| Valter Campanato/ABr
| Foto: Valter Campanato/ABr

Há 24 anos, o Congresso brasileiro discutia intensamente os rumos do governo do então presidente Fernando Collor de Mello. Brasília, tal qual nos dias de hoje, fervia politicamente. Em meio ao processo que resultou na cassação do mandato de Collor, em 1992, figuravam pelo menos 45 personagens – a maioria deputados federais – que duas décadas depois permanecem, de uma forma ou de outra, protagonistas na cena política brasileira, exercendo influência no atual processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff.

INFOGRÁFICO: confira alguns dos protagonistas políticos que continuam na ativa desde a era Collor

Maioria dos deputados paranaenses votou pelo impeachment de Collor

Leia a matéria completa

Algumas dessas “figurinhas repetidas”, porém, mudaram drasticamente de posição; outras, em ambas as situações, continuam opositoras ao governo. Teve quem mudou de cargo ou função; muitos deles, de partidos. Mesmo passado tanto tempo, o cenário indica como o futuro da atual presidente e do Brasil ainda depende de alguns políticos “veteranos” da era Collor.

5 Curiosidades

De estudante a senador, parlamentar grávida e deputado decano. Veja algumas curiosidades entre as figurinhas repetidas do impeachment:

1 Lindbergh Faria, hoje senador pelo PT, foi protagonistas dos protestos contra o governo Collor. Então presidente da União Nacional dos Estudantes, ele era um dos líderes do movimento “Caras Pintadas” que exigiu o impeachment do presidente.

2 Benito Gama (PTB) presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou as denúncias contra Fernando Collor. O deputado foi eleito em 1986 pelo PFL e já estava em seu segundo mandato na Câmara Federal.

3 Jutahy Júnior (PSDB) é o deputado federal que está na Casa há mais tempo. O tucano entrou na Câmara em 1983 e só ficou fora de uma legislatura – de 1995 a 1999.

4 Jandira Feghali (PC do B), em 1992, estava em seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados. Grávida, ela votou favoravelmente ao afastamento de Collor.

5 Jair Bolsonaro (PSC), cotado como candidato à Presidência da República em 2018, já era deputado federal e votou pelo impeachment do ex-presidente Collor. Ele era parlamentar pelo extinto PDC.

Bye, bye Fernandinho

Então estreante na Câmara federal, o deputado Jaques Wagner (PT) foi um dos ferrenhos opositores do Planalto em 1992 e agora está do outro lado do “front” político. Até poucas semanas atrás, ocupava o ministério mais importante do governo Dilma, a Casa Civil, e é um dos petistas mais próximos da presidente. Nos anos 90, Wagner chegou a terminar um discurso prevendo o resultado da votação do impedimento de Collor com as palavras “bye, bye, Fernandinho”.

Ronaldo Caiado (DEM) é outro que está em situação completamente oposta à que viveu duas décadas atrás. Ele foi um dos 38 deputados fiéis a Collor durante a votação do impeachment e hoje, como senador, é um dos líderes da oposição que defendem a saída de Dilma. O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Pauderney Avelino, vive realidade distinta. Então deputado pelo PDS, atual PP, ele acatou a denúncia contra Collor e, em 2016, também é um dos principais nomes que reverberam posição pelo afastamento de Dilma.

Figurinhas premiadas

Mas nem sempre as figurinhas carimbadas da política ocupam cargos eletivos. Personagem central no processo atual de impeachment, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) não tinha mandato eletivo na década de 90, mas cultivava boas relações com o “impeachmado” Collor. Cunha seria um dos principais captadores de dinheiro da campanha do ex-presidente. Depois de eleito, Collor “presenteou” o colega com a presidência da Telerj, a antiga companhia telefônica do estado do Rio de Janeiro.

Outra figura importante no atual processo é o jurista Hélio Bicudo. Mesmo, em tese, fora da cena política, ele é um dos responsáveis pela elaboração do pedido de impedimento de Dilma, aceito por Eduardo Cunha. Voltando ao passado, porém, verifica-se que Bicudo ocupava uma cadeira de deputado federal pelo PT quando Collor perdeu a batalha na Câmara. Como atesta o cientista político Bruno Bolognesi, mudar de posição política faz parte do jogo. “É natural à medida que se muda o adversário”, constata.

27 deputados votarão “duas vezes” pelo impeachment

Dos quase 45 políticos que continuam exercendo protagonismo no cenário atual, 27 deputados federais votarão em um processo de impeachment presidencial pela segunda vez. Dois deles, Nelson Marquezelli (PTB) e Átila Lins (PSD), têm um passado diferente dos demais – foram os únicos a votar contra o impeachment de Fernando Collor. Os demais se posicionaram a favor do afastamento do ex-presidente. Agora, 24 anos depois, Marquezelli e Lins devem pela primeira vez dizer “sim” ao impedimento de um presidente do Brasil.

Se não fosse o número de parlamentares licenciados ou que são suplentes e, temporariamente, perderão a vaga na Câmara, o número de deputados federais que votariam pela segunda vez um impeachment seria 33. No entanto, quatro dos deputados eleitos para o período que culminou com o impedimento do Collor não votaram – um não se posicionou, dois estavam licenciados e um havia renunciado (veja infográfico).

Além disso, dois parlamentares que estavam no processo de afastamento em 1992 hoje são suplentes – Mendes Thame (PV) e Roberto Freire (PPS) – e cederão suas cadeiras para que os titulares votem no processo contra Dilma.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]