Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Estados Unidos

História há muito esquecida

Historiador sai em busca de tesouros literalmente perdidos na confusão do dia a dia

Martin Luther King em Washington: local da morte em Nova Iorque não está sinalizado | AFP
Martin Luther King em Washington: local da morte em Nova Iorque não está sinalizado (Foto: AFP)

Nova Iorque - Na Avenida das Américas, localizada no coração da cidade de Nova Iorque, se localiza a quadra onde foi realizada a primeira ligação via telefone celular, em 1973; na Rua West 125th, onde se localizava a loja de departamentos Blumstein, nada indica o lugar onde Martin Luther King Jr. foi esfaqueado em 1958. Existe também na Quinta Avenida o local exato onde, em 1931, Winston Churchill, ao furar o sinal, foi atingido por outro veículo e quase morreu.

E o que dizer do velho Winter Garden Theater localizado no número 691 da Broadway? Em 1864, durante a mesma noite em que os simpatizantes confederados decidiram, no edifício vizinho, Hotel Lafarge, prosseguir com o plano de incendiar Nova Iorque, os irmãos Booth (John Wilkes, Junius Brutus Jr. e Edwin) estrearam na peça Júlio César. O desempenho da trupe conseguiu angariar 3,5 mil dólares para a compra da estátua de Shakespeare que permanece, até os dias de hoje, onde foi instalada, no Central Park. (Mais tarde, John Wilkes se tornaria o assassino do presidente Abraham Lincoln.)

Andrew Carroll, 39, um historiador amador, embarca nesta semana em uma viagem pelos 50 estados norte-americanos para tentar descobrir, imortalizar e preservar estes e outros locais onde a história aconteceu por acaso e que, qualquer seja a razão, foram esquecidos ou ficaram no anonimato.

"É como garimpar ao contrário, tentando achar algo que não está ali", comentou o historiador. Sua campanha sem fins lucrativos Here is Where (Aqui é Onde, em inglês), que conta com o apoio da revista National Geographic Traveler, pode parecer um tanto quanto quixotesca, mas assim também foram duas iniciativas dele que se provaram imensamente populares.

Em 1993, época em que estudava Inglês na Universidade Colúmbia, ele fundou o Projeto de Estudo e Poesia Americana juntamente com Joseph Brodsky, premiado poeta norte-americano. Os dois distribuíram gratuitamente livros de poesia por todo o território dos EUA. Cinco anos depois, Carroll lançou o Projeto Legacy (warletters.com), uma espécie de espaço para colecionar cartas e e-mails enviados pelos soldados aos seus familiares durante os períodos de guerra.

A mais nova cruzada do historiador (www.HereIsWhere.org) surgiu inspirada em uma história que leu há quinze anos sobre o resgate dramático que ocorreu no início do mandato de Abraham Lincoln como presidente. O filho de Lincoln, Robert Todd Lincoln, estava prestes a embarcar em um vagão-dormitório em Exchange Place, na cidade de Jersey, na noite em que caiu no vão entre o trem e a plataforma no momento em que o trem começava a se movimentar.

"O colarinho do meu casaco foi agarrado com firmeza e eu fui rapidamente puxado e arrastado para uma parte segura da plataforma. Quando virei para agradecer meu salvador vi que ele era Edwin Booth, cujo rosto conhecia bem. Expressei minha gratidão a ele e o chamei pelo nome", relembrou Robert Lincoln, alguns anos depois do incidente.

Carroll espera conseguir colocar um marco no lugar, hoje uma estação da PATH (Autoridade Portuária das cidades de Nova Iorque e New Jersey).

"Grandes histórias atraem a nós todos, e, dessa forma, cada história faz um comercial de si mesma. Se a história for contada de forma corriqueira, as pessoas não irão prestar atenção. Quanto mais fizermos da História uma matéria em que se decoram nomes e lugares, mais difícil será repassá-la às próximas gerações. Esses grandes eventos históricos revelam algumas das verdades universais da natureza humana e da brutalidade, heroísmo e resistência da humanidade. Para cada John Wilkes Booth existe um Edwin", comentou o historiador.

A cidade de Nova Iorque está repleta de lugares históricos desconhecidos pelos próprios habitantes. Kalustyan’s, o mercado de comida indiana localizado na Lexington Avenue, é o único prédio da cidade ainda em pé em que um presidente dos EUA fez juramento. Em 20 de setembro de 1881, o vice-presidente Chester A. Arthur fez o juramento em sua residência após a morte do presidente James A. Garfield, vítima de um ferimento à bala. Uma pequena placa no vestíbulo trancado que dá acesso aos andares superiores do edifício é o único indício que ali ocorreu algo histórico.

A cruzada de Carroll o levará a Fairfield, no estado de Connecticut, a casa de Ely Parker, um advogado norte-americano indígena que trabalhou com o Gal. Ulysses S. Grant e foi o responsável por esboçar os artigos do termo de rendição que Robert E. Lee assinou em Appomattox.

Já em Baltimore, Carroll almeja visitar o local onde ficava o estabelecimento onde Mary Katherine Goddard imprimiu a primeira cópia da Declaração da Independência que incluía todas as assinaturas.

Carroll também descobriu que hotéis podem ter muitas histórias para contar. Ele descobriu que Ho Chi MInh e Malcom X já trabalharam no Parker House, em Boston.

"O que Andy está fazendo é sensacional. Ele levantou a fina pele da História para expor aos americanos que o local onde moram e os locais para onde viajam estão repletos de fatos históricos que sequer imaginavam", comentou Keith Bellows, o editor da National Geographic Traveler.

Carroll inicia sua expedição pelos 50 estados norte-americanos com uma viagem ao estado do Maine, onde irá explorar os locais onde, em 1855, ocorreu a Revolta do Rum contra Neal S. Dow, o prefeito proibicionista de Portland.

"A viagem é apenas o pontapé inicial. Vou fazer disto a minha vida", finalizou Carroll, que viaja com o adiantamento dos direitos de publicação de seu livro.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.