
As investigações da queda do Airbus A-330 da Air France devem levar quatro anos ou mais. A afirmação é do perito Roberto Peterka, especialista em prevenção e investigação de acidentes aéreos. A estimativa foi feita a partir da analogia com o acidente de 1996 do Boeing 747 da companhia norte-americana TWA, que também caiu no mar.
Peterka, militar da reserva da Aeronáutica e nomeado pela Justiça para investigar o acidente do Boeing 737 da Gol com o jato Legacy em setembro de 2006, afirma haver tecnologia suficiente para encontrar as caixas-pretas em alto-mar. Mas, se isso não ocorrer, há como encontrar as causas do acidente a partir da avaliação dos destroços. Leia abaixo a entrevista do perito.
Já há como apontar algum indício da causa do acidente com o avião da Air France?
Não, porque muito pouco dos destroços a serem analisados foi recolhido até agora. O que se pode afirmar é que uma sucessão de falhas nos sistemas levou à queda.
Não há somente uma causa?
Uma falha apenas, isoladamente, não levaria à queda. Foi uma sequência de perdas de sistemas que levou à situação de irreversibilidade, a um nível em que o piloto já não tinha mais controle sobre a aeronave. Comparativamente, é como ter um pneu furado com o carro a 120 quilômetros por hora e logo em seguida ter outro pneu furado. Não há como controlar o carro numa situação dessa. Provavelmente foram três ou quatro perdas de sistemas que levaram à queda.
Uma das dificuldades será encontrar as caixas-pretas em alto mar. Como é feita a investigação sem elas?
Primeiro, vale ressaltar que há tecnologia suficiente para se buscar não só as duas caixas-pretas do avião, como também todas as peças que estão no fundo do mar. Mas se as duas caixas-pretas uma com a gravação da conversa do piloto e copiloto e a outra que registra todas as operações efetuadas pela aeronave durante o vôo realmente não forem encontradas, a investigação será baseada apenas nos destroços.
Isso já ocorreu no caso do avião da Transbrasil (Boeing 727 que explodiu após bater em um morro em Florianópolis, em 1980). Junta-se o máximo de destroços e avaliam-se os danos. É possível também fazer a perícia da parte que não se consegue resgatar dos destroços, a partir de suposições. Vai se juntando informações e, ao cruzá-las entre si, algumas delas vão sendo descartadas. Aliás, é exatamente isso o que a fabricante, a Airbus, já deve estar fazendo.
Quanto tempo leva uma investigação desse porte?
Não há como estipular um prazo exato, porque cada acidente tem suas peculiaridades. Mas podemos fazer uma analogia com um caso parecido, o da TWA (em julho de 1996, um Boeing 747 da companhia norte-americana caiu no mar após decolar do aeroporto de Nova Iorque). Foram quatro anos para as investigações serem concluídas.
Uma das possibilidades levantadas é de que o avião poderia ter entrado em uma turbulência com velocidade errada. Isso é possível?
É possível. Cada modelo de avião tem uma velocidade indicada para entrar em uma turbulência, geralmente menor do que a velocidade normal, já que, quanto maior a velocidade nessas ocasiões, maior a pressão na estrutura do avião. Pode ser que o Airbus tenha entrado mais rápido na turbulência, mas não há como afirmar.
Como é feita essa avaliação, de quando reduzir a velocidade em turbulências?
Essa avaliação quem faz é o piloto, baseado nas informações que ele tem dos sistemas. Portanto, o mais provável é de que um desses sistemas tenha falhado, já que, se a turbulência for muito forte, o piloto não entra nela, desvia. Nesse caso, acredito na falha dos sistemas, porque pilotos, bem como a tripulação, não são suicidas e muito menos põem em risco a vida dos passageiros.




