folha. (MK)

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