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Pioneira

Índia advogada comove plenário

Primeira indígena a atuar no STF, Joênia Carvalho defendeu a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol

Joênia Batista Carvalho, ao lado do ministro da Justiça, Tarso Genro: primeira advogada de origem indígena teve de passar por preconceitos para concluir curso | Elza Fiuza/ABr
Joênia Batista Carvalho, ao lado do ministro da Justiça, Tarso Genro: primeira advogada de origem indígena teve de passar por preconceitos para concluir curso (Foto: Elza Fiuza/ABr)

Brasília - No meio de dezenas de índios que mudaram ontem a rotina do STF, uma representante da etnia wapixana teve a participação mais comovente do primeiro dia de julgamento da delimitação da reserva Raposa Serra do Sol. Primeira advogada índia do país, Joênia Batista Carvalho fez a defesa da permanência da demarcação contínua da área. "Nossa vida é nossa terra", disse, no idioma de sua tribo, perante os ministros da Suprema Corte.

Com poucas e objetivas palavras, explicou que a casa dos índios que vivem na região não é limitada por paredes. "Nossas plantações, a água, tudo está ligado aos nossos valores, à nossa espiritualidade. Tentei deixar isso claro", disse em entrevista

Aos 34 anos, Joênia integra o Conselho Indígena de Rondônia. Após a apresentação em plenário, ela contou que sofreu todo tipo de preconceito até conseguir se formar, em 1997, pela Universidade Federal de Roraima (UFRR).

A índia foi a quinta colocada no vestibular, que ainda não tinha o sistema de cotas para negros e índios. Para seguir o sonho, teve de deixar a família, no Nordeste do estado, para viver na capital, Boa Vista. "Não tinha dinheiro e trabalhei em todo tipo de emprego. Fui secretária em uma distribuidora e, todos os dias, meu chefe me dizia que eu não tinha condições de estudar Direito, que eu ficaria muito para trás dos meus colegas."

Joênia conta que deu aulas particulares e sofreu até passar em um concurso e virar servidora da UFRR. Reiterou que não se sentiu pressionada ou teve receio de falar perante a Suprema Corte brasileira.

Segundo ela, a força vem da espiritualidade e do conceito da causa que defende. "Estou com os meus pajés, estou protegida. Falo com o meu coração, de coisas que eu vejo e penso."

A índia refutou os argumentos de que as tribos de Roraima não signifiquem um segmento importante para a economia local – tanto ou até mais do que os arrozeiros que querem a demarcação de "ilhas" na reserva. Os índios correspondem atualmente a mais da metade da população rural do estado.

Comoção

O presidente da Fundação Nacional do Índio, Márcio Meira, disse ter ficado comovido com a inédita atuação de Joênia. "É uma representante indígena fazendo a defesa do seu povo, algo que emociona."

Logo após a primeira parte do julgamento, pela manhã, o ministro da Advocacia-Geral da União, José Dias Toffoli, afirmou que muitos ministros também haviam sido sensibilizados. "Eles não vieram com a cabeça feita e foi perceptível nos olhares que as argumentações serviram para provocar mudanças de opinião."

Toffoli é um dos principais defensores da demarcação contínua da área e contrapôs declarações do governador de Roraima, José Anchieta Júnior (PSDB). Para o tucano, a retirada dos produtores de arroz causará danos econômicos imediatos para o estado e não conta com apoio da maioria das tribos.

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