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Lula afirmou que, caso seja eleito, vai “fechar clubes de tiro” e “criar clubes de leitura”.
Lula afirmou que, caso seja eleito, vai “fechar clubes de tiro” e “criar clubes de leitura”.| Foto: Ricardo Stuckert/PT

“Se preparem, porque esses clubes de tiros que foram criados vão fechar, vamos querer clubes de leitura.” A frase foi dita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em evento no último dia 30, e aborda possíveis mudanças em seu governo, caso seja novamente eleito. “Vamos querer bibliotecas espalhadas por esse país afora. Em vez de tiro, vai ter um livro”, seguiu. “Em vez de tiro, as pessoas vão ter acesso à cultura.”

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Está longe de ser a primeira vez em que o petista – que já defendeu porte de armas apenas às Forças Armadas e de segurança – faz comentários do tipo. As críticas se intensificaram durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), seu principal oponente na disputa de 2022 e apoiador da política armamentista no país. O atual presidente e seus filhos, inclusive, já visitaram clubes de tiro para mostrar apoio.

Cientista político e coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec, Adriano Gianturco acredita que há espaço tanto para clubes de tiro quanto para clubes de leitura. “Primeiramente, a sugestão de Lula não vai acontecer. Não se trata de uma proposta concreta, mas apenas uma sinalização de valores, de posição política. Os clubes de tiro são legais no mundo inteiro”, explica. “Em segundo lugar, criou-se essa falsa dicotomia entre livros e armas. Isso não existe.”

A mais recente declaração de Lula não caiu bem a quem gerencia e frequenta esses espaços. Afinal, são negócios legalizados, que movimentam a economia e seguem uma série de regras de segurança para sua atuação. “Na minha opinião, foi uma fala equivocada”, afirma André Átila, gerente do 1911 Shooting Club, em São Paulo, com cerca de 3000 filiados. “Somos um lugar sério, de treinamento, esporte, lazer e até mesmo terapia. Além disso, geramos empregos.”

Vale lembrar que o tiro é um esporte, disputado nas Olimpíadas. Nos Jogos do Rio, em 2016, o paulistano Felipe Wu conquistou um feito raríssimo: uma medalha de prata na categoria pistola de ar de 10 metros. O prêmio anterior na modalidade veio nos longínquos anos de 1920. Para subir ao pódio, Wu precisou treinar em centros especializados – e não em bibliotecas.

Com o suporte de Bolsonaro, principalmente a partir de portarias e decretos que aumentaram o acesso a armas e munições, os clubes de tiro proliferaram desde o início de seu governo. De acordo com dados do Exército, em 2019, foram 232 registros de endereços do tipo; em 2020, 291; e, em 2021, 348. Até março deste ano, houve 82 novos certificados. No total, hoje são 2070 locais do setor no país.

É preciso seguir uma lista de medidas para treinar nesses lugares, a exemplo de não possuir antecedentes criminais, portar equipamento de proteção e só apontar a arma para onde se pretende atirar. Muitos dos frequentadores consistem em interessados em mais segurança em seu dia a dia. Para isso, oferecem-se cursos como o de tiro defensivo, para aprender de que maneira agir em situações de violência.

Para conseguir a posse de arma hoje no Brasil, por meio da Polícia Federal, é preciso ter no mínimo 25 anos, contar com a aprovação em laudos técnicos e psicológicos, comprovar a necessidade da proteção, ter ocupação lícita e residência fixa e não possuir antecedentes criminais. É possível obter a concessão também pelo Exército, mas aí como atirador desportivo, caçador ou colecionador.

“As pessoas acham que é simples, mas não é fácil, nem barato. Contando registro, cursos, filiação em um clube e armamento, gasta-se pelo menos R$ 10 mil”, calcula Átila. “E, diferentemente dos bandidos, que andam com arma de numeração raspada, as nossas são fiscalizadas. Se eu der um tiro para o alto, vou responder por isso.”

O temor de muitos é de que a violência aumente com o crescimento dos clubes de tiro e os registros de porte de arma. Na verdade, não existe certeza sobre isso: há estudos que mostram o aumento de violência com mais armas em determinados locais e, em outros, a redução das ocorrências. Um livro do autor americano John R. Lott Jr., chamado "More Guns, Less Crime" e escrito a partir de estatísticas de 29 anos nos Estados Unidos, contestado por alguns pesquisadores, diz que crimes violentos diminuem quando crescem as leis de porte. Um dos motivos seria porque criminosos ficam receosos de atacar vítimas armadas.

Para o cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando, a declaração recente de Lula busca alcançar seu eleitorado. “Trata-se de uma eleição polarizada, a ideia é marcar posição”, explica. “Se os clubes de tiro cresceram tanto, havia uma demanda reprimida. E não são possibilidades excludentes. Mais clubes de tiro não impedem a criação de mais bibliotecas, mais hospitais, mais teatros…”

Sobre o receio de escalada da violência com novas licenças de porte de arma, o pesquisador cita cautela. “Em uma sociedade já violenta como a nossa, o aumento de armas vai incidir no aumento da violência? A probabilidade é que sim, mas precisamos de pesquisas e dados a longo prazo. Esse assunto demanda mais objetividade e menos paixão”, destaca.

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